Pierce Brosnan estrela filme inspirado no livro que é considerado a maior aventura de todos os tempos — na Netflix Divulgação / American Broadcasting Company

Pierce Brosnan estrela filme inspirado no livro que é considerado a maior aventura de todos os tempos — na Netflix

O suicídio, de acordo com o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917), é a única questão que importa na vida, dada sua complexidade dos pontos de vista sociológico, metafísico e religioso. Se mantivermo-nos longe da perdição maior do homem e ficarmos aqui, neste plano, frente a frente com nossos tantos dilemas vitais, superando nossas fraquezas, convertendo-as em alguma coisa que pode não ser propriamente virtude, mas que liberta-nos do círculo vicioso da autopiedade e da maldição das emoções represadas, já teremos, como diz Durkheim, cumprido boa parte do papel de que a vida nos encarrega. Entregar-se passa longe dos desejos mais secretos de Robinson Crusoé. Volta e meia, o náufrago mais famoso da literatura emerge das profundezas, e em 1997, Rod Hardy e George T. Miller (1943-2023) também acharam de recontar essa história. Baseada no romance canônico de Daniel Defoe (1660-1731), de 1719, a versão de Hardy e Miller para “Robinson Crusoe” volta a aspectos emblemáticos do livro de Defoe, mas abafa pontos que no original eram nada menos que geniais.

Desde o instante mais primitivo de nossas vidas, momento em que nos damos conta de uma incôndita noção de humanidade, passa a nos acompanhar também a ideia de que o quer que desejemos exige sacrifício, às vezes tolerável, outras nem tanto. Quanto mais se gozam as falsas delícias do mundo, mais se tem claro que nenhuma delas satisfaz a vastidão das necessidades e das humanas carências, pelo contrário: àquela sensação primeira, tão aprazível, soma-se o fumo de alguma coisa que queima na pira de destruição em que arde a alma do homem desde o princípio dos tempos, alimentada até o Juízo Final, e mesmo no além-mundo choro e ranger de dentes serão uma constante, prova de que até depois da morte ninguém se livra do quis e fez quando vivo, como num quadro renascentista. Há quem creia que o homem já traz na carne seu destino, pelo qual deverá responder quando chegar a hora, sendo ou não merecedor da redenção mediante a nova vida em que irá desfrutar dos prazeres que lhe foram negados em sua primeira vinda ao mundo. 

Tragédias apresentam-se sob formas as mais impensáveis na vida dos homens. Crusoé é desses indivíduos raros, que sobrevivem a infortúnios e desastres e passam a lidar com a existência dando-lhe a importância de uma espécie de ressurreição, insurgindo-se contra os abusos de sua própria sina, bradando com todas as letras ao universo que merece a vida, ou seja, um vitorioso. Em 1703, depois de matar um adversário num duelo, no qual os dois pleiteavam o coração de uma mulher, o escocês Crusoé deixa seu país natal, mas seu navio acaba por naufragar numa ilha remota.

Os roteiristas Tracy Keenan Wynn e Christopher Lofton passam então a elaborar como pode ser essa outra identidade de Crusoé, especialmente depois que conhece Sexta-Feira, um nativo amigável que o ajuda sobretudo a deixar de lado velhos preconceitos e aprender a superar a angústia de talvez de nunca mais tornar à civilização, um medo que de fato ele vai mantendo mais e mais distante. Os diretores se afastam dos temas sérios de Defoe, a exemplo de supremacia branca, imperialismo britânico, colonialismo, racismo, para concentrar-se na amizade entre o personagem-título e Sexta-Feira, um show de carisma de Pierce Brosnan e William Takaku. Há quem prefira o caimento preciosista que Luis Buñuel (1900-1983) dá ao conto, em “Aventuras de Robinson Crusoé” (1954), mas a verdade é que esta é uma leitura assumidamente pop de um clássico da literatura universal, no que leituras pop sempre têm de arriscadas e estimulantes.

Filme: Robinson Crusoe
Diretor: Rod Hardy e George T. Miller
Ano: 1997
Gênero: Ação/Aventura
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.