O filme de R$ 4 bilhões que consagrou Julianne Moore com a maior bilheteria de sua carreira acaba de chegar à Netflix Murray Close / Lionsgate

O filme de R$ 4 bilhões que consagrou Julianne Moore com a maior bilheteria de sua carreira acaba de chegar à Netflix

Um vazio latejante atravessa cada silêncio em “Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1”, onde o que resta não é apenas o rescaldo da violência, mas a suspeita de que não há mais inocência a resgatar. A distopia, antes centrada nas arenas, agora se alastra como um vírus pelos subterrâneos da civilização, transformando cada gesto em performance política. Francis Lawrence, ao remodelar o campo de batalha para além do espetáculo, recusa qualquer ilusão de pureza: em Panem, até o heroísmo é manipulado por câmeras. Não há trégua no olhar de Katniss — nem para si mesma.

Ela hesita, mas nunca recua, como se a inércia tivesse se tornado sua arma mais contundente. A rebelião não se resume a bombas e slogans: está no modo como sua imagem é explorada, redimensionada e devolvida ao povo como uma fábula útil. A adaptação compreende que a guerra mais brutal se trava nos bastidores da comunicação. Peter Craig e Danny Strong constroem um roteiro que rejeita a adrenalina fácil, investindo na corrosiva banalidade do poder e na lenta decomposição das certezas. O que está em jogo não é o combate físico, mas o controle do que será lembrado.

Jennifer Lawrence atua como quem carrega o peso de um país — e, de certo modo, carrega. Sua entrega torna o colapso palpável, especialmente quando colocada frente a frente com a fragilidade quase ornamental de Josh Hutcherson. Entre eles, há menos diálogo do que reverberação de ausências. Peeta, esvaziado por torturas e câmeras, torna-se reflexo do sistema que o devora. Já Katniss, tornada símbolo sem pedir, precisa encenar sua própria dor para que o público reaja. A liderança não lhe é conferida: é imposta como punição.

Nesse teatro de sombras, Donald Sutherland refina o presidente Snow até torná-lo um espectro de sofisticação venenosa. Suas interações com Caesar Flickerman, figura grotescamente carismática interpretada por Stanley Tucci, acentuam o descompasso entre opulência e ruína. A propaganda do Capitólio não tenta mascarar a violência — a estetiza. Julianne Moore, como Alma Coin, insinua outro tipo de controle: mais sutil, mais frio, mas igualmente manipulador. Entre Snow e Coin, a diferença não é de métodos, mas de timing.

Liam Hemsworth, como Gale, e Elizabeth Banks, como Effie Trinket, compõem com habilidade esse mosaico de lealdades condicionadas. Gale personifica a raiva sem direção clara; Effie, por sua vez, oscila entre ironia e resignação, e seu humor revela fissuras em uma estrutura prestes a ceder. Woody Harrelson, mesmo em aparições breves, mantém Haymitch como bússola moral torta, alguém que compreendeu cedo demais os limites do heroísmo. E então há Philip Seymour Hoffman — despedindo-se com elegância amarga.

Sua presença, mesmo que parcial, sustenta uma dimensão que vai além da tela: a de que todo esse universo, por mais fictício que seja, reverbera algo essencialmente humano — e devastador. O filme, dedicado a ele, se torna mais do que uma continuação; é uma elegia disfarçada de blockbuster. “A Esperança — Parte 1” recusa a catarse, optando pelo incômodo. Porque, em um mundo onde tudo pode ser convertido em narrativa, o gesto mais subversivo talvez seja não oferecer final nenhum.

Filme: Jogos Vorazes: A Esperança — Parte 1
Diretor: Francis Lawrence
Ano: 2014
Gênero: Aventura/Ficção Científica
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★