Uma joia do cinema contemporâneo está de volta ao catálogo da Netflix — e merece ser (re)descoberta Divulgação / A24

Uma joia do cinema contemporâneo está de volta ao catálogo da Netflix — e merece ser (re)descoberta

O Ford Galaxy queimando na cena inicial não é apenas o estopim narrativo de “Mulheres do Século 20”, mas um ritual de passagem. A imagem do carro em chamas simboliza o fim de uma era particular e o início de um terreno afetivo mais ambíguo, onde a memória se dissipa sob a luz instável do presente. Mike Mills, que nunca tratou o passado como um simples depósito de saudade, aciona aqui o mecanismo contrário: o que parece íntimo e irreversível é, na verdade, matéria inacabada — propensa à reinterpretação, ao acerto de contas, ao riso triste. O que arde não é só o veículo: é a nostalgia travestida de cotidiano.

No coração desse enredo, pulsa uma constelação doméstica disforme, liderada por Dorothea Fields, mulher sem mapa e sem manual. Sua existência, moldada nos escombros de 1929, nunca encontrou repouso nem na maternidade nem na solidão. Há algo de inquebrantável em sua racionalidade inquieta, mas também uma doçura que se arrasta entre cigarros acesos e jantares improvisados com estranhos escolhidos a dedo. Annette Bening confere à personagem uma densidade rara: sua Dorothea não cabe em arquétipos — ela estuda pessoas como quem lê ficção científica, com fascínio e espanto, buscando pistas sobre um futuro do qual se sente excluída.

O microcosmo em que Jamie, seu filho, é criado, não oferece abrigo, mas um experimento afetivo em tempo real. O menino tenta navegar por mares que oscilam entre a ideologia feminista de Abbie, a volubilidade existencial de Julie e a passividade laboriosa de William. Cada adulto à sua volta funciona menos como figura de autoridade e mais como espelho torto — refletindo versões inacabadas de si mesmo que ele, ainda em formação, tenta decifrar. Mills tem plena consciência de que crescer é uma experiência de observação cruzada, onde ninguém realmente sabe o que está fazendo — especialmente os adultos.

Ao contrário de estruturas narrativas que se apoiam em viradas dramáticas, o filme se sustenta numa coreografia tênue de encontros, hesitações e gestos interrompidos. A fluidez com que os diálogos se encaixam em cada personagem não revela domínio técnico, mas uma escuta profunda. Mike Mills escreve como quem assiste: atento, amoroso, disposto a ceder o protagonismo a quem menos parece tê-lo. Por isso, nada soa roteirizado. É como se aquele grupo de figuras desalinhadas já existisse antes de o filme começar, apenas esperando que alguém lhes desse atenção suficiente para tornar suas contradições visíveis.

Se em “Toda Forma de Amor” o diretor se voltava para a figura paterna, aqui ele confronta a complexidade difusa da presença materna. Não como homenagem melancólica, mas como exercício de aproximação impossível. A mãe, neste caso, é menos um enigma a ser decifrado e mais um planeta cuja órbita se influencia mas jamais se compreende plenamente. Jamie não deseja entendê-la, ele quer simplesmente estar à altura de sua inteligência melancólica, sua liberdade cautelosa, sua ternura abrupta.

Mais do que “um filme sobre mulheres”, o longa funciona como um estudo sobre a reverberação feminina na formação de identidades masculinas em desconstrução. Jamie não precisa de um modelo viril, tampouco busca um. Ele é formado pela fricção entre delicadeza e desamparo, entre discursos progressistas e vivências desordenadas. Em vez de respostas, absorve atmosferas. Em vez de comandos, escuta ruídos. É na confusão que ele cresce — e talvez esse seja o único cenário honesto para a maturidade.

Há um risco recorrente em obras que tentam retratar o passado recente com verniz sensível: o de cair na idealização. Mike Mills não comete esse deslize. A Santa Bárbara dos anos 1980 não é pintada com filtros amarelados de lembrança, mas com a crueza de um tempo que se pensa moderno sem ter se livrado de velhas angústias. A sexualidade, a doença, o fracasso e o afeto aparecem sem maquiagem. E ainda assim, há beleza. Não a beleza fácil, mas aquela que se infiltra em espaços disfuncionais, nos silêncios desconfortáveis, nas perguntas sem resposta.

A contundência de “Mulheres do Século 20” está no que ele se recusa a resolver. Nada se amarra, nenhuma conclusão consola. O espectador sai com mais dúvidas do que entrou, e essa é sua grande vitória. O que resta, no fim, é a sensação de que a intimidade não se explica, apenas se compartilha — e que o amor, quando genuíno, não precisa fazer sentido.

Filme: Mulheres do Século 20
Diretor: Mike Mills
Ano: 2016
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★