Histórias de ataques de tubarão tendem a flutuar entre o suspense genuíno e a extravagância descontrolada. “Sob as Águas de Paris” tenta navegar por essa dualidade, equilibrando um discurso ambiental com momentos de caos absoluto. No entanto, a tentativa de aliar uma mensagem séria sobre a degradação do rio Sena a cenas de carnificina aquática resulta em uma experiência que oscila entre o intrigante e o involuntariamente cômico.
A sombra de “Tubarão” paira sobre cada escolha narrativa, desde a protagonista marcada por um trauma até as autoridades negligentes e o grupo de personagens que, inevitavelmente, tomam decisões questionáveis. Sophia, a cientista que carrega um passado doloroso, surge como o centro emocional da trama. Embora a previsibilidade seja evidente, a atuação principal sustenta a credibilidade da história, enquanto o elenco de apoio cumpre sua função, mesmo que os personagens sejam pouco memoráveis.
O filme encontra seus melhores momentos quando abraça o absurdo sem reservas. A descoberta de um ninho de tubarões nas catacumbas de Paris altera completamente a proposta inicial. O que começa como um thriller relativamente contido rapidamente se transforma em um espetáculo de exageros, onde vítimas são devoradas em sequências cada vez mais grandiosas. Essa guinada radical pode alienar quem esperava um suspense refinado, mas torna a experiência irresistível para os apreciadores de um terror despretensioso.
A execução técnica acompanha a irregularidade do roteiro. A direção e a trilha sonora cumprem seu papel sem grande brilho, enquanto os efeitos visuais variam entre o aceitável e o questionável, especialmente nas sequências de maior tensão. O principal problema, contudo, está na duração excessiva e na insistência em reforçar a mensagem ambiental de maneira expositiva, comprometendo o ritmo e diluindo o impacto do entretenimento.
A recepção do público reflete essa dualidade. Para alguns, “Sob as Águas de Paris” falha ao tentar conciliar seriedade e absurdo, enquanto outros encontram diversão no espetáculo caótico que o filme proporciona. Compará-lo a “Tubarão” é inevitável, mas também desnecessário: se Spielberg definiu o gênero, esta produção francesa apenas brinca com seus clichês e os leva ao extremo. E talvez seja exatamente esse o seu mérito – não se levar tão a sério e, no processo, proporcionar uma experiência que, se não assusta, ao menos diverte. Uma continuação ainda mais insana? Não seria uma ideia tão absurda.
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