Kelly Fremon Craig é conhecida por “Recém-Formada” e “Quase 18”. No Prime Video, ela lança “Are You There, God? It’s Me, Margaret.”, filme de 2023 baseado no livro de Judy Blume. O que todos esses filmes têm em comum, além de Craig? Todos tratam do mesmo tema, embora suas protagonistas tenham idades diferentes.
Em “Recém-Formada”, Alexis Bledel interpreta uma jovem que terminou sua graduação na universidade e precisa retornar para a casa dos pais, pois está desempregada e sem perspectivas. Já em “Quase 18”, Hailee Steinfeld é uma adolescente do ensino médio, revoltada e solitária, sofrendo de ciúmes pelo fato de sua melhor amiga estar apaixonada por seu irmão. Em “Are You There, God? It’s Me, Margaret.”, a narrativa gira em torno de Margaret, uma garota de 12 anos ansiosa pela primeira menstruação.
Todas as protagonistas são mulheres e, embora estejam em fases diferentes da vida, enfrentam situações de amadurecimento e adaptação. O mundo ao redor delas está em uma transformação mais veloz que o comum e, enquanto observam a vida acelerar ao seu redor e exigir mais maturidade, precisam olhar para dentro de si, se aceitar e se adaptar às mudanças que as desafiam.
A beleza de todos esses filmes é que não exploram situações mirabolantes, cinematográficas e pouco críveis. Pelo contrário, descrevem personagens extremamente comuns, passando por dificuldades com as quais qualquer pessoa pode se relacionar, sem possuírem talentos extraordinários. A beleza está na simplicidade com que tudo se desenrola, fazendo-nos contemplar a vida e compreender que o fantástico está no cotidiano, no comum, no ordinário.
Margaret se muda da casa da avó em Nova York para os subúrbios de Nova Jersey porque seu pai recebeu uma promoção e a família agora pode finalmente se emancipar. No entanto, a nova fase da vida, embora seja uma evolução, exige mudanças difíceis de encarar. Margaret precisa trocar de escola, deixar os antigos amigos e fazer novos, começar do zero.
Para sua surpresa, as coisas em Nova Jersey saem melhor do que o esperado quando ela é recebida pela vizinha Nancy Wheeler, que a insere em um novo grupo de amigas. Mas Nancy, apesar de receptiva e comunicativa, impõe condições à amizade: Margaret precisa ser descolada o suficiente para não envergonhá-la e ao grupo. Essas condições envolvem um amadurecimento que Margaret não havia, até então, se sentido pressionada a alcançar, como menstruar e usar sutiãs.
Nancy é ingênua, mas vive pela superficialidade, e isso confunde Margaret, fazendo-a acreditar em todas as fofocas e intrigas de Nancy. Por exemplo, Margaret passa a acreditar que Laura Danker, a menina mais alta e desenvolvida da sala, permite que os meninos a apalpem. Seja qual for a razão pela qual Nancy criou esse e outros mitos, isso faz com que Margaret se afaste ligeiramente de seus ideais de bondade e honestidade, até que Nancy finalmente seja desmascarada.
Mas nada é muito grave, e nenhum tema nesse filme é tão relevante quanto os aprendizados e a evolução de Margaret de criança a adolescente. Nem mesmo suas dúvidas sobre fé e religião, motivo pelo qual os pais de sua mãe, Bárbara (Rachel McAdams), que são cristãos, deixaram de ter contato com a família. Isso porque seu pai, Herb (Benny Safdie), é judeu.
“Are You There, God? It’s Me, Margaret.” é um filme reconfortante que não explora situações muito dramáticas nem intrigas intensas. Tudo se desenrola quase que tranquilamente, deixando um gosto doce de nostalgia e saudosismo. A transição da infância para a adolescência parece infernal dentro da mente de quem a vivencia, mas, com o distanciamento do tempo, percebemos que também é mágica e transformadora, como a metamorfose de uma borboleta.
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