Thriller de ficção científica que vai fazer seus olhos brilharem como diamantes diante da TV, na Netflix Divulgação / Netflix

Thriller de ficção científica que vai fazer seus olhos brilharem como diamantes diante da TV, na Netflix

Entre a grandiosidade visual e a fragilidade narrativa, “Terra à Deriva” se apresenta como um espetáculo que polariza a crítica. Adaptado da obra homônima de Liu Cixin, o filme chinês de 2019 é uma ousada tentativa de colocar o cinema de ficção científica chinês no centro das atenções globais. A trama gira em torno de um projeto impossível: a humanidade tenta salvar a Terra da destruição do Sol, movimentando o planeta para um novo sistema estelar usando propulsores gigantescos. A proposta, monumental por si só, é acompanhada de uma escala visual impressionante e efeitos especiais de tirar o fôlego. Contudo, a ambição do filme não se reflete igualmente em sua construção narrativa, que falha em entregar uma história coesa e com personagens memoráveis.

Embora a premissa de “Terra à Deriva” sugira uma trama de ficção científica instigante, a execução deixa muito a desejar. O enredo exige do espectador uma suspensão quase total de descrença, já que as falhas lógicas são evidentes. A narrativa é pontuada por reviravoltas previsíveis, que enfraquecem a tensão e a imprevisibilidade que se espera de um filme desse porte. Um exemplo claro dessa falha está na morte repentina de um dos personagens principais, que sucumbe ao congelamento sem qualquer explicação plausível. Esse tipo de situação se repete ao longo do filme, criando um senso de desconexão que prejudica a experiência do público. Para quem busca uma história sólida, onde as ações são fundamentadas em motivos e acontecimentos bem desenvolvidos, “Terra à Deriva” pode soar como um compêndio de clichês reciclados de filmes catástrofes do passado, como “Armageddon” e suas várias imitações.

Em contraste com a fragilidade da narrativa, a produção técnica do filme é um espetáculo à parte. A qualidade dos efeitos especiais, o design de produção e os figurinos são indiscutivelmente impressionantes, com cenas de destruição em massa de grandes cidades como Xangai, Nova York e Paris que lembram as superproduções hollywoodianas, mas com um toque distintamente chinês. A escala visual é, sem dúvida, o maior trunfo de “Terra à Deriva”, e a magnitude das imagens consegue manter o espectador imerso na ação. No entanto, esse apelo visual perde força em parte devido à dublagem em inglês e às legendas, que muitas vezes comprometem o impacto emocional das cenas. As traduções, muitas vezes imprecisas e simplistas, retiram parte da complexidade e da sutileza que poderiam ser transmitidas nas interações dos personagens.

Falando em personagens, o filme peca gravemente na construção das figuras centrais da história. Liu Qi e sua irmã adotiva, Duoduo, são pouco desenvolvidos e, em muitos momentos, se comportam de maneira imatura e irritante, afastando o público de qualquer tentativa de empatia. A relação entre os dois é tratada de forma superficial, e as tentativas de gerar um vínculo emocional entre eles soam forçadas e artificiais. Por outro lado, Wu Jing, o veterano ator que interpreta o líder da missão, consegue dar mais peso dramático ao seu papel, oferecendo uma interpretação mais convincente, embora ainda dentro dos limites de um personagem pouco aprofundado. A falta de complexidade nas interações entre os personagens principais faz com que as cenas emocionais, que pretendiam gerar impacto, falhem em estabelecer uma conexão genuína com o público.

Mesmo com esses aspectos negativos, “Terra à Deriva” representa um avanço importante para o cinema chinês, particularmente no gênero de ficção científica. O filme se distancia da tendência de nacionalismo exagerado que marca muitas produções locais, oferecendo uma perspectiva mais global e sem cair na tentação da propaganda patriótica. Essa abordagem mais equilibrada é um ponto positivo, já que permite que o filme dialogue com audiências internacionais sem perder sua identidade cultural. Além disso, o filme desperta curiosidade pelo material original, o conto de Liu Cixin, levando muitos a buscar a obra literária para entender melhor a visão do autor. Caso o cinema chinês invista em roteiros mais refinados e menos dependentes de efeitos visuais, pode emergir como uma força ainda mais competitiva no mercado global de ficção científica, com o potencial de produzir obras que combinem inovação técnica e narrativa de qualidade.

Filme: Terra a Deriva
Diretor: Frant Gwo
Ano: 2019
Gênero: Ação/Aventura/Épico/Ficção Científica/Thriller
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★