Épico histórico indicado a 3 Oscars, dirigido por Ridley Scott, com Joaquin Phoenix, acaba de estrear no Apple TV+ Divulgação / Columbia Pictures

Épico histórico indicado a 3 Oscars, dirigido por Ridley Scott, com Joaquin Phoenix, acaba de estrear no Apple TV+

Ridley Scott não tem a menor pretensão de ser humilde. Aos 87 anos, o cineasta segue dando reiterados exemplos de que vai longe, mormente quando se trata de fazer o que mais gosta em seu ofício: escalar o Olimpo e arrastar de lá figuras incontrovertidamente suntuosas, a fim de dar-nos a ilusão de que, talvez, tenhamos algo em comum com elas. Aos olhos de Scott, Napoleão Bonaparte (1769-1821) era, por óbvio, um homem viciado em poder, belicoso, perverso, mas também feito de altos e baixos, dado a paixões avassaladoras, o que não deixa de refletir-se em seu talento para dominar. Assumidamente grandíloquo, “Napoleão” alcança camadas de que muitos livros de História  preferem manter distância, mérito que o diretor divide com David Scarpa, cujo roteiro meticuloso faz questão de cristalizar O Pequeno Cabo como um sujeito tão ganancioso quanto cortês — ao menos com seus subordinados.

Na abertura, o capitão Bonaparte enfrenta o Cerco de Toulon, entre 18 de setembro e 18 de dezembro de 1793, liderando um ataque noturno a um forte na zona portuária da cidade. Ele sai do combate promovido a general de brigada, aos 24 anos, mas amarga a perda de vários companheiros de fronte, além do cavalo, estraçalhado por uma bala de canhão.

Paralelamente, Scott vai deslindando uma outra face do protagonista; entra em cena Josephine de Beauharnais (1763-1814), uma viúva mãe de dois filhos que fora prisioneira durante o Reinado do Terror (1793-1794) e meio obcecada pelo já mais famoso militar da nação, responsável, junto com Maximilien de Robespierre (1758-1794), pela derrubada do Império absolutista. Robespierre e seu irmão mais novo, Augustin (1763-1794), perderam a cabeça na guilhotina numa dessas reviravoltas políticas de que Napoleão aprendeu a desvencilhar-se como poucos, tendo bastante tempo para as cartas que, sôfrego, passou a trocar com Josephine, um elemento da trama sobre o qual o filme se debruça sem nenhuma pressa.

O romance de Napoleão e Josephine toca ao sentimento que pudessem nutrir um pelo outro, mas também é sempre pleno de elucubrações acerca da real importância que a futura imperatriz da França, coroada com ele em 2 de dezembro de 1804, na Catedral de Notre-Dame de Paris, teria no êxito do cônjuge. Mediante uma interpretação arriscada, perfeita para o caráter escorregadio da personagem, Vanessa Kirby dá a Josephine um ar a um só tempo doce e afetado, como se sua vida tivesse passado a ser uma mera extensão das glórias do marido, incansavelmente exaltadas por ela à Maquiavel.

A grande ironia a respeito dessa figura moldada pela ambiguidade é que, sem pestanejar, Napoleão trocou-a por Maria Luísa da Áustria (1791-1847) ao notar que ela não poderia dar-lhe seu tão necessário herdeiro, num divórcio excruciante para ambos. Joaquin Phoenix captura a alma guerreira de Napoleão em sequências como a da Batalha de Waterloo (1815), vencida pelas tropas do Duque de Wellington (1769-1852), e seu patológico egocentrismo, extravasando por todos os poros de seu corpúsculo de metro e meio. Mais de dois séculos depois, déspotas bem mais altos e muito menos destemidos sobem ao trono — o que não absolve o Pequeno Corso, mas alerta para a burrice do revisionismo histórico, agora batizado de cancelamento. 

Filme: Napoleão
Diretor: Ridley Scott
Ano: 2023
Gênero: Ação/Biografia/Drama
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.