Em meio aos destroços emocionais deixados pela Primeira Guerra Mundial e à rigidez dos rituais aristocráticos britânicos, “Domingo das Mães” se constrói sobre ausências irremediáveis e encontros que desafiam a efemeridade do tempo. A diretora Eva Husson, ao adaptar o romance de Graham Swift sob o roteiro de Alice Birch, estrutura uma narrativa fragmentada que acompanha Jane Fairchild em sua jornada por diferentes estágios da vida, enquanto oscila entre papéis impostos e desejos latentes.
Em 1924, Jane é uma jovem empregada que se entrega a um último e furtivo encontro com Paul Sheringham, o único sobrevivente de um grupo de amigos ceifados pela guerra. Esse momento íntimo se desdobra sob a sombra de um almoço formal organizado pelos pais de Paul e pelo casal Niven, os patrões de Jane, cujas dores silenciosas se fazem sentir na presença contida de Mr. e Mrs. Niven, interpretados com eficiência por Colin Firth e Olivia Colman. A perda paira sobre cada gesto, cada pausa, cada olhar que revela mais do que as palavras jamais poderiam expressar.
Ao contrário das convenções vitorianas frequentemente exploradas no cinema britânico, “Domingo das Mães” aposta em uma atmosfera sensorial e um realismo visceral que intensifica a experiência do romance. Odessa Young, como Jane, transita entre a passividade de uma observadora e a potência latente de alguém prestes a reivindicar sua própria narrativa. Colin Firth e Olivia Colman, em performances contidas, mas profundamente expressivas, incorporam personagens que personificam o luto e a impossibilidade de seguir em frente sem carregar o peso do passado. Enquanto o Sr. Niven disfarça sua dor sob uma cordialidade forçada, sua esposa oscila entre a hostilidade e a vulnerabilidade, expondo as rachaduras de uma vida moldada pela perda.
A fotografia de Jamie D. Ramsay traduz a melancolia e a efemeridade do filme por meio da luz natural e da exploração dos espaços vazios, que ampliam a sensação de solidão e transitoriedade. A nudez frequente, longe de ser gratuita, emerge como um elemento narrativo que reforça a fragilidade dos personagens e a inevitabilidade da separação. O romance entre Jane e Paul, marcado pelo desejo, carrega a consciência amarga da despedida iminente – como se ambos já soubessem que aquele dia selaria um destino inescapável.
A narrativa se desenrola em múltiplas temporalidades, acompanhando Jane em diferentes momentos de sua vida. Anos depois, ela encontra em Donald (Sope Dirisu) um companheiro cuja serenidade contrasta com as sombras que a acompanham desde a juventude. Décadas mais tarde, Jane, agora interpretada por Glenda Jackson, se revela uma escritora consagrada que revisita suas memórias com um olhar que mescla distanciamento e nostalgia. Essa estrutura não linear, que poderia facilmente resultar em um exercício estilístico excessivo, é conduzida com sutileza, garantindo que cada linha temporal possua uma identidade própria, ainda que interligada pelo fio invisível da memória.
Uma das escolhas mais debatíveis do filme é a presença de Jane idosa como narradora. Embora essa abordagem dialogue com o romance original, há momentos em que a exposição verbal poderia ser substituída por uma construção mais sugestiva das imagens, permitindo ao espectador preencher certas lacunas por conta própria. Ainda assim, a atuação de Glenda Jackson adiciona camadas à personagem, conferindo-lhe uma presença marcante mesmo nas cenas mais breves.
“Domingo das Mães” gira em torno da interseção entre amor e perda, juventude e maturidade, vivência e literatura. A direção sensível, a composição visual refinada e a força interpretativa do elenco garantem que, ainda que toque em elementos já explorados no cinema, o filme se estabeleça como uma reflexão autêntica e visceral sobre as cicatrizes do tempo. Em sua delicadeza e em seu olhar sobre o inexorável, permanece como um retrato de emoções que se prolongam muito além da tela.
★★★★★★★★★★