Kelly Fremon Craig retorna com maestria ao universo das histórias de amadurecimento, ampliando sua exploração das complexidades da adolescência com “Are You There God? It’s me Margaret.”. Neste filme, a diretora constrói uma adaptação que vai além da simples transposição do clássico romance de Judy Blume, original de 1970. Através da vivacidade e profundidade da personagem Margaret Simon, interpretada com talento por Abby Ryder Fortson, somos levados a um passeio pelas confusões, os dilemas e as descobertas que marcam a puberdade. A década de 1970 não é apenas o pano de fundo da história, mas um protagonista silencioso que colore as experiências da jovem com uma nostalgia palpável, ao mesmo tempo em que questiona e expande a experiência juvenil.
A narrativa se desvia de ser uma mera reconstrução do texto original e, ao invés disso, se apresenta como uma reflexão expandida sobre os desafios da adolescência. Margaret, dividida entre o cristianismo de sua mãe e o judaísmo de seu pai, enfrenta o dilema de construir sua identidade religiosa e pessoal em um ambiente familiar e socialmente fragmentado. O roteiro de Fremon Craig equilibra com habilidade os tons de humor e introspecção, criando uma atmosfera onde cada passo da protagonista é acompanhado com um olhar crítico, mas carinhoso, sobre a juventude. O filme não se limita a revisitar momentos já conhecidos da literatura, mas propõe uma lente mais profunda, desafiando as concepções de fé, pertencimento e autodescoberta que permeiam a história.
O elenco de apoio se destaca, trazendo uma riqueza de nuances que complementam a jornada de Margaret. Rachel McAdams, como Barbara, a mãe de Margaret, traz uma performance cheia de vulnerabilidade, mostrando uma mulher que luta para se adaptar a um novo contexto suburbano, ao mesmo tempo em que lida com os seus próprios medos de perda e identidade. Benny Safdie e Kathy Bates completam o círculo familiar com performances que adicionam camadas de complexidade. Bates, como a avó de Margaret, não apenas proporciona momentos de humor, mas também se torna uma figura essencial na compreensão dos desafios familiares intergeracionais. O conflito entre os mundos de Margaret e sua avó é uma das muitas representações cuidadosas de como as dinâmicas familiares são marcadas por expectativas e imposições.
O filme capta a estética dos anos 1970 de forma magistral, não apenas em sua direção de arte e fotografia, mas também na maneira como a composição de cada cena transmite uma sensação de autenticidade. Ao evitar a tecnologia e o mundo das redes sociais, Fremon Craig nos transporta para um tempo em que as relações humanas eram mais palpáveis e a adolescência era vivida de maneira mais íntima. Cada elemento da cenografia, desde os móveis até as roupas dos personagens, constrói uma imersão nas texturas e atmosferas de uma época que, para os jovens espectadores, pode soar como uma descoberta histórica, mas para os mais velhos, um retorno às memórias de uma infância menos digitalizada e mais pessoal.
No núcleo da história, o tema da religiosidade se destaca como um ponto de tensão e reflexão. Quando Margaret é encarregada de um trabalho escolar sobre a religião, ela se vê diante de uma questão que se expande além do campo acadêmico e adentra os domínios da sua própria busca espiritual. O roteiro trata da religião não apenas como uma doutrina, mas como um elemento de construção e desconstrução pessoal. O dilema de Margaret, ao tentar entender as crenças divergentes de seus pais, revela as fissuras que muitas vezes existem em nosso entendimento de fé e identidade. O filme trata dessa questão de forma delicada, respeitando a complexidade do tema e oferecendo uma visão multifacetada da relação entre crença e pertencimento, sem recorrer a soluções fáceis ou respostas prontas.
Embora “Are You There God? It’s me Margaret.” não alcance a carga emocional de seu antecessor, “Quase 18”, o filme se mantém firme em sua posição como uma comédia de amadurecimento de grande profundidade. A direção de Fremon Craig revela uma autenticidade inegável, demonstrando uma habilidade excepcional em capturar os pequenos dilemas da adolescência e transformá-los em algo universal e atemporal. A busca de Margaret por sua primeira menstruação, suas expectativas sobre o primeiro amor e seu desejo de pertencer a um grupo de amigos são representações sinceras de uma fase da vida que, embora aparentemente simples, está carregada de complexidade emocional. A forma como o filme trata esses temas com tanta empatia e honestidade faz com que o público se sinta envolvido, mesmo sem a necessidade de um grande drama ou reviravoltas narrativas.
No entanto, o que realmente diferencia “Are You There God? It’s me Margaret.” é a sua capacidade de propor uma reflexão genuína sobre o crescimento. Não se trata apenas de reviver a nostalgia de uma época, mas de explorar com honestidade o processo de transição da infância para a adolescência, e de como as pequenas, mas significativas experiências, moldam o ser. O filme é uma obra cinematográfica de grande sutileza, marcada pela coragem de abordar questões profundas, sem deixar de lado o calor humano e a leveza de um bom retrato de amadurecimento.
Através de suas interações familiares, amizades e descobertas pessoais, “Are You There God? It’s me Margaret.” oferece uma experiência cinematográfica rica, genuína e profundamente impactante, com performances que tornam cada momento inesquecível e uma narrativa que continua a reverberar na mente do espectador, muito tempo depois de a tela se apagar.
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