O colapso como linguagem e a maternidade como campo de batalha: essa é a equação tortuosa que estrutura o filme de Alexandre Aja. Num cenário onde o apocalipse se tornou quase um sotaque visual — repetido, esvaziado, domesticado —, o diretor propõe algo menos interessado em grandiloquência e mais comprometido com o terror microscópico que reside nos vínculos familiares desfigurados. A devastação não é um espetáculo de destruição, mas uma herança mal curada, transmitida por gestos silenciosos e hábitos ritualizados. Em vez de redimir a maternidade como salvação do mundo, o filme a distorce até o limite da paranoia, tornando-a um motor de contenção e pânico, onde o instinto protetor roça o delírio. O colapso, aqui, não é um evento; é um hábito enrijecido.
Aja encontra nesse pesadelo doméstico uma via singular para refletir sobre o medo como sistema educativo. O fio de sisal que liga mãe e filhos à cabana — aparentemente ingênuo, até folclórico — torna-se alegoria de um vínculo que aprisiona sob a aparência de proteção. Nesse universo cercado por espectros, o mais ameaçador não é o que aparece nas sombras, mas o que persiste à luz do dia: a memória traumática que estrutura a vida da protagonista e molda suas decisões. A floresta, com seus sussurros e ameaças veladas, apenas responde ao que já está apodrecendo por dentro. A criatura mais aterradora é a própria mãe, disfarçada de mártir, operando sobre os filhos com uma lógica de clausura disfarçada de zelo. A violência original é aqui internalizada, transformada em pedagogia da sobrevivência.
A casa miserável, que por vezes parece um relicário, em outras momentos adquire ares de sepultura, é o núcleo dessa fábula sobre desagregação. Aja constrói o espaço como um teatro de miniaturas, onde cada gesto tem peso simbólico. Caçar não é apenas buscar comida, é participar de um rito de escassez que ensina, desde cedo, o valor da resignação. Comer vermes e cascas temperadas com resignação e medo equivale a um sacramento de miséria. A sobrevivência é romantizada pela própria mãe, não como opção, mas como missão sagrada — e, por isso mesmo, inquestionável. O roteiro de KC Coughlin e Ryan Grassby opta por omitir verdades em nome de um misticismo opaco, sustentando a ilusão de que há ordem no caos, quando o que existe é apenas repetição neurótica.
Robin Coudert intervém com uma trilha que não embala o filme, mas o contamina — conduz o espectador a um estado de alerta contínuo, imerso numa estrutura narrativa que fragmenta a cronologia para melhor tensionar a experiência emocional. A trilha é menos trilha do que sintoma, reforçando a desorientação que o filme exige. Tudo parece acontecer simultaneamente: o passado invade o presente, as assombrações se confundem com recordações, e a realidade se dobra sob a pressão das culpas não nomeadas. Não há aqui didatismo ou explicações generosas. O espectador é impelido a preencher lacunas e desconfiar das imagens — uma proposta estética coerente com a lógica interna da trama, onde confiar é sempre um risco.
Halle Berry encontra nesse papel uma rara oportunidade de desarticular qualquer expectativa sobre heroínas resilientes. Sua personagem, mãe em frangalhos, age com ternura raivosa, como se o amor tivesse sido deformado por uma sequência interminável de frustrações e horrores cotidianos. Seu desempenho atravessa registros, flertando com a monstruosidade sem jamais ceder ao caricatural. Em cena com os jovens Percy Daggs IV e Anthony B. Jenkins, há um jogo constante de tensão e afeto que evita o sentimentalismo fácil. O filme vive da instabilidade desses vínculos, da sensação de que qualquer ternura pode se converter, em segundos, numa espécie de prisão emocional.
As comparações com outras narrativas de horror psicológico — como “Mãe!”, “Aniquilação” ou “Fuja” — são inevitáveis, mas revelam mais o repertório do público do que os reais parentescos. Este filme escapa das classificações convencionais por sua densidade emocional e ambiguidade proposital. Não se trata de uma história sobre monstros externos, mas sobre os labirintos que o trauma constrói dentro das pessoas. Aja não sugere redenção, nem caminho possível de retorno. O que ele oferece é um campo minado de silêncios, onde a linguagem afetiva foi substituída por estratégias de contenção.
Há algo de perversamente belo na forma como o filme articula horror e intimidade, como se o amor, aqui, fosse indissociável da vigilância e da culpa. A jaula não tem trancas visíveis, mas prende com a força da memória. O medo, elevado à categoria de método, torna-se a pedagogia central da família, e a floresta ao redor da cabana nada mais é do que a extensão simbólica de uma mente devastada. O que parece sobrenatural, ao fim, é apenas o reflexo ampliado de um cotidiano moldado pela violência velada. Não há vilões óbvios — apenas vítimas que herdaram os métodos de seus algozes e aprenderam a chamá-los de cuidado.
Se há uma imagem que define a experiência de “Não Solte!”, talvez seja a corda: simples, rudimentar, mas capaz de conter uma vida inteira. A corda que impede a fuga, que mascara como segurança aquilo que é cárcere. A corda como herança emocional, passada de geração em geração, em nome de uma proteção que, no fundo, só perpetua a dor. Não se trata de se soltar ou não. Trata-se de reconhecer que a maior prisão pode estar disfarçada de abrigo — e que os maiores terrores muitas vezes falam com a voz de quem nos criou.
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