Em um cenário geopolítico instável, onde realidades extremas frequentemente superam a ficção, uma missão do Mossad nos anos 1980 desafiou qualquer padrão convencional de espionagem. O plano? Utilizar um resort à beira-mar no Sudão como fachada para resgatar judeus etíopes e transportá-los clandestinamente para Israel. A premissa, digna de um thriller de alto risco, carrega ecos de “Argo”, mas com um pano de fundo singular e desafios distintos. No entanto, a transposição desse feito para as telas levanta questões sobre a verossimilhança dos eventos retratados e a profundidade com que os personagens e seus dilemas morais são desenvolvidos.
A tentativa de equilibrar entretenimento e relevância histórica esbarra em armadilhas previsíveis. A narrativa, por vezes, reduz-se a uma colagem de clichês do gênero, com protagonistas excessivamente polidos, antagonistas monolíticos e reviravoltas que seguem um roteiro pré-formatado. O enredo adota a estrutura clássica de thrillers de espionagem: um plano ousado, ceticismo inicial das autoridades e, por fim, a inevitável aprovação relutante, garantindo que tudo se desenrole com a previsibilidade de um manual de operações. Certos momentos desafiam a lógica: soldados sudaneses inspecionam caminhões, mas desconsideram a possibilidade de serem os mesmos que atravessaram um bloqueio apenas porque não apresentam marcas de bala — um detalhe que ignora completamente os estragos estruturais esperados de tal ação.
Um dos aspectos mais intrigantes da história real, e que poderia ter sido melhor explorado, é o próprio resort utilizado como fachada. Situado em uma região à beira do colapso, o local chegou a atrair turistas europeus desavisados, ilustrando uma era em que certos destinos eram vistos com um exotismo quase ingênuo. Esse paradoxo — um refúgio idílico em meio ao caos — merecia um aprofundamento que ultrapassasse sua mera função de pano de fundo. No entanto, o filme mantém-se focado no resgate, perdendo a chance de expandir o contexto sociopolítico da época e os efeitos colaterais dessa operação na dinâmica local.
No que tange aos personagens, a superficialidade predomina. Os agentes israelenses são representados de maneira funcional, sem grandes camadas psicológicas. Um exemplo disso é o assassino vivido por Alex Hassell, cuja personalidade potencialmente intrigante se dissolve em aparições pontuais sem impacto real. Da mesma forma, os demais integrantes da equipe transitam pelo enredo sem arcos narrativos significativos, deixando escapar oportunidades de desenvolver tensões internas e conflitos individuais que poderiam enriquecer a trama.
Apesar dessas fragilidades, a produção oferece momentos de tensão bem orquestrados, apoiados por uma ambientação convincente e uma estética que confere credibilidade ao período retratado. A violência, embora presente, é utilizada com parcimônia, exceto em uma cena brutal ambientada em um campo de refugiados, cuja intensidade resgata a urgência da missão. O elenco, com destaque para Chris Evans, entrega performances que carregam o filme, ainda que o roteiro não lhes dê profundidade suficiente para superar os estereótipos do gênero.
Para o público em busca de uma narrativa linear e eficiente, o filme pode ser uma escolha satisfatória. Seu impacto se ancora no peso da realidade que inspira a história, lembrando que, mesmo em um mundo saturado de crises humanitárias, ações como essa permanecem relevantes. No entanto, aqueles que esperam uma abordagem mais sofisticada e reflexiva sobre espionagem, geopolítica e resgate humanitário poderão sentir que a produção se limita a uma versão domesticada de um gênero já explorado à exaustão. Ainda assim, como entretenimento bem executado, mantém o interesse e, dentro de suas limitações, entrega uma experiência cinematográfica envolvente.
★★★★★★★★★★