Robert Zemeckis notabilizou-se por enfrentar o tempo, e vencê-lo de uma maneira bem especial. Ao longo da carreira, Zemeckis foi cristalizando junto ao público e à própria indústria a vontade de empreender algo grandioso, sempre tendo por fixação o passar dos anos. Decerto foi com “De Volta para o Futuro” (1985) que o diretor tornou evidente sua intenção de desafiar a cadência dita natural dos acontecimentos e dos registros mais prosaicos da vida ordinária de gente comum, uma marca de seu trabalho, e em “Aqui” ele revisita sua velha obsessão sob uma perspectiva um pouco mais altissonante. Agora, Zemeckis conta sua versão da história da humanidade, valendo-se de uma casa a partir da qual o relógio avança ou retrocede, chegando à Era Mesozoica, antes que um meteoro acabasse com tudo e o homem enfim tivesse a chance de ele mesmo destruir o planeta, que deveria ser uma imensa vizinhança.
Baseado na história em quadrinhos de Richard McGuire, de 2014, Zemeckis põe a câmera num ponto do cenário e deixa que a ação ganhe corpo, dividindo a tela em quadros, por meio dos quais outras narrativas passam a despontar. Depois da extinção dos dinossauros, segue-se a colonização, com nativos cedendo espaço a brancos munidos de arcabuzes e mosquetes, chegando a Benjamin Franklin (1706-1790) e suas angústias de pai que perde um filho aos quatro anos. O roteiro de Eric Roth enxerga o século 20 como uma avalanche do capitalismo e as demandas que inventa e, claro, a selva densa e verdejante da primeira sequência virou uma bela casa de subúrbio tipicamente americana, cuja única dependência acessada público é a sala. Estamos nos anos 1910, e o grande receio de Pauline Harter, a moradora interpretada por Michelle Dockery, é ficar viúva antes da hora, porque seu marido, John, de Gwilym Lee, não tira da cabeça o projeto de um meio de transporte que tenha o céu por rodovia. Passados trinta anos, o casal Lee e Stella Beekman, de David Fynn e Ophelia Lovibond, queima os fusíveis para desenvolver a poltrona reclinável, e por fim entram em cena Al e Rose Young, um ex-soldado da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e sua esposa, que raspam os três mil dólares de suas economias e adquirem a casa.
Richard, um dos filhos de Al e Rose, é um aspirante a artista que engravida Margaret, a namorada do ensino médio, e é forçado a aceitar o emprego de vendedor de seguros para sustentar sua nova família. Os dois passam a também morar na casa, junto com os pais e os irmãos de Richard, e a partir desse ponto “Aqui” mostra uma certa inconstância na medida em que não deixa de despertar sentimentos e reflexões, mas não é capaz de dizer exatamente aonde quer chegar. O incômodo maior é sem dúvida o rejuvenescimento mediante inteligência artificial de Tom Hanks e Robin Wright, o que por óbvio evoca no espectador a lembrança de “Forrest Gump — O Contador de Histórias” (1994), risco com que Zemeckis certamente já contava. Mas o que a certa altura é deveras aflitivo é a sensação de teatro filmado — que, ao contrário de Lars von Trier em Dogville (2003), Zemeckis não consegue debelar —, a que se junta o déjà vu de Hanks e Wright em “Forrest Gump”. “Aqui” é Robert Zemeckis puro, no que isso possa ter de inovador e de cansativo.
★★★★★★★★★★