Melhor faroeste dos últimos 6 anos, filme com Kevin Costner e Woody Harrelson está na Netflix Divulgação / Netflix

Melhor faroeste dos últimos 6 anos, filme com Kevin Costner e Woody Harrelson está na Netflix

Nos Estados Unidos da década de 1930, em meio à Grande Depressão e a um cenário de violência crescente, o crime organizado encontrou terreno fértil para alimentar a imaginação popular. Entre os muitos foras-da-lei que emergiram nesse período, Bonnie Parker e Clyde Barrow tornaram-se figuras icônicas, celebradas como símbolos de rebeldia e romantizadas pelo imaginário coletivo. Entretanto, “Estrada Sem Lei”, produção da Netflix dirigida por John Lee Hancock, desconstrói essa visão idealizada ao adotar um olhar pragmático e comprometido com a realidade dos fatos, narrando a caçada ao casal sob a perspectiva dos homens que os perseguiram.

O filme se distancia da habitual celebração do crime e foca na jornada de Frank Hamer (Kevin Costner) e Maney Gault (Woody Harrelson), dois ex-Rangers do Texas que, longe de qualquer ideal heroico, são retratados como veteranos cansados, carregando o peso de vidas marcadas por violência e sacrifício. Diferentemente das versões que retratam Bonnie e Clyde como vítimas de um sistema opressor, “Estrada Sem Lei” evidencia sua brutalidade, desmistificando o fascínio cultivado ao longo das décadas e resgatando a verdade por trás do mito.

A narrativa avança de forma deliberada, priorizando o detalhamento da investigação policial num período em que a tecnologia forense ainda engatinhava. O longa substitui sequências frenéticas de ação por um jogo de paciência e observação, conferindo autenticidade ao trabalho árduo de rastreamento dos criminosos. A fotografia de John Schwartzman captura com precisão a poeira das estradas, o calor sufocante do sul dos Estados Unidos e a sensação de deslocamento daqueles que passaram a vida na trilha da violência. Esse rigor estético não apenas fortalece a imersão, mas também ressalta a atmosfera opressiva de uma época em que a lei lutava para conter um país à beira do colapso social.

Ao confrontar a manipulação da informação na era Hoover, o filme sugere uma reflexão sobre como a mídia molda narrativas e constrói ícones a partir da violência. A imprensa sensacionalista da época transformou Bonnie e Clyde em figuras quase cinematográficas, ignorando as vítimas que deixaram pelo caminho. A crítica implícita à fabricação de heróis e vilões reverbera para além da história do casal, evidenciando como os mecanismos de mitificação do crime seguem operando nos dias atuais.

Kevin Costner e Woody Harrelson entregam performances densas, evitando caricaturas e proporcionando humanidade a seus personagens. O relacionamento entre Hamer e Gault, construído sobre décadas de parceria e cicatrizes compartilhadas, se torna um dos pontos altos da narrativa. Não há espaço para discursos inflamados ou heroísmo exagerado: suas trajetórias são marcadas por pragmatismo e exaustão, refletindo o custo real da busca pela justiça. O roteiro evita espetacularizações e opta por um tom contido, favorecendo a complexidade moral e a introspecção sobre o impacto da violência.

Em um tempo em que o cinema de ação frequentemente privilegia excessos visuais e narrativas aceleradas, “Estrada Sem Lei” aposta numa abordagem clássica, remetendo a títulos como “Os Intocáveis” (1987). Esse ritmo mais contemplativo pode ser interpretado como um desafio para públicos acostumados a resoluções imediatas, mas é justamente essa construção gradual que confere peso ao desfecho e profundidade à reflexão proposta.

O filme se firma como um antídoto à glamourização do crime, deslocando o foco dos criminosos para aqueles que os detiveram. Em vez de perpetuar a tradição cinematográfica de elevar foras-da-lei à categoria de lendas, “Estrada Sem Lei” reconfigura o olhar sobre o episódio, questionando os alicerces da mitificação e convidando o espectador a reconsiderar o real impacto da violência e do culto ao crime. Essa abordagem sóbria e fundamentada posiciona o longa como uma peça essencial para a compreensão desse capítulo da história americana, oferecendo uma visão que, mais do que revisitar o passado, ressoa de maneira incisiva no presente.

Filme: Estrada Sem Lei
Diretor: John Lee Hancock
Ano: 2019
Gênero: Biografia/Crime/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★