Prepare-se: novo filme com Denzel Washington está na Max — e você vai querer assistir duas vezes Divulgação / Columbia Pictures

Prepare-se: novo filme com Denzel Washington está na Max — e você vai querer assistir duas vezes

Num gênero onde a previsibilidade costuma ser parte do pacote, “O Protetor: Capítulo Final” escapa à armadilha de repetir-se ao assumir o risco da depuração. Não se trata apenas de encerrar uma trilogia ou de reposicionar um justiceiro solitário no idílio aparente de uma vila italiana. Trata-se, sobretudo, de submeter Robert McCall à mais desconcertante de suas missões: a de descobrir se há vida possível fora da violência. Antoine Fuqua, ao optar por uma abertura de impacto quase silencioso — corpos mutilados em vinhedos, trilha tensa de Marcelo Zarvos e McCall ferido, frágil, desorientado —, embaralha os códigos habituais do herói invencível. Não há bravata, não há pose. Apenas um homem exausto que, pela primeira vez, hesita. É nesse hiato que o filme planta suas questões mais incômodas: o que resta de um guerreiro quando a guerra parece ter acabado? E, mais ainda, será possível redimir-se após ter feito da punição um método e do sangue um idioma?

A tentativa de resposta passa pelo convívio, não pela catarse. Ao escolher ambientar grande parte do filme em uma cidadezinha na Sicília, o roteiro de Richard Wenk não apenas desloca a ação geograficamente, mas também altera o compasso moral da narrativa. O ex-agente, agora instalado entre um peixeiro generoso, uma dona de café espirituosa e um padre de olhar compreensivo, ensaia um tipo de pertencimento que nunca lhe foi permitido. Ao contrário da rigidez dos códigos da CIA, McCall se integra por meio da escuta e da convivência, até que a realidade volte a escancarar sua vocação para o enfrentamento. O inimigo, desta vez, é menos estilizado e mais cruel em sua banalidade: um grupo mafioso que escraviza imigrantes e financia terror com o tráfico de uma droga jihadista. Não se trata de um grande antagonista, mas de um sistema cancerígeno que prospera sobre a passividade. Ao perceber que sua nova comunidade vive sob essa sombra, McCall abandona qualquer ensaio de paz e reencontra, no gesto violento, sua forma particular de justiça.

Essa dualidade entre contenção e fúria, entre redenção e recaída, é sustentada com maestria por Denzel Washington, que não interpreta McCall — ele o habita. Nenhum outro ator da atualidade conseguiria dizer tanto com tão pouco: o caminhar metódico, o olhar absorto, os lábios que se comprimem antes do ataque. Tudo nele carrega um sentido de urgência silenciosa, como se cada movimento fosse calculado não só para eliminar o inimigo, mas para conter um impulso mais sombrio que lhe habita. Há em sua performance um cansaço elegante, como se cada execução fosse menos um ato de revanche e mais um peso adicional em uma alma já soterrada por memórias. Mesmo quando o filme recorre a símbolos evidentes — o sangue que se mistura ao vinho, por exemplo —, a força simbólica não é reduzida à obviedade, pois encontra no corpo de Washington o lugar exato da ressonância. Ele não está ali para glorificar a violência, mas para torná-la inescapável.

E se o embate com a máfia carece da inventividade de duelos anteriores — como o icônico confronto no depósito do primeiro filme —, isso não empobrece a construção dramática. O que se perde em adrenalina se compensa em subtexto. A introdução da agente Emma Collins, vivida por Dakota Fanning, amplia a complexidade da narrativa sem comprometer sua linearidade. Há entre os dois uma tensão familiar que transcende a simples dinâmica entre mentor e pupila. Fanning, que já havia atuado com Washington em “Chamas da Vingança”, traz de volta uma doçura irônica que humaniza o protagonista sem jamais suavizá-lo. Suas interações funcionam como pequenos refúgios narrativos, momentos de pausa em meio ao colapso moral que ronda o enredo. O roteiro, consciente de seu equilíbrio delicado entre introspecção e espetáculo, nunca permite que esses momentos se tornem didáticos ou artificiais. Cada gesto de confiança entre os dois personagens é construído com o mesmo rigor que se dedica aos assassinatos silenciosos, criando uma simetria narrativa incomum em thrillers contemporâneos.

Mas “O Protetor: Capítulo Final” não busca, em momento algum, reformular o arquétipo do vigilante. O que faz — e com rara precisão — é tensioná-lo até o limite, obrigando o espectador a reconhecer as contradições éticas que sustentam esse tipo de figura. McCall não é um herói em conflito, mas um justiceiro que já entendeu que o mundo não oferece alternativas viáveis à sua forma de operar. Não há apelo à autoridade, não há fé na justiça institucional — só a certeza de que, diante do horror cotidiano, ele é a última linha antes do colapso. Essa consciência impregna cada sequência, cada morte, cada escolha estética de Fuqua, que filma o protagonista ora como uma sombra silenciosa, ora como um espectro iluminado por vitrais ou por reflexos de sangue. O diretor, longe de estetizar a violência, decide enquadrá-la como um dado incontornável da realidade. O resultado é um filme que, mesmo preso à estrutura de franquia, escapa ao trivial por meio de uma mise-en-scène que entende o peso simbólico de cada imagem.

Nada aqui se resolve por catarse. Ao contrário: o que se instala é uma inquietação que perdura após os créditos. McCall pode até eliminar seus inimigos com eficiência implacável, mas o filme não lhe concede a paz como recompensa. O vilarejo pode aplaudi-lo na praça, em uma cena que flerta com o clássico momento de resistência coletiva de “Spartacus”, mas há uma melancolia contida nesse reconhecimento. A figura que se impõe não é a do salvador, mas a do homem que não teve escolha. “O Protetor: Capítulo Final” encerra uma trilogia que jamais romantizou seu protagonista. E é justamente por isso que seu desfecho tem peso. Não pela grandiosidade da ação, mas pela constatação de que, num mundo onde o mal não se esconde mais nas sombras, mas desfila a céu aberto, figuras como McCall são menos mitos de ação e mais sintomas de um colapso ético que já se naturalizou.

Filme: O Protetor: Capítulo Final
Diretor: Antoine Fuqua
Ano: 2023
Gênero: Ação/Thriller
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★