Está em cartaz está nos cinemas, estreou no Prime Video — e vai encantar qualquer criança que ainda mora em você Divulgação / Paris Filmes

Está em cartaz está nos cinemas, estreou no Prime Video — e vai encantar qualquer criança que ainda mora em você

Que criança nascida entre os anos 1960 e 1980 não ficou admirada diante dos gibis de Mauricio de Sousa? Cruzar a praça e ir até a banca de revistas, às vezes só para passar os olhos naquelas páginas de polpa de celulose, coloridas, repletas de balõezinhos com os diálogos mais divertidos e perspicazes que a inocência de uma criança poderia reconhecer, era um programa que nenhum menino ou menina daquela época dispensava, e parte dessa magia é resgatada por Fernando Fraiha em “Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa”.

Baseado nas histórias do personagem criado pelo cartunista Mauricio de Sousa em 1961, o filme é, malgrado um ou outro deslize, uma saborosa viagem a um tempo que não volta e a um lugar de que mesmo os filhos do asfalto e da buzina têm saudade. Fraiha e os corroteiristas Elena Altheman e Raul Chequer são felizes ao conseguirem reproduzir na tela a poesia ingênua dos quadrinhos — comercializados na fase mais popular pelas editoras Abril e Globo, entre 1970 e 1986 e 1987 e 2006, respectivamente, e hoje na Panini Comics —, agora concentrando a narrativa no matuto que agora só anda de botina, sem medo de comprar encrenca com o ardiloso empresário que quer apagar a parte mais doce de sua vida.

Chico Bento pede a Giserda, a galinha, que o ajude a escolher a melhor indumentária em seu guarda-roupa só de camisetas amarelas, para uma ocasião que o filme só revela no final. A vaca Maiada dá-lhe um trato no cabelo, Fido, o cachorro, traz o ramo de escudinhas com que se perfuma, mas o burro Teobardo quer dez torrões de rapadura para levá-lo a seu destino, quando ele só pode oferecer três ao animal. Antes que Chico, o chicoso, faça o que tem de fazer, o diretor tece uma animada retrospectiva sobre a relação de seu protagonista com o ambiente, recorrendo a animação para explicar que o menino ama o verde desde o útero da mãe, Dona Cotinha, e ama ainda mais certa parte carnuda e vermelha, talvez devido a um pequeno trauma de antes ver a luz do mundo.

Dona Cotinha, de Livia La Gatto, tivera o desejo de comer uma goiaba já nas horas finais da gravidez, mas o bebê já estava chegando; coincidência ou não, uma imensa goiabeira cenográfica brota nas terras de Nhô Lau, um produtor rural algo próspero das redondezas, e apesar das reprimendas e das ameaças de cascudos e torções de orelha — substituição politicamente correta para os tiros de sal no traseiro —, Chico nunca fora privado da alegria de trepar na árvore e cravar os dentes nas goiabas mais bonitas, que sorriam-lhe de volta. Quando sabe que Dotô Agripino colocar no chão sua amiga para construir a estrada que “trará o progresso” para a Vila Abobrinha, Chico vai atrás de Zé Lelé, Zé da Roça, Tábata, Hiro e, claro, Rosinha para juntos darem uma lição no finório.

A interação entre Chico Bento e Nhô Lau, com Luis Lobianco equilibrando-se entre o carisma e a ranzinzice afetada do pseudo-antagonista, cede lugar à sintonia não menos afinada entre Isaac Amendoim e Taís Araújo, no segmento que encarna um realismo mágico à brasileira e põe Araújo como a alma da goiabeira, que torna-se formiga e passarinho junto com o garoto. Amendoim comete um ou outro erro de prosódia — da prosódia tão peculiar do roceiro Chico Bento, por óbvio — e diz “maravilhosa” a certa altura, o que somente ouvidos treinados podem conseguem captar.

Débora Falabella como a Professora Marocas parece ter pulado das páginas das revistinhas para o filme e, na pele de Dotô Agripino, Augusto Madeira dá uma direção ao numeroso elenco de apoio na sequência final, pouco antes de Chico e Rosinha, interpretada pela adorável Anna Julia Dias, se entenderem. Evidentemente, a goiabeira salva-se, bem ao gosto romântico do velho Sousa, e as memórias mais primevas dos verdes anos da aurora de nossas vidas também.

Filme: Chico Bento e a Goiabeira Maraviosa
Diretor: Fernando Fraiha
Ano: 2024
Gênero: Animação/Comédia
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.