Suspense inquietante que vai te fazer duvidar de tudo, inclusive de si mesmo, está na Netflix Eric Zachanowich / Netflix

Suspense inquietante que vai te fazer duvidar de tudo, inclusive de si mesmo, está na Netflix

Poucos thrillers psicológicos conseguem equilibrar com tamanha precisão a imersão narrativa, a complexidade psicológica e a tensão progressiva de “Fratura”. O filme, sob uma aparente simplicidade, se revela um engenhoso labirinto de percepções, colocando o espectador diante da fragilidade da memória, da distorção dos fatos e do embate entre paranoia e realidade.

O ponto de partida é comum: uma família viaja para o feriado de Ação de Graças e faz uma breve parada em um posto de gasolina. Um incidente fortuito leva a filha do protagonista ao hospital, onde o que deveria ser um atendimento trivial se transforma em um enigma angustiante. Os registros médicos contradizem as lembranças do pai, dando início a uma espiral de incertezas que desafia não apenas o protagonista, mas também a audiência. O que está acontecendo? Existe uma conspiração silenciosa ou tudo não passa de um delírio induzido por traumas ocultos?

Brad Anderson, cineasta com um olhar apurado para o suspense psicológico, conduz a narrativa com maestria. A cinematografia claustrofóbica e o jogo de luz e sombra não são meros artifícios estéticos, mas peças fundamentais para amplificar a sensação de desorientação e angústia. A trilha sonora, em vez de recorrer a estratégias convencionais como sustos repentinos, trabalha de maneira sub-reptícia, construindo uma atmosfera de inquietação crescente. O roteiro de Alan B. McElroy aposta no minimalismo narrativo, confiando na inteligência do espectador e na força do subtexto para manter o mistério vivo até o último quadro.

Sam Worthington, no papel principal, entrega uma atuação visceral, capturando com precisão a escalada de obsessão e desespero de um homem que luta contra uma realidade que insiste em contradizê-lo. Sua performance é sustentada por um elenco de apoio igualmente eficaz, que confere verossimilhança à crescente tensão psicológica. Lucy Capri, interpretando sua filha, adiciona uma dimensão emocional ao filme, evitando os clichês frequentemente atribuídos a personagens infantis no gênro.

Embora o longa não reinvente os códigos do suspense psicológico, sua execução irrepreensível o distingue dentro do gênro. As semelhanças com “Ilha do Medo”, “O Amigo Oculto” e “Plano de Voo” são evidentes, mas a trama encontra sua própria identidade ao não se limitar à dúvida sobre a confiabilidade das memórias. O filme investiga, com perspicácia, a forma como a mente humana lida com o trauma e as construções ilusórias que podem emergir da dor e da culpa.

Distante de um entretenimento descartável, a história deixa rastros que persistem após o fim. Em tempos de dispersão digital, onde qualquer distração é suficiente para fazer o espectador desviar os olhos da tela, um thriller que prende a atenção do início ao fim se torna uma experiência rara. “Fratura”, sem sombra de dúvida, pertence a essa categoria.

Filme: Fratura
Diretor: Brad Anderson
Ano: 2019
Gênero: Drama/Mistério/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★