Não é por acaso que o nome de Richard Williams está entronizado no título. O filme de Reinaldo Marcus Green se move ao redor dele como se não houvesse gravidade fora de sua órbita. Mais do que uma cinebiografia sobre as irmãs Venus e Serena, é um retrato intensamente subjetivo — e em muitos momentos desconcertante — de um pai que confundiu a ideia de paternidade com um projeto de engenharia emocional. Em vez de celebrar conquistas esportivas, Green escolhe mirar a gênese de uma obsessão que se fez método, mesmo quando beirava o delírio. E ao privilegiar essa via, torna o campo do tênis quase um detalhe: o centro da narrativa está em quem acreditou antes que houvesse qualquer motivo para isso.
A jornada do protagonista não começa com ambição, mas com fuga. Richard abandona a hostilidade da Louisiana, ainda sob o espectro violento da Klu Klux Klan, e procura refúgio e reinício em Compton, onde o sol californiano não dissipa as sombras do racismo estrutural. A partir desse cenário, ergue-se uma figura movida por um misto de paranoia e fé cega, como se sua vida inteira tivesse sido moldada pela urgência de provar ao mundo que ele, e apenas ele, sabia o que era melhor para suas filhas. Em vez de seguir a cartilha da superação inspiradora, o roteiro de Zach Baylin se embaraça num equilíbrio instável entre a louvação e o incômodo, entre a admiração e o desconforto — e, nesse descompasso, o filme revela mais do que talvez tivesse a intenção de mostrar.
O grande paradoxo que atravessa o longa é justamente sua tentativa de homenagear um homem que, a cada passo, desafia o limite entre o brilhantismo e o controle absoluto. A performance de Will Smith tenta conciliar carisma com rigidez, mas frequentemente escorrega numa caricatura de excêntrico genial, sobretudo quando o foco se descola das meninas e retorna ao patriarca. Ainda assim, há algo hipnótico no modo como Richard impõe sua lógica ao mundo, como se sua teimosia fosse uma forma de escudo contra a brutalidade da realidade. Seu plano para Venus e Serena — meticulosamente desenhado antes mesmo de elas nascerem — ganha contornos de uma profecia autocumprida, sustentada por uma fé que beira a irracionalidade.
A força do filme se condensa nos momentos em que o roteiro deixa de tentar exaltar e começa a revelar. Quando Richard expõe seu corpo ferido à família, após ser espancado por defender a filha, a cena transcende o drama pessoal: é ali que se entrelaçam a masculinidade ferida, a expectativa racial e o desejo de reconhecimento, todos subtextos pulsando sob a superfície do gesto. A direção de Green acerta ao não explicar demais, ao deixar que a ambiguidade fale mais alto — o que não acontece com frequência ao longo do filme. Há ecos evidentes de “Fences”, especialmente no modo como o racismo é tratado não como tema, mas como pressão atmosférica, silenciosa e constante.
As atuações de Saniyya Sidney e Demi Singleton trazem frescor e solidez, e as meninas irradiam energia e presença sem jamais caírem em estereótipos de “prodigiosas”. Porém, é Aunjanue Ellis quem atinge o ponto mais sensível do longa: sua Brandi é o contraponto silencioso, a voz que permanece calada até que precise ser ouvida. Quando enfim confronta Richard, não apenas por sua metodologia, mas pela exclusão afetiva que impôs à família, o filme alcança sua temperatura mais honesta. Em vez de exaltar o “rei”, ali se evidencia o custo de sua monarquia: a solidão de quem rege sem escutar.
Ao final, os números impressionam — milhões em contratos, títulos incontáveis, o topo do mundo alcançado por duas garotas negras que desafiaram o sistema de dentro das quadras. Mas o que permanece vibrando, mesmo depois do corte final, é a pergunta não respondida: até que ponto a crença de Richard foi dádiva e quando ela se tornou cárcere? Green parece sugerir que não cabe ao filme resolver essa equação. O que ele entrega é um retrato imperfeito, deliberadamente conflituoso, de um homem cuja visão criou lendas, mas não sem deixar rachaduras no caminho. Nesse espelho estilhaçado, há mais verdade do que nas hagiografias costumeiras.
★★★★★★★★★★