Mila Kunis no melhor papel de sua carreira em filme com Glenn Close na Netflix Divulgação / Indigenous Media

Mila Kunis no melhor papel de sua carreira em filme com Glenn Close na Netflix

Poucos dramas conseguem capturar a agonia da dependência química sem recorrer a estereótipos desgastados ou sentimentalismo barato. “Quatro Dias com Ela” se propõe a esse desafio, explorando a batalha de uma mãe diante do retorno da filha viciada em heroína. Glenn Close e Mila Kunis entregam performances que transcendem o roteiro, conferindo uma densidade emocional que, em muitos momentos, supera as limitações narrativas.

Glenn Close interpreta Deb, uma mulher dilacerada entre o amor incondicional e o esgotamento emocional causado pelos ciclos de recaída da filha. Já Mila Kunis, em um desempenho que foge da superficialidade, encarna Molly com uma fisicalidade alarmante: a magreza extrema, os dentes corroídos e o olhar perdido traçam um retrato cruel da devastação imposta pelo vício. Não há aqui a glamorização do sofrimento nem tentativas de atenuar o impacto visual da degradação — o filme se esforça para manter a experiência incômoda e realista.

Inspirado no artigo “How’s Amanda? A Story of Truth, Lies and an American Addiction”, do The Washington Post, o longa-metragem dirigido por Rodrigo García se ancora em uma história real, mas nem sempre consegue evitar os tropeços típicos de narrativas baseadas em eventos verídicos. Algumas sequências soam fabricadas para amplificar a carga dramática, como o improvável convite para Molly palestrar a estudantes poucos dias após uma crise de abstinência. A cena, longe de reforçar a verossimilhança, escancara um dos dilemas do filme: ao tentar equilibrar realismo e impacto emocional, ocasionalmente resvala em artifícios que enfraquecem sua autenticidade.

Embora “Quatro Dias com Ela” traga nuances valiosas sobre a dinâmica entre mãe e filha, seu desenvolvimento por vezes parece se apoiar demais na intensidade das atuações, sem expandir os dilemas morais e sociais que a trama sugere. Diferente de produções como “Querido Menino” ou “O Retorno de Ben”, que abordam a dependência química sob múltiplos prismas, este filme mantém o foco restrito à relação central, sem aprofundar aspectos mais amplos da crise dos opioides nos Estados Unidos.

Ainda assim, a obra não deixa de provocar reflexões importantes. O vício é tratado não apenas como uma luta individual, mas como um fardo que destrói famílias, testando os limites do amor e da resiliência. A jornada de Deb e Molly reforça a complexidade de um problema sem soluções fáceis, onde o apoio incondicional se choca constantemente com a exaustão e a descrença.

“Quatro Dias com Ela” não traz nada de inovador, mas encontra sua força na entrega visceral de suas protagonistas. Se há algo que permanece após os créditos finais, é o desconforto de um tema que não permite indiferença — e, talvez, essa seja sua maior virtude.

Filme: Quatro Dias Com Ela
Diretor: Rodrigo García
Ano: 2020
Gênero: Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★