A obra-prima irretocável de Roman Polanski, entre os 30 maiores filmes da história, está prestes a deixar a Netflix Divulgação / Focus Features

A obra-prima irretocável de Roman Polanski, entre os 30 maiores filmes da história, está prestes a deixar a Netflix

Há filmes que sobrevivem ao tempo não apenas pela qualidade técnica ou pela força narrativa, mas pelo impacto emocional que carregam. “O Pianista”, de Roman Polanski, é um desses raros exemplares que transcendem o cinema para se tornar um testemunho histórico, um relato pungente sobre sobrevivência, brutalidade e a frágil humanidade que resiste mesmo em meio ao caos. Baseado na autobiografia do músico polonês Wladyslaw Szpilman, o filme não se contenta em narrar um episódio trágico da Segunda Guerra Mundial; ele mergulha no âmago de um homem cuja existência se reduz à luta por continuar respirando, enquanto o mundo ao seu redor é aniquilado.

A escolha de Polanski por uma abordagem intimista redefine a forma como se conta uma história de guerra. Ao invés de recorrer a grandes batalhas ou atos heroicos evidentes, ele foca na experiência individual, no terror silencioso e na degradação gradual de um ser humano. A Varsóvia que ele retrata não é apenas um campo de ruínas; é um labirinto de incerteza onde a morte é um espectro sempre à espreita. Esse olhar particular confere ao filme uma atmosfera quase sufocante, onde cada rua vazia e cada edifício destruído se tornam símbolos de um mundo em colapso.

Adrien Brody, em uma performance que redefine os padrões de entrega emocional, não apenas interpreta Szpilman, mas se torna ele. Sua atuação não depende de grandes gestos ou explosões dramáticas; pelo contrário, o impacto está nos silêncios, no olhar perdido, na forma como seu corpo se curva sob o peso da fome e do medo. Brody parece se dissolver dentro do personagem, sua presença física tornando-se um reflexo da destruição ao seu redor. O espectador não vê um ator em cena, mas um homem despido de tudo, vagando entre os escombros de sua antiga vida. O Oscar de Melhor Ator não foi apenas merecido, foi inevitável.

A direção de Polanski transforma a câmera em uma testemunha muda da tragédia. Muitas das sequências mais impactantes do filme acontecem em planos fechados, através de frestas, janelas quebradas e vãos de portas, como se o próprio protagonista estivesse espiando a realidade sem poder interferir. Essa escolha estética aprofunda a sensação de impotência, criando uma experiência quase voyeurística onde o público se torna cúmplice do horror, incapaz de intervir, assim como Szpilman. É um recurso que amplifica a angústia e nos obriga a sentir cada momento com uma intensidade dolorosa.

Mas “O Pianista” não é apenas sobre desespero. Em meio à devastação, há fragmentos de humanidade que emergem de onde menos se espera. O encontro entre Szpilman e o oficial alemão Wilm Hosenfeld é um desses momentos. Quando o músico, reduzido à sombra do que já foi, é instado a tocar piano para o soldado inimigo, o filme nos lembra que, mesmo nas circunstâncias mais sombrias, a arte ainda tem o poder de conectar almas. A música, que outrora representava sua profissão, torna-se sua linguagem final, seu refúgio e sua salvação. A interpretação de Chopin nesse momento é mais do que um recital; é um grito silencioso, um eco do que significa ser humano em meio à barbárie.

A trilha sonora não é apenas um complemento à narrativa, mas uma extensão do próprio protagonista. O filme se inicia com Szpilman ao piano, um homem cercado por beleza e cultura, e termina com ele retornando ao instrumento, agora marcado pela experiência da guerra. Esse arco narrativo não é casual; ele reforça a ideia de que, apesar de tudo, algo sobreviveu. O homem pode estar irreversivelmente transformado, mas a música persiste, como um testemunho silencioso de sua resistência.

Diferente de outras produções sobre o Holocausto, “O Pianista” não busca provocar lágrimas fáceis ou explorar o sofrimento como espetáculo. Sua força reside na sobriedade, na recusa em manipular emoções de maneira óbvia. Polanski, ele próprio um sobrevivente da guerra, compreende que o verdadeiro horror não precisa ser amplificado; basta ser mostrado com honestidade. É essa abordagem desprovida de artifícios que torna o filme tão avassalador.

“O Pianista” nos deixa com o peso da história, com a consciência de que certas feridas nunca cicatrizam por completo. É um filme que não apenas narra o passado, mas ecoa no presente, lembrando-nos do que somos capazes — tanto na destruição quanto na resistência. E é essa dualidade que o torna não apenas um grande filme, mas uma experiência inesquecível.

Filme: O Pianista
Diretor: Roman Polanski
Ano: 2002
Gênero: Biografia/Drama/Guerra
Avaliação: 10/10 1 1
★★★★★★★★★★