O filme que matou Philip Seymour Hoffman — e levou mais de 100 milhões de pessoas ao cinema — está na Netflix Murray Close / Lionsgate

O filme que matou Philip Seymour Hoffman — e levou mais de 100 milhões de pessoas ao cinema — está na Netflix

Há algo de fascinante na previsibilidade que se camufla sob a superfície de um épico distópico. Quando “Jogos Vorazes: A Esperança — O Final” desfila suas últimas cartadas, não surpreende — e, paradoxalmente, é aí que reside sua inquietante coerência. Francis Lawrence, ao reassumir o leme pela terceira vez, não se permite deslizes estéticos ou éticos: conduz com firmeza uma engrenagem já calibrada, contida nas fronteiras definidas por Gary Ross em 2012. A adaptação do último tomo da saga de Suzanne Collins não ousa romper com a métrica previamente adotada, mas retira dos bastidores — das horas extenuantes de gravação e da simbiose entre elenco e universo — uma energia persistente que ancora o interesse do espectador.

Se o projeto poderia ter sido encerrado um ano antes, a diluição em duas partes é uma escolha menos artística e mais estratégica: como ensinaram outras franquias, dividir é multiplicar lucros. E ainda que a manobra tenha o cheiro nítido de cálculo, há algo de inevitável nela, como se fosse o próprio sistema de Panem se espelhando no mercado real. A previsão de um novo capítulo, a prequela “A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes”, novamente sob a direção de Lawrence, apenas reitera a lógica cíclica de um universo que resiste ao fim.

Nesse cenário em ruínas, onde a guerra simbólica exige mais gestos do que palavras, o roteiro confia no não dito. Plutarch Heavensbee, interpretado com precisão contida por Philip Seymour Hoffman em sua despedida póstuma, torna-se parceiro de Katniss sem qualquer elaboração dramática: a ausência de justificativas é um convite à leitura entrelinhas. É nas frestas dessa economia verbal que o filme encontra ressonância. Jennifer Lawrence traduz em olhos e movimentos o fardo de uma figura escolhida sem jamais ter se voluntariado para liderar.

Donald Sutherland, como Snow, não grita; sussurra a decadência de um tirano cuja presença se impõe pelo silêncio. Jena Malone, por sua vez, devolve à narrativa o alívio sarcástico que a série soube explorar com inteligência, mas que aqui é comprimido por uma avalanche de eventos que precisam cumprir prazos. Ainda que não seja mais necessário reafirmar o domínio absoluto da protagonista sobre o projeto, sua entrega física e emocional é o ponto de equilíbrio de um enredo que flerta perigosamente com o enfado. Ao seu lado, Josh Hutcherson continua desbotado, e o vínculo entre Peeta e Katniss parece menos uma conclusão romântica e mais um apaziguamento forçado, como se o amor fosse um prêmio de consolação diante de um mundo esfarelado.

A ausência de subversão — seja estética, narrativa ou emocional — não é um erro de cálculo, mas uma decisão deliberada. “A Esperança — O Final” não quer desconstruir, apenas finalizar com compostura aquilo que se propôs desde o início. Talvez fosse mais potente se ousasse torcer o destino dos personagens principais, transferindo, por exemplo, a linha afetiva para Gale, cujo vigor cênico parece clamar por mais do que recebeu. Mas o que se vê é uma fidelidade quase reverente ao texto de origem, como se os realizadores temessem trair uma legião de fãs com qualquer gesto de autonomia criativa. Isso, por si só, já revela muito sobre a relação entre franquias e seus públicos: o equilíbrio entre entrega e controle, entre expectativa e repetição. Em vez de respostas, o filme parece sugerir que o fim é menos uma solução e mais uma vírgula num ciclo que só terminará quando o mercado assim decidir.

“A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” se anuncia, portanto, não como um renascimento, mas como prolongamento — e isso já diz bastante sobre o que se transformou a saga. O apocalipse, afinal, não está na ficção, mas na previsibilidade da máquina que a sustenta. O que resta ao espectador é decidir se ainda há algo de humano no meio de tanto cálculo. Katniss corre, sangra e escolhe. Nós assistimos.

Filme: Jogos Vorazes: A Esperança – O Final
Diretor: Francis Lawrence
Ano: 2015
Gênero: Ação/Ficção Científica
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★