Indicado a 164 prêmios, incluindo o Bafta, obra-prima do cinema francês está no Prime Video e vai todas todas as camadas da sua alma Divulgação / Hulu

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Poucas produções conseguem capturar a complexidade do desejo e a efemeridade do amor com a sofisticação e a delicadeza de “Retrato de uma Jovem em Chamas”. O filme de Céline Sciamma se destaca não apenas por sua abordagem sutil da relação entre suas protagonistas, mas também pela forma como insere a arte no cerne de sua narrativa, transformando-a em um vínculo silencioso e inexorável entre Marianne e Héloïse. Em um cenário onde a presença masculina é deliberadamente minimizada, o longa explora a autonomia feminina não só na esfera dos sentimentos, mas também na criação e na representação da própria imagem.

A trama acompanha Marianne, uma pintora encarregada de produzir, em segredo, o retrato de Héloïse, jovem aristocrata prometida a um casamento arranjado. Se inicialmente a relação entre as duas é marcada por distância e silêncio, aos poucos a observação meticulosa da artista transforma-se em cumplicidade, dando origem a um afeto que se manifesta em gestos contidos e olhares que dizem mais do que palavras. Esse amor, contudo, carrega em si a consciência de sua própria transitoriedade. Assim como a tinta sobre a tela, ele se fixa e se esvai, sobrevivendo apenas na memória e na arte.

A maior qualidade do filme está, em grande parte, em sua linguagem visual meticulosamente composta. Cada quadro é pensado como uma pintura, equilibrando luz, sombra e cor de maneira quase hipnótica. A paleta de tons suaves e naturais reforça a atemporalidade da narrativa, enquanto a iluminação, frequentemente remetendo às técnicas de mestres da pintura clássica, amplifica a intensidade do que se passa entre as personagens. Sciamma opta por uma abordagem minimalista também no som: a trilha sonora convencional dá lugar a silêncios carregados de significado, onde o menor sussurro ou suspiro assume peso narrativo. Quando a música finalmente surge, em momentos pontuais e arrebatadores, seu impacto é multiplicado.

Ao rejeitar clichês melodramáticos, o filme confia na inteligência do espectador para captar a profundidade das emoções contidas. Marianne e Héloïse se conectam não através de declarações enfáticas, mas por meio de fragmentos de diálogo, da observação atenta e dos espaços entre o que é dito. Ao usar a referência do mito de Orfeu e Eurídice, o longa reforça a tensão entre a lembrança e a perda, entre a impossibilidade do reencontro e a eternização do amor na arte. Marianne, como Orfeu, deve aceitar a imagem em vez da presença, a pintura em vez do corpo.

“Retrato de uma Jovem em Chamas” é um testamento às emoções que persistem mesmo na ausência. Em uma cena final de rara beleza e impacto emocional, Sciamma nos lembra que certas histórias de amor não precisam de resoluções definitivas para serem inesquecíveis. Ao fazer do cinema um espelho da pintura e da pintura um espelho da paixão, o filme se estabelece como uma obra-prima da sutilização e do requinte narrativo, provando que o verdadeiro brilho de uma história não está em seu desfecho, mas na intensidade com que é vivida e relembrada.

Filme: Retrato de Uma Jovem em Chamas
Diretor: Céline Sciamma
Ano: 2019
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★