O que acontece quando um veterano de guerra decide usar suas habilidades adormecidas para desafiar as injustiças que permeiam o mundo ao seu redor? E se esse homem, já marcado pelas cicatrizes do tempo, não estiver sozinho, mas acompanhado por antigos companheiros de batalha, todos igualmente comprometidos com uma missão tão imprudente quanto necessária? As perguntas se multiplicam quando se percebe que o inimigo não é apenas um grupo de criminosos, mas uma força poderosa, bem entrincheirada nos corredores do poder, usando máscaras de respeitabilidade enquanto manipula o jogo das sombras. E quando o cerco se fecha, não apenas sobre ele, mas também sobre aqueles que ama, surge o dilema moral: até onde se deve ir em nome da justiça?
Esses questionamentos conduzem a narrativa deste thriller cômico dirigido por Robert Schwentke, que explora a história de um ex-agente da CIA decidido a enfrentar uma rede de assassinos de aluguel que o persegue implacavelmente. O protagonista descobre que sua própria família está na mira dos inimigos, o que o obriga a revisitar um passado sombrio e perigoso, repleto de decisões difíceis e alianças complexas. O roteiro de Erich e Jon Hoeber leva o espectador por uma sequência vertiginosa de situações inusitadas, mantendo o foco nas peripécias do grupo liderado por Bruce Willis, que entrega uma atuação memorável, marcada pelo sarcasmo e pela audácia, ainda livre das limitações impostas pela afasia que interrompeu sua carreira.
Na pele de Frank Moses, Willis retoma o arquétipo do herói improvável, semelhante ao que já fez em “Duro de Matar” e “A Fortaleza”, mas com um toque de humor ácido e melancolia contida. O diretor Robert Schwentke faz um uso magistral dos enquadramentos, alternando cenas abertas e fechadas para refletir a ambiguidade moral do personagem. A edição ágil de Thom Noble dá ritmo à narrativa, sem perder o fio condutor que une as peças do quebra-cabeça. Quando Frank percebe que não pode enfrentar seus inimigos apenas com coragem e determinação, ele reúne seu antigo esquadrão de elite. Cada membro traz consigo histórias de glórias passadas e cicatrizes de batalhas travadas na sombra, formando um grupo tão disfuncional quanto letal.
O elenco é um espetáculo à parte. Helen Mirren, na pele de Victoria Winslow, incorpora com elegância e ironia o papel da única mulher do grupo, enquanto Morgan Freeman, como Joe Matheson, traz uma profundidade emocional que contrasta com o humor cínico da trama. John Malkovich interpreta Marvin Boggs com um misto de paranoia e brilhantismo, acrescentando um toque de excentricidade à equipe. Brian Cox, como o enigmático Ivan Simanov, oferece um desempenho cativante, marcado por sua presença imponente e seu humor sombrio. “Red — Aposentados e Perigosos” brinca com estereótipos sem jamais cair no clichê, mantendo um ritmo ágil e uma narrativa imprevisível.
A produção também merece destaque pela ambientação e pela maneira como lida com questões universais, como o envelhecimento e a luta contra a irrelevância. A escolha de elenco não é apenas um tributo aos veteranos de Hollywood, mas também um comentário sutil sobre o próprio envelhecimento no mundo moderno. A participação de Ernest Borgnine, aos 93 anos, é um tributo à sua longa carreira e uma lembrança tocante do ciclo inevitável da vida.
Chega a ser uma irônica melancolia discutir a passagem do tempo e a inevitável decadência física ao lado do nome de Bruce Willis, um ícone da ação que agora enfrenta o maior desafio de sua vida fora das telas. Forçado a encerrar sua carreira devido a uma doença cruel, Willis deixa um legado inegável de carisma e versatilidade. Neste filme, ele entrega uma de suas últimas grandes atuações, com uma mistura de bravura e vulnerabilidade que torna seu personagem inesquecível. É um lembrete do impacto que ele teve na cultura pop, desde os tempos de “A Gata e o Rato” até se tornar um dos maiores heróis de ação do cinema. Com humor ácido, cenas de ação explosivas e um elenco impecável, o filme se torna um tributo não apenas ao gênero, mas também à resiliência humana.
★★★★★★★★★★