A adaptação cinematográfica de “O Castelo de Vidro”, inspirado no livro autobiográfico de Jeanette Walls, surge como um desafiador exercício de equilíbrio entre a fidelidade à crueza de uma vida marcada pela disfunção familiar e a necessidade de moldar uma narrativa que seja ao mesmo tempo palatável para o grande público e emocionalmente ressonante. O filme tenta, com esforço, capturar as tensões familiares que definiram a infância de Jeanette, refletindo uma realidade em que a negligência e o abuso emocional coexistem com momentos de afeto distorcido. No entanto, a busca por um fim satisfatório para o espectador muitas vezes compromete a honestidade que o livro transmite com tal profundidade. O resultado é um filme visualmente impressionante, mas que, por vezes, tropeça ao tentar conciliar as complexas dinâmicas familiares com um tom de redenção forçada.
No epicentro do drama está a figura de Rex, o pai de Jeanette, interpretado com talento por Woody Harrelson. Ele é simultaneamente uma presença carismática e destrutiva, um homem dotado de inteligência e criatividade, mas também dominado por seu alcoolismo e por um comportamento manipulador e abusivo. Harrelson brilha ao capturar essa dualidade, oferecendo ao público uma representação intensa da figura paterna que, embora afetuosa, é também tragicamente tóxica. No entanto, a versão cinematográfica de Rex suaviza algumas de suas falhas mais incisivas, criando uma narrativa que, em certos momentos, flerta com a romantização do sofrimento de sua filha. Essa escolha narrativa levanta uma questão ética: seria possível, ou até desejável, relativizar os danos causados por um pai tão profundamente falho, simplesmente por reconhecer os momentos raros de amor que ele oferece?
O filme apresenta um contraste de atuações no retrato de Jeanette. Brie Larson, na fase adulta da protagonista, traz uma interpretação contida, que soa quase antitética ao fervor de sua versão jovem, interpretada por Ella Anderson. Anderson, por sua vez, transmite com impressionante sensibilidade as emoções conflitantes de sua personagem, que, ao mesmo tempo, se vê fascinada e devastada por seu pai. A alternância entre o presente e o passado, uma das estruturas narrativas mais eficazes do filme, é bem executada, mas o ritmo do roteiro, por vezes linear demais, torna o arco de Jeanette mais previsível do que o contexto exigiria. O filme perde a oportunidade de aprofundar as complexas relações dentro da família, especialmente a interação entre Jeanette e sua mãe, Rose Mary, figura central da trama, mas cuja presença em tela é subaproveitada. Naomi Watts, embora competente, não consegue transmitir a dimensão da tragédia vivida por sua personagem, que se vê permanentemente eclipsada pela figura dominante de Rex.
O maior obstáculo da adaptação, porém, fica para o desfecho. Enquanto o livro mantém um tom amargo e realista, reconhecendo que certos traumas familiares não podem ser sanados por gestos tardios de afeto, o filme opta por uma resolução que soa excessivamente otimista e desconectada da realidade que o filme construiu até então. Esta escolha narrativa enfraquece a mensagem fundamental da história: a compreensão de que, em muitas famílias disfuncionais, o perdão não é simples nem imediato, e os danos não podem ser apagados por um abraço ou um gesto de carinho.
Essa tentativa de criar uma catarse emocional no final, embora com boas intenções, resulta em um fechamento que parece mais um compromisso com as expectativas do público do que uma conclusão fiel à complexidade moral do livro. O filme se distorce, assim, da profundidade psicológica que o texto de Walls oferece, sacrificando uma narrativa mais crua e complexa em favor de um final mais “agradável”. Esse deslize, por mais compreensível que seja em um contexto cinematográfico, tira do filme sua capacidade de causar um impacto visceral no espectador.
No entanto, “O Castelo de Vidro” é uma obra que, apesar de suas falhas, não pode ser ignorada. Ela coloca em cena uma reflexão poderosa sobre as cicatrizes deixadas por relações familiares disfuncionais, convidando o público a confrontar os limites do perdão e da compreensão em situações extremas. A direção habilidosa e a fotografia, que capturam com precisão tanto a beleza quanto a opressão da vida de Jeanette, garantem que o filme, apesar de suas limitações, seja uma experiência cinematográfica significativa. A trilha sonora, com sua sutileza, acompanha de maneira eficaz a narrativa, reforçando as nuances emocionais sem sobrecarregar as cenas.
Apesar das críticas divididas, é inegável que “O Castelo de Vidro” deixa uma impressão, seja pela profundidade das questões morais que levanta, seja pela habilidade de seu elenco em retratar as tensões de uma vida marcada pelo caos familiar. Para alguns, o filme falha em representar a dureza da realidade de Jeanette Walls; para outros, oferece uma reflexão sobre a resiliência humana diante das adversidades. O filme, ao ser comparado com seu material de origem, pode não alcançar a profundidade do livro, traz uma adaptação com boas intenções, mesmo que moralmente ambígua, sobre amor, abuso e a busca por autonomia em um mundo imerso em confusão e dor.
★★★★★★★★★★