Há uma crença confortável de que o racismo seja um problema geograficamente localizado — um erro conveniente para quem prefere ignorar as estruturas que o sustentam. Quando se analisa o Reino Unido, por exemplo, os dados superficiais sugerem um sistema equilibrado: a população carcerária beira os 86 mil presos e, em termos proporcionais, está longe do colapso vivido pelos Estados Unidos. Mas um olhar mais atento revela algo inquietante. Em três décadas, o número de detentos praticamente dobrou, mesmo em meio a crises econômicas agudas. O que levou uma sociedade a ampliar sua máquina punitiva em tempos de recessão? Sob a aparente estabilidade jurídica, há mecanismos invisíveis de exclusão que operam com a frieza de quem se esconde atrás da legalidade. O conceito de justiça universal, ancorado nos ideais iluministas da Revolução Francesa e ratificado em 1948 pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, colide com a realidade seletiva de quem tem acesso à ampla defesa. No Reino Unido, essa equação continua inexplorada, principalmente por ausência de iniciativas que desvelem, como faz o documentário “A 13ª Emenda”, as engrenagens institucionais que empurram os corpos negros para os porões do Estado.
O cinema britânico, raramente disposto a examinar sua periferia com honestidade, foi desafiado por um filme que desferiu um golpe onde mais dói: na fantasia de uma sociedade pós-racial. “Blue Story”, de Andrew Onwubolu — também conhecido como Rapman —, não precisou de campanhas publicitárias sofisticadas para polarizar a opinião pública. A simples existência do filme bastou para incomodar. Lançado em novembro de 2019, teve sua força diluída por uma onda de acusações grotescas: chegou a ser rotulado de racista por espectadores incapazes de reconhecer a violência estrutural que assola os bairros operários da Inglaterra. A reação à narrativa foi um reflexo direto do desconforto de quem prefere crer que gangues são ficção de exportação americana ou resquício colonial mal resolvido. Mas os subúrbios londrinos falam por si, e Rapman, vindo de Deptford, conhece de perto o território que dramatiza. Quando os protestos do Black Lives Matter estouraram meses depois, a histeria já havia começado. “Blue Story” apenas antecipou o incômodo que os negacionistas logo amplificariam.
O filme mergulha no embate entre dois jovens, Timmy e Marco, figuras que partem de origens idênticas mas escolhem destinos divergentes. Num cenário onde gangues sem estrutura oficial, mas de organização funcional, se digladiam pela hegemonia do tráfico, o roteiro se ancora nas tensões entre Peckham e Deptford, dois bairros condenados à invisibilidade pelo planejamento urbano e pela negligência deliberada. Timmy tenta resistir ao apelo da violência, mas Marco, coagido pelo irmão mais velho, é empurrado para um papel que não escolheu, mas que aprende a desempenhar com eficácia brutal. O embate não se dá entre o bem e o mal em suas formas arquetípicas, e sim entre dois modos distintos de sobreviver sob a mesma sentença social: crescer num ambiente em que os limites da legalidade são impostos por quem detém o monopólio da força, e não pela escolha de quem vive ali. O roteiro recusa didatismos. Não há mártires nem vilões. O que se vê é uma dança trágica entre lealdades fraturadas, pressões familiares e um ciclo de retaliações que replica a lógica da guerra como método de preservação territorial.
A violência retratada em “Blue Story” não é explosiva — é metódica. É menos sobre tiroteios e mais sobre o desgaste lento de um tecido social que já nasceu esgarçado. O subtexto político se mistura com um lirismo urbano que, embora trágico, jamais se rende ao vitimismo. A escolha por figuras arquetípicas apenas como ponto de partida e não como destino revela a maturidade de Rapman, que se recusa a reduzir sua história a uma denúncia panfletária. Em vez disso, ele constrói uma narrativa onde o melodrama serve como veículo de compreensão, e não como manipulação emocional. Influenciado por Shakespeare e pelas tragédias gregas, o diretor injeta teatralidade e fatalismo em sua trama sem perder a mão, criando um ambiente onde as escolhas individuais se tornam quase irrelevantes diante das forças que as cercam.
A originalidade de “Blue Story” reside em sua capacidade de tensionar o realismo documental com o vigor estilístico de um contador de histórias nato. Rapman — cujas origens no YouTube permitiram uma liberdade estética rara — transforma sua vivência em matéria-prima narrativa, sem a pretensão de representar um coletivo, mas com a consciência de estar articulando uma verdade negligenciada. Sua direção revela uma sensibilidade que não se apoia no virtuosismo técnico, mas numa escuta aguda dos silêncios da periferia, das hesitações que precedem o disparo, dos olhares que gritam antes da violência. Essa atenção ao detalhe torna o filme mais contundente do que qualquer discurso programático.
O mérito do filme não está em seu “realismo social” — expressão frequentemente usada para esvaziar o valor artístico de produções que abordam temas desconfortáveis. Está, antes, na recusa em oferecer soluções ou diagnósticos. “Blue Story” não se propõe a explicar, mas a incomodar. Não entrega redenção, tampouco conforto. Sua força está em evidenciar a fratura que a Inglaterra branca prefere ignorar: a existência de uma juventude negra para quem o futuro é um conceito teórico, e a escolha entre a prisão e a morte não é metáfora — é estatística. Num continente que se orgulha de sua racionalidade institucional, o filme insinua uma pergunta incômoda: quem define o que é civilizado quando o aparato jurídico ignora sistematicamente determinadas vidas?
Mais do que um registro sobre gangues juvenis ou violência urbana, “Blue Story” age como um sismógrafo que detecta rupturas invisíveis no solo europeu. Se não houver quem interprete esses sinais, o abalo será sentido tarde demais. O filme existe como um desses avisos que quase ninguém quer ouvir — e justamente por isso, deveria ser visto com olhos desarmados e mente aberta. Não como curiosidade sociológica, mas como a crônica urgente de um país que ainda se recusa a escutar sua periferia.
★★★★★★★★★★