“A vida é solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”, disse Thomas Hobbes (1588-1579) em seu “Leviatã” (1651). É verdade, mas a frase pode fazer ainda mais sentido para gente como Jane Fairchild, a empregada doméstica de um casal endinheirado da Inglaterra da terceira década do século 20 que, a muito custo, faz da existência algo mais que a espera pela morte. Adaptado do romance de mesmo título de Graham Swift, de 2016, “O Domingo das Mães” é uma profissão de fé na literatura, representada por Jane, uma mulher obstinada, que não se deixa vencer pelo cansaço e pela rotina falta de sentido de cozinhar, lavar e nas horas vagas imaginar-se ganhando a vida com seu talento para a observação e o consequente registro gráfico e artístico do que estar no mundo, partindo da sensaboria do cotidiano dos ricos. Eva Husson compõe um filme delicado em cada uma de suas minudências, uma história que junta à perfeição o simples e o sofisticado, esquadrinhando a alma de sua personagem central com violência e ternura, com método e emoção.
A roteirista Alice Birch encadeia imagens e palavras de modo a fazer “O Domingo das Mães” parecer uma janela, por cujas frestas quem assiste esgueira-se tentando entender o que acontece no interior daquela casa faustosa e meio tranquila demais, talvez um mausoléu de mortos-vivos. A certa altura, Godfrey Niven, o patrão de Jane, pergunta-lhe, enquanto toma o desjejum com a esposa, Clarrie, o que ela fará em sua folga naquele 30 de março de 1924, Dia das Mães no Reino Unido, e então Husson começa a estruturar a narrativa, e ninguém suspeita que um dos passatempos de criada seja ir para a cama com Paul Sheringham, o último herdeiro varão de uma família aristocrática da vizinhança. Em onze dias, Paul contrairá núpcias com Emma Hobday, uma jovem do seu estrato social, mas enquanto isso os dois refestelam-se, com direito às sequências de nudez frontal de Odessa Young e Josh O’Connor, estratégicas e plenas de lirismo, o que remete o espectador a “O Amante de Lady Chatterley” (2022), da atriz e diretora francesa Laure de Clermont-Tonnerre.
Aqui e ali, entre um e outro encontro de Jane e Paul, surgem referências a Virginia Woolf (1882-1941) de “Um Quarto Só Seu” (1929) e “Orlando” (1928), além de “Sequestrado” (1886), o romance histórico do escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894), e debates amenos sobre cada autor e cada livro, que Jane acaricia como se fosse a pele alvíssima de Paul, que sai de cena e dá lugar a Donald, seu novo namorado afrodescendente. Pode gerar alguma estranheza Colin Firth e Olivia Colman tomarem parte em
“O Domingo das Mães”, mas esse sentimento logo arrefece diante da afinidade entre Young e Sope Dirisu, que deixam a margem exata para que a diretora leve a trama à contemporaneidade e para isso disponha de Glenda Jackson (1936-2023) na pele de Jane Fairchild idosa, numa de suas últimas aparições no vídeo. Husson não faz nada de novo ou revolucionário neste trabalho instigante e, sobretudo, bonito. Mas o que seria da arte sem a beleza? E o que seria de nós sem a arte?
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