Entre as dores físicas e cicatrizes emocionais, “Frida” oferece um retrato visceral e exuberante da icônica pintora mexicana Frida Kahlo, interpretada extraordinariamente por Salma Hayek. Longe de ser um simples apanhado de momentos marcantes de sua trajetória, o filme mergulha na complexidade de sua existência, mostrando como as adversidades moldaram sua arte e sua identidade. Sua relação conturbada com Diego Rivera (Alfred Molina) e os embates entre paixão, traição e afirmação pessoal compõem o núcleo da narrativa, que equilibra drama biográfico e uma abordagem visualmente impactante.
A vida de Frida Kahlo é marcada por um acidente brutal que faz com ela sofra com limitações permanentes, mas também a impulsiona a canalizar sua dor para a pintura. O filme se aprofunda nessa dualidade, explorando como suas angústias se transmutam em arte. Seu casamento com Rivera adiciona mais uma camada de tensão ao enredo: enquanto ela busca afirmação tanto no amor quanto na criação artística, ele se entrega aos excessos e infidelidades recorrentes. A química entre os protagonistas potencializa essa dinâmica, dando veracidade a uma relação que oscila entre admiração mútua e ressentimento acumulado. Rivera não é apenas um parceiro instável, mas também uma figura de influência na arte e política mexicanas, mantendo laços estreitos com o comunismo e com León Trotsky (Geoffrey Rush), cuja presença acrescenta um viés ideológico à história, ampliando seu alcance histórico.
Sob a direção de Julie Taymor, “Frida” tem um trabalho visual que extrapola a narrativa convencional dos dramas biográficos. A cinematografia ousada e a direção de arte vibrante transformam cada cena em um painel que evoca a estética da própria pintora. Em diversos momentos, suas obras são integradas organicamente à narrativa, criando uma fusão entre realidade e imaginação que potencializa a experiência sensorial do espectador. Contudo, se por um lado a linguagem visual do filme é ambiciosa e evocativa, por outro, a análise da simbologia presente nas pinturas de Kahlo poderia ter sido mais aprofundada. O filme nos mostra as telas sendo criadas, mas raramente se detém sobre seus significados e as camadas de dor, revolta e identidade que elas expressam.
Apesar do reconhecimento crítico e da aclamação por sua estética e atuações, “Frida” também tem defeitos. A escolha de fazer com que todos os personagens falem inglês com sotaque hispânico compromete a autenticidade da ambientação, um detalhe que distancia a obra da imersão plena no universo da pintora. Além disso, o roteiro oscila entre a tentativa de ser um estudo genuíno da artista e a necessidade de atender a um público mais amplo, resultando em uma narrativa que, por vezes, flerta com o melodrama em detrimento da profundidade psicológica. Hayek entrega uma atuação envolvente, apropriando-se do papel com comprometimento, mas o roteiro por vezes a retrata como uma figura idealizada, sem explorar plenamente as contradições e tormentos que tornaram Frida Kahlo uma artista singular.
Hipnotizante e sustentado por atuações sólidas, “Frida” consegue capturar a força e a intensidade da pintora, mas não alcança todo o potencial reflexivo que sua história carrega. A fusão entre estética e conteúdo se concretiza em alguns momentos brilhantes, mas em outros, a narrativa se mostra menos audaciosa do que sua protagonista merecia. Ainda assim, o filme é um vislumbre fascinante de uma mulher que converteu sua dor em uma obra artística imortal, tornando-se uma figura cuja essência transcende qualquer limitação imposta pelo corpo ou pelo destino.
★★★★★★★★★★