O filme que faturou 11 bilhões de reais e foi assistido por 250 milhões de pessoas nos cinemas chegou à Netflix Divulgação / Columbia Pictures

O filme que faturou 11 bilhões de reais e foi assistido por 250 milhões de pessoas nos cinemas chegou à Netflix

Ao longo das últimas duas décadas, o personagem Peter Parker tem se mostrado extraordinariamente resistente ao desgaste — fenômeno raro em uma indústria marcada pela repetição e saturação criativa. Após inúmeras adaptações para as telas, desde a clássica trilogia dirigida por Sam Raimi com Tobey Maguire até as incursões mais recentes e tecnicamente primorosas comandadas por Jon Watts, muitos poderiam questionar se ainda haveria algo genuinamente relevante a explorar nas aventuras do jovem fotógrafo do “Clarim Diário”.

É exatamente nesse cenário aparentemente esgotado que “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” consegue realizar o inesperado, ultrapassando o fan service típico de filmes que apostam na nostalgia fácil, para oferecer uma reflexão poderosa e surpreendente sobre identidade, sacrifício e amadurecimento. Mais do que uma mera reunião de referências aos longas anteriores, o filme propõe uma sofisticada desconstrução do herói, lançando-o em um turbilhão emocional e existencial até então pouco explorado com tamanha profundidade nas adaptações anteriores.

A construção narrativa do roteiro assinado por Chris McKenna e Erik Sommers parte de uma premissa conhecida, mas que é tratada com uma originalidade intrigante: Peter Parker, vivido por um Tom Holland no auge da maturidade interpretativa, tem sua identidade revelada de forma pública pelo vilão Mysterio. No entanto, diferente do tratamento previsível dado em tantas outras produções do gênero, o diretor Jon Watts investe num caminho arriscado e mais complexo, onde o peso das consequências recai sobre os ombros do protagonista com uma intensidade desconcertante.

A perseguição frenética pelas ruas de Nova York, que poderia facilmente ser apenas mais uma sequência convencional de ação, torna-se uma metáfora potente sobre o quanto as decisões impensadas da juventude reverberam com severidade no limiar da vida adulta. Ao incluir MJ (Zendaya, numa performance ironicamente sensível) e Ned Leeds (Jacob Batalon, perfeito na construção de uma lealdade quase ingênua) nas consequências da exposição, Watts consegue ilustrar com precisão angustiante como nossos atos repercutem violentamente sobre aqueles que amamos.

É nesse contexto sombrio que entra a figura ambivalente do Doutor Estranho, interpretado por Benedict Cumberbatch com uma sutileza que transcende a caricatura dos “salvadores” habituais da Marvel. Se por um lado ele parece oferecer uma saída milagrosa ao caos instaurado, por outro deixa evidente a armadilha existencial que qualquer tentativa de solução fácil representa para o protagonista.

O feitiço que deveria livrar Peter de suas responsabilidades apenas amplifica os desafios que ele precisa enfrentar, trazendo para seu universo figuras emblemáticas do passado cinematográfico da franquia. Retornam personagens como o icônico Doutor Octopus de Alfred Molina e o perturbador Duende Verde, interpretado por Willem Dafoe com uma energia visceral que supera inclusive suas aparições originais, rompendo limites geracionais e surpreendendo pela atualidade da interpretação. A ambição de Parker em “curar” esses vilões ao invés de destruí-los simboliza de forma inequívoca o desejo de reconciliar erros passados com novas perspectivas de redenção, em uma ousadia ética incomum ao gênero.

Mas o filme é ainda mais inteligente na maneira como absorve e transcende a influência conceitual da brilhante animação “Homem-Aranha no Aranhaverso”, utilizando o multiverso não apenas como um dispositivo narrativo de entretenimento, mas como um espelho sofisticado para explorar as inúmeras possibilidades identitárias do protagonista. Ao unir gerações diferentes do Homem-Aranha, com a participação inesperadamente tocante de Tobey Maguire e Andrew Garfield — este último especialmente favorecido por um roteiro que lhe permite finalmente expressar toda a riqueza emocional e a vulnerabilidade anteriormente desperdiçadas —, o longa estabelece uma conexão metalinguística que não apenas homenageia o legado das versões anteriores, mas questiona a própria ideia de identidade fixa. Cada Peter Parker ali representado carrega cicatrizes diferentes, decisões equivocadas, e arrependimentos que transformam a reunião numa jornada quase terapêutica, onde o autoconhecimento emerge não de certezas, mas da aceitação da imperfeição e do erro como parte fundamental da condição humana.

Outro grande mérito de Jon Watts está no equilíbrio exemplar entre ação e introspecção, sem que nenhuma dimensão seja comprometida pela outra. As cenas visualmente impressionantes de batalhas em cenários urbanos distorcidos por efeitos digitais precisos não servem apenas para encantar os olhos, mas para expressar simbolicamente o mundo interior perturbado do herói. A Nova York retorcida pelo caos mágico é um reflexo metafórico perfeito das angústias e dilemas existenciais de Parker, incapaz de conciliar sua identidade pública de herói com suas dores privadas. Esse contraste ganha força pelo texto ágil e perspicaz dos roteiristas, que mesclam com naturalidade a energia juvenil típica do universo adolescente à gravidade existencial que caracteriza as transições da vida adulta, jamais resvalando para a banalidade emocional ou para fórmulas dramáticas simplórias.

Se há uma dúvida sobre a capacidade da Marvel em se reinventar após recentes fracassos criativos, como “Viúva Negra” ou “Eternos”, “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” demonstra que a narrativa de super-heróis ainda tem potencial imenso para surpreender, desde que tratada com inteligência e coragem autoral. O filme não só revigora a franquia, como amplia as possibilidades narrativas e conceituais para o futuro da Marvel, deixando abertas múltiplas possibilidades para que novos diretores e roteiristas explorem a riqueza multidimensional e emocional do multiverso. No instante final em que a tela escurece, não se percebe apenas o encerramento de uma trama, mas o início de um novo capítulo cheio de potencial interpretativo e filosófico.

A genialidade dessa versão do Homem-Aranha não reside apenas na recriação de um personagem já conhecido, mas na audácia em desafiar o espectador a refletir profundamente sobre como nossas escolhas moldam quem somos, e sobre o inevitável preço cobrado pela transição inevitável da juventude para a maturidade. Assim, Jon Watts não apenas revitaliza um mito popular: ele amplia suas fronteiras, aprofundando nossa relação emocional com um herói cuja grandeza sempre residiu em sua admirável humanidade.

Filme: Homem-Aranha: Sem Volta para Casa
Diretor: Jon Watts
Ano: 2021
Gênero: Ação/Aventura/Fantasia/Ficção Científica
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★