A longevidade artística costuma ser medida por reinvenção, mas, em certos casos, a fidelidade obsessiva a um mesmo dilema revela algo ainda mais fascinante: a recusa em domesticar o caos. Em “Golpe de Sorte em Paris”, Woody Allen revisita o território onde se sente mais confortável — o das decisões morais obscuras travestidas de escolhas banais — e encontra uma sobrevida não no frescor da forma, mas na constância perturbadora do conteúdo. A trama ambientada em uma Paris fotografada com o esmero enigmático de Vittorio Storaro é menos uma história de infidelidade e assassinato do que uma exposição meticulosa daquilo que Allen parece nunca ter deixado de filmar: o modo como o acaso é capaz de desmontar as engrenagens da razão. É como se, no ocaso da própria trajetória, ele assumisse de vez que não há redenção no intelecto, apenas dissimulação. E é nesse cinismo lapidado que o filme encontra sua voz mais afiada.
Fanny, interpretada por Lou de Laâge com a sobriedade dos que vivem no fio da dúvida, não protagoniza um adultério: ela personifica a dissonância entre o desejo de liberdade e a apatia do privilégio. Sua aproximação de Alain, escritor sensível que a reconecta a um tempo anterior ao cálculo social, não é apenas afetiva — é sintoma. Alain funciona como um catalisador de um colapso já em curso, uma peça que expõe as rachaduras de um castelo erguido sobre contratos tácitos e silêncios confortáveis. Jean, o marido, é mais do que um vilão disfarçado de príncipe moderno; é a encarnação de uma lógica que naturaliza a supressão como meio de manutenção da ordem. Seu recurso à violência — e à ocultação como estratégia — não surpreende por sua brutalidade, mas por sua racionalidade. Tal como em “Crimes e Pecados”, Allen nos obriga a assistir ao crime não com olhos horrorizados, mas com o desconforto de quem reconhece a plausibilidade da escolha.
Esse desconforto encontra eco nas discussões que permeiam o Biennale College, espaço que se propõe a pensar o cinema não apenas como estética, mas como gesto político. Em edições recentes, filmes como “Lumbrensueño”, “O Ano do Ovo” e “Arni” exploraram, cada qual a seu modo, o território da ambiguidade ética com um frescor que contrasta com a sofisticação envelhecida de Allen. “Lumbrensueño” propõe uma ruptura com a linearidade tradicional para construir a subjetividade de seu protagonista adolescente, revelando como a arte pode nascer do caos mental. “O Ano do Ovo” distorce rituais de fertilidade até torná-los alegoria de uma sociedade em delírio simbólico. Já “Arni” mergulha na miséria de um microcosmo circense, expondo um realismo emocional que recusa qualquer estética da compaixão. Há, nesses projetos, uma energia de insubordinação formal e existencial que não pretende concorrer com mestres consagrados, mas os tensiona — apontando para futuros narrativos mais abstratos, como imagina Claudio Casale, ou mais silenciosos, como descobre Dorka Vermes ao montar uma abertura sem falas.
O curioso é que, ao invés de se oporem, esses impulsos dialogam. A maturidade técnica e visual de “Golpe de Sorte em Paris”, com sua paleta outonal, seus travellings discretos e seu jazz melancólico — especialmente “Cantaloupe Island”, de Herbie Hancock —, não desqualifica os riscos formais dos jovens autores, mas os legitima. A Paris de Storaro e Allen, tão perfeita em sua luz quanto imperfeita em sua moral, oferece um contraplano simbólico aos espaços degradados de “Arni” ou aos ambientes ritualizados de “O Ano do Ovo”. Em todos esses filmes, há um movimento semelhante: a crença de que o cinema não deve apontar respostas, mas desestabilizar convenções — sejam elas de linguagem, de comportamento ou de ética. Ao contrário de suas comédias mais recentes, em que a repetição parecia sintoma de esgotamento, Allen retoma aqui o fôlego ao se afastar das neuroses faladas e aproximar-se das decisões caladas, da crueldade não verbalizada, do drama que se constrói por subtração. Resta uma pergunta que reverbera além do filme: o que fazemos com os artistas que permanecem relevantes enquanto figuras públicas desmoronam? “Golpe de Sorte em Paris” foi exibido em Veneza em meio à contínua recusa do mercado americano em distribuir os filmes de Allen, consequência direta das acusações que pesam sobre ele. A questão ética, incontornável, não encontra resolução fácil. Mas o cinema não é feito de absolvições — é feito de tensões. E é justamente ao abraçar o incômodo, em vez de contorná-lo, que Allen talvez tenha encontrado sua despedida mais apropriada. Se este for de fato seu último longa, não será lembrado como um gesto de grandiosidade final, mas como a reafirmação silenciosa de uma tese: a de que o mal, quase sempre, prefere operar sob aparência de normalidade. E é por isso que o cinema, ao contrário da justiça, não deve buscar julgamentos — mas exposições implacáveis.
★★★★★★★★★★