O filme com Brad Pitt e George Clooney grudou no ranking da Apple TV+ como se fosse parte do algoritmo Divulgação / Apple TV+

O filme com Brad Pitt e George Clooney grudou no ranking da Apple TV+ como se fosse parte do algoritmo

Num território onde os arquétipos do cinema de ação caminham exaustos e previsíveis, Jon Watts arma um dispositivo de reinvenção que não apenas sabota o automatismo do gênero, mas o transforma em seu próprio comentário. “Wolfs” é menos uma narrativa e mais um espelho côncavo onde tudo — dos protagonistas aos próprios códigos dramáticos — aparece distorcido com engenho e ironia. Clooney e Pitt, longe de revisitar glórias passadas, atuam como simulacros de si mesmos: dois ícones do star system operando como peças obsoletas de uma engrenagem que já não gira no mesmo ritmo. Watts transforma essa obsolescência em virtude, sugerindo que, no fundo, o que resta ao cinema de ação senão rir da própria pompa?

A trama é deliberadamente funcional, como se o enredo não fosse mais do que uma desculpa para o jogo de encenações que interessa ao diretor. Uma figura pública em apuros, dois especialistas convocados por engano para a mesma missão, um cadáver incômodo que decide permanecer vivo — são elementos que se sucedem sem buscar verossimilhança. O hotel onde tudo começa, a Nova York onde tudo se espalha: nenhum desses espaços busca parecer real, e essa recusa ao realismo é o que dá ao filme sua identidade. Watts não filma uma cidade, mas um palco contínuo, onde cada cena parece coreografada com o único intuito de deslocar as expectativas do público, corroendo certezas a cada virada.

Clooney e Pitt orbitam o filme como dois espectros de um passado recente, vestindo roupas idênticas e replicando maneirismos como se já não houvesse espaço para identidade. Mas essa simetria é uma armadilha. Em vez de celebrar a química entre duas estrelas consagradas, Watts a esvazia. Seus protagonistas não rivalizam como o esperado; se anulam. A redundância entre eles é o verdadeiro motor da narrativa: quanto mais se confundem, mais o filme se revela. Não há choque de temperamentos nem duelo de egos; há o constrangimento cômico de duas presenças que já não sabem como existir fora do reflexo do outro. E é nesse ponto que o filme encontra sua sátira mais aguda: na constatação de que o heroísmo clássico foi substituído por um duplo deslocamento — de função e de sentido.

Ao transformar o “cadáver” em agente ativo do caos, o filme implode a lógica do thriller convencional. A partir desse momento, cada ação dos protagonistas é uma tentativa vã de reestabelecer controle em um cenário que já não responde a seus comandos. Essa perda de centralidade é também um comentário sobre o próprio envelhecimento de seus personagens — e, por extensão, dos próprios atores — num mundo que já não os reverencia automaticamente. A perseguição que se segue, entre ruínas estilizadas de uma metrópole sem povo, parece saída de um pesadelo metalinguístico, onde o espetáculo visual é reduzido a um balé de exaustão e fracasso. Aqui, o ridículo se sobrepõe ao heroico, e a tentativa de parecer eficiente é, por si só, uma piada.

Nada escapa ao olhar irônico de Watts, nem mesmo a herança que pretende homenagear. A sombra de Winston Wolfe paira sobre o filme, mas apenas para ser desconstruída. Clooney e Pitt não são herdeiros da elegância imperturbável de Keitel; são réplicas falhas, que carregam mais o peso da paródia do que da reverência. “Wolfs” não busca repetir o mito do “resolvedor de problemas”, mas expor a falência de sua lógica. A autoridade do especialista é aqui apenas um blefe sustentado por trajes bem passados e frases ditas com pose. Cada tentativa de controle resulta em desorganização. Cada gesto técnico se dissolve em absurdo. A eficácia é apenas uma ficção encenada por quem já perdeu o domínio da narrativa.

O humor do filme nunca apela ao riso fácil. Ele emerge de situações onde o descompasso entre personagem e circunstância se torna insustentável. Um frasco de analgésicos, uma tosse fora de hora, um tropeço em plena perseguição: são microdetalhes que substituem os tradicionais alívios cômicos por uma ironia estrutural, onde o riso se dá menos pela piada e mais pela constatação de que o tempo passou — e passou rápido demais para os que ainda se julgam indispensáveis. A comédia de “Wolfs” não é uma válvula de escape, mas uma lente através da qual o filme desmonta seu próprio aparato.

Watts encontra, nessa subversão controlada, um cinema mais interessado em pensar o gênero do que em replicá-lo. Ao recusar o espetáculo ruidoso que o consagrou em superproduções anteriores, ele sinaliza uma maturidade rara: a capacidade de fazer do entretenimento um exercício de autocrítica elegante. “Wolfs” é um filme que parece rir com o espectador, não dele. E ao mirar o espelho deformado de seus próprios ídolos, ele não apenas desmascara a artificialidade do heroísmo, mas sugere que talvez o futuro do cinema de ação esteja justamente em aceitar — com inteligência e humor — que seus mitos também envelhecem.

Filme: Wolfs
Diretor: Jon Watts
Ano: 2024
Gênero: Crime/Thriller
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★