O último filme da icônica franquia, que faturou mais de 5 bilhões e fez 150 milhões de espectadores tremerem no cinema, chegou à Netflix Divulgação / Miramax

O último filme da icônica franquia, que faturou mais de 5 bilhões e fez 150 milhões de espectadores tremerem no cinema, chegou à Netflix

Cidadezinhas que escondem segredos perversos, materializados por figuras excêntricas que não se adequam ao cotidiano um tanto rígido da comunidade onde nasceram, foram se tornando um subgênero poderoso do terror. Talvez o caso que ilustre o argumento com mais precisão seja a franquia sobre ocorrências inexplicáveis na pequena Amityville, um povoado em Babylon, no condado de Suffolk, NY, sequência que caiu nas graças do público ao longo de cerca de quatro décadas, entre 1979 e 2017, variações sobre um mesmo tema que nunca deixaram que o tédio se instalasse.

Dirigido por David Gordon Green, “Halloween Ends” serve-se dessa ideia central para reciclar a história de um assassino em série que se consolida como a maldição de um lugarejo simples, de gente preconceituosa, tacanha, o que não demora a colocar abaixo as certezas monolíticas da audiência quanto à própria pureza de sentimentos. O roteiro de Paul Brad Logan, baseado nos personagens criados por John Carpenter e Debra Hill (1950-2005), oxigena elementos de “Halloween — A Noite do Terror” (1978), de Carpenter, sob uma perspectiva menos intimista e mais assumidamente tétrica, o que resulta em cenas de violência onipresente, mas calculada, aumentando a responsabilidade dos atores.

Se há um gênero de filme que consegue se reinventar conforme passam-se os anos, esse gênero é o terror. É inquestionável que o terror muitas vezes se aproveita de argumentos empregados em outras ocasiões, mas como os tempos são outros, como outro também é o entendimento das pessoas diante da vida, mesmo filmes abertamente inspirados em produções consagradas, cults ou blockbusters, apresentam suas adaptações, felizes ou nem tanto. O terror proporciona uma infinidade de modos de se pensar o mundo, os costumes, a vida, e… rejeitar o mundo, os costumes, a vida — pelo menos a vida como a entendemos sob muitos aspectos desde tenra idade.

Ao eixo central dessas histórias, vão aderindo subtramas com um verniz de seriedade, que prometem levantar boas discussões acerca de tópicos que cruzam os anos à prova de qualquer chance de pacificação ou incluir elementos que contribuam para o aclaramento de mistérios sobre determinado personagem, mas que logo são abandonadas e abrem alas a situações improváveis, como a que se tem no 13º longa da franquia. A Amityville da vez é Haddonfield, onde em 2019 Corey Cunningham se envolve na morte acidental de um garoto de quem tomava conta enquanto os pais estavam numa festa de Halloween no fim da rua.

Green volta a alguns lances dos filmes anteriores, todos muitos identificados com Carpenter, para lembrar que há um assassino realmente perigoso à solta, e então o público lembra-se do desafortunado Michael Myers, ainda que Corey não seja flor que se cheire. Rohan Campbell encarna esse incômodo com tudo quanto a seguir, dividindo com a Laurie Strode de Jamie Lee Curtis os melhores lances. Como se disse, tudo muito John Carpenter — e isso é muito.

Filme: Halloween Ends
Diretor: David Gordon Green
Ano: 2022
Gênero: Crime/Terror
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.