Na Netflix: o tipo de filme que você assiste uma vez e nunca mais esquece Divulgação / Netflix

Na Netflix: o tipo de filme que você assiste uma vez e nunca mais esquece

Dois estranhos despertam lado a lado em um quarto sombrio e desconhecido, sem memória de como chegaram ali. O que começa como desorientação logo se transforma em horror absoluto ao perceberem que estão unidos de forma literal e cruel: foram cirurgicamente costurados por um desconhecido com intenções tão sádicas quanto misteriosas. A dor é insuportável, mas o desespero é ainda maior. Trancados em um ambiente claustrofóbico, envoltos por cortinas pesadas e paredes cobertas por papéis de parede lúgubres, precisam lidar com uma realidade perversa: suas vidas agora estão fisicamente entrelaçadas, obrigando-os a suportar a presença um do outro enquanto tentam descobrir como escapar daquele pesadelo.

À medida que a narrativa avança, a tensão psicológica se intensifica. Cada movimento exige um esforço inimaginável, transformando ações cotidianas, como se levantar ou até mesmo respirar, em verdadeiros tormentos. O ambiente, com sua iluminação fraca e decoração funesta, amplifica a angústia, convertendo o quarto em uma prisão mental e física. O pânico inicial dá lugar a um desespero sufocante e, em seguida, à necessidade urgente de sobrevivência. Unidos contra a própria vontade, eles devem encontrar forças não apenas para lidar com a dor física, mas também com o impacto psicológico de estarem à mercê de um sádico cuja identidade e motivos permanecem obscuros.

Enquanto tentam desvendar o mistério de sua condição, surgem pistas enigmáticas. O telefone verde de disco no quarto não funciona para chamadas de socorro, mas toca um réquiem de Mozart quando acionado, como uma sinistra trilha sonora de sua tragédia. Todos os objetos no cômodo estão dispostos em pares, reforçando uma sensação de simetria inquietante. Cercados por quadros de Francisco Goya, as imagens parecem observar suas angústias, acrescentando um toque de morbidez ao cenário já macabro. Cada detalhe parece meticulosamente planejado para provocar desconforto, sugerindo que estão presos em um jogo sádico cujo objetivo ainda não compreendem completamente.

O suspense é construído de maneira magistral, revelando camadas de complexidade psicológica enquanto os personagens começam a perceber que não são completos desconhecidos. O passado retorna para assombrá-los, expondo segredos cuidadosamente ocultos. Sara, assombrada pela culpa do adultério, vê na sua condição um castigo merecido. David, por outro lado, precisa confrontar a vergonha de sua vida anterior e os julgamentos que o seguiram. As revelações vêm à tona lentamente, como cortes cirúrgicos precisos, revelando um elo sombrio que os conecta muito antes de serem costurados fisicamente.

A referência bíblica encontrada em uma das Bíblias deixadas no quarto sugere um julgamento moral. A citação de Isaías sobre um tempo em que predadores e presas coexistem em paz é um comentário sombrio sobre a necessidade de redenção e honestidade. Ao mesmo tempo, a presença constante de pares no ambiente insinua uma reflexão sobre dualidade e destino compartilhado. A narrativa sugere um destino inevitável, onde a tentativa de se libertar dos laços físicos se transforma em uma metáfora para a impossibilidade de fugir das consequências de suas ações passadas.

No desfecho chocante, a tentativa desesperada de separação física conduz a um clímax trágico e poeticamente sombrio. Sara, em um ato de determinação brutal, utiliza um abridor de cartas para cortar as suturas que a mantêm presa a David. A cena é de uma intensidade visceral, filmada com um realismo que provoca repulsa e compaixão. Mas a liberdade vem com um preço alto: a hemorragia é fatal. Em seus momentos finais, ambos compreendem que, separados, continuam a estar ligados por um destino cruel e inescapável. A morte os une em um ciclo trágico, sugerindo que nem mesmo o fim da vida pode desfazer certos laços.

A alegoria final do yin-yang, revelada na imagem que aparece na subida dos créditos, ecoa o tema central da narrativa: o equilíbrio trágico entre opostos inseparáveis. A diretora Mar Targarona constrói uma experiência cinematográfica perturbadora e inesquecível, utilizando a dor física como um espelho da angústia emocional e da culpa moral. Não é apenas um filme sobre sofrimento e sobrevivência; é uma reflexão sombria sobre como escolhas passadas podem nos costurar para sempre ao que tentamos esquecer. Ao explorar os limites da dor e da redenção, “Dois” desafia o público a confrontar seus próprios medos e pecados.

Filme: Dois
Diretor: Mar Targarona
Ano: 2021
Gênero: Drama/Mistério/Thriller
Avaliação: 7/10 1 1
★★★★★★★★★★