E se Tarantino dirigisse um roteiro dos irmãos Coen? Não precisa mais imaginar. Está no Prime Video Divulgação / California Filmes

E se Tarantino dirigisse um roteiro dos irmãos Coen? Não precisa mais imaginar. Está no Prime Video

Num território onde o apodrecimento moral já não é escândalo, mas rotina, onde a ética se dissolve como sal em água turva, ainda há espaço para ponderar sobre integridade? Ou a simples evocação da palavra “decência” já nos reduz à condição de patetas fora de tempo? É nessa fenda entre idealismo e brutalidade que se instala “Caminhos de Sangue”, obra de Rod Blackhurst que evita qualquer gesto redentor em favor de uma pergunta crua: o mal, quando justificado pelo amor, ainda é mal? Em vez de buscar respostas fáceis, o longa arma uma armadilha para o espectador: que lado da linha você pisa quando não há mais linha alguma?

A estética noir aqui não é apenas um ornamento estilístico, mas um reflexo do ambiente moral rarefeito em que os personagens respiram. A influência de Scorsese e Tarantino pode ser notada, sim — nas sombras, na tensão que não grita, no absurdo que se normaliza —, mas Blackhurst e David Ebeltoft fazem mais do que homenagear: contaminam o modelo com um niilismo doméstico, como se a tragédia não exigisse gangues ou máfias, mas apenas um pai com contas atrasadas e um filho doente. Scoot McNairy entrega um Cliff que nunca se assume vilão, mas tampouco tenta parecer herói. Ele paira nesse pântano moral com uma naturalidade inquietante, e seu gesto transgressor não tem o sabor da rebelião, mas o aroma rançoso da necessidade.

Estamos no início dos anos 90, nos confins gelados da América, onde os confins da lei também são tênues. Cliff vende desfibriladores, vive entre hipócritas de sermão dominical e párias noturnos, e parece conformado com a própria mediocridade até que Ricky — interpretado com precisão serpentina por Kit Harington — o convoca para algo mais lucrativo e mais sujo. Entre sermões sobre salvação e a batida surda de strip clubs, o convite para traficar armas soa quase como redenção. O filme não o julga, mas o cerca, como uma névoa que sufoca aos poucos.

A entrada de Ricky, com seu verniz de carisma e sua vocação para o caos, é o ponto de inflexão. Harington faz do sorriso um instrumento de manipulação, da conversa fiada uma arma de destruição. A parceria entre os dois não se constrói sobre confiança, mas sobre silêncio e dívida moral. Quando Ricky sugere a Cliff que transporte armas para o Canadá em troca de drogas, não propõe um crime, mas um alívio — um fim possível para a sensação constante de impotência. É nesse ponto que o filme deixa de ser sobre tráfico e passa a ser sobre corrosão: a da alma, a da razão, a da esperança.

A tragédia, claro, não se faz esperar. Mas o que se desdobra em “Caminhos de Sangue” não é um desastre espetacular, e sim a erosão paciente de tudo que sustentava o protagonista. Aqui, a ação é menos importante que as reações, e o suspense se constrói nos gestos, nos olhares, nas omissões. O filme oscila entre o silêncio da culpa e a fúria contida do desespero, lembrando que há algo mais aterrador do que o mal: sua banalidade. A comparação com “Rio Congelado” é inevitável, mas Blackhurst se distancia do tom compassivo daquele drama para buscar algo mais áspero, quase clínico.

Aos poucos, a máscara de Ricky racha, revelando uma figura que lembra Travis Bickle se ele tivesse crescido em trailers e caçado cervos em vez de ilusões. A tensão cresce não pelo que pode acontecer, mas porque sabemos que algo já aconteceu dentro daqueles homens. A ruína não é uma possibilidade — é uma condição. E nesse ambiente sem escapatória, o filme respira um tipo raro de honestidade: não há lições, não há catarse, não há redenção embutida. Só há consequências.

É nesse ponto que “Caminhos de Sangue” brilha com maior intensidade — ao recusar qualquer tipo de consolo, mesmo o estético. A fotografia sombria, a direção rigorosa e as atuações contidas convergem para uma experiência onde o desconforto não é falha, mas mérito. E se há nostalgia, ela não vem de referências óbvias, mas da lembrança de um tempo em que a ficção ainda ousava ser implacável. O filme não homenageia seus antecessores — ele os absorve, os digere e devolve algo novo, que sangra e respira por conta própria.

Filme: Caminhos de Sangue
Diretor: Rod Blackhurst
Ano: 2023
Gênero: Ação/Suspense
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★