Se me pedissem para escolher as dez melhores bandas ou até mesmo os dez melhores álbuns do rock, seja nacional ou internacional, não seria tão difícil quanto listar as dez melhores canções do rock nacional. Embora tenha sido um trabalho árduo escolher apenas dez músicas, o resultado ficou bastante representativo, e o processo de montagem da lista deu margem para uma série de constatações interessantes.
Quando coloquei no papel as minhas canções favoritas, num total de vinte, já percebi que não conseguiria separar sozinho as “dez mais”. Assim, resolvi pedir ajuda nas minhas redes sociais, e a Revista Bula fez o mesmo em seu Instagram. Até o momento em que este texto foi fechado, 188 pessoas haviam respondido à pergunta: “Qual a melhor canção de rock nacional?”
Ao colocar as respostas em uma planilha eletrônica, veio a primeira constatação: praticamente cada pessoa tem uma música preferida. As 188 pessoas citaram 122 músicas diferentes, ou seja, 1,5 pessoa para cada música, em média.
Em uma votação tão pulverizada, várias músicas ficaram empatadas nas primeiras dez posições da tabela. Para resolver esse impasse, adotei o critério de escolher apenas uma música classificada para cada artista ou banda.
Outra confirmação que a planilha apresentou é o fato de a Legião Urbana ser a banda mais lembrada, mas seus ardorosos fãs divergem muito quanto a qual é a melhor música. Foram votadas 20 canções diferentes, mas apenas duas tiveram mais de um voto, e apenas uma entrou na classificação final.
Uma grande surpresa: em um universo dominado por bandas surgidas na década de 1980 e pelos medalhões Rita Lee e Raul Seixas, um grupo que teve seu auge na década de 1970 conseguiu colocar uma música entre as dez: O Terço.
Uma grande ausência: não houve uma menção sequer a qualquer música de Cássia Eller, a não ser por “Malandragem”, que fazia parte da minha lista inicial. Creio que isso se deve à maneira pela qual sua carreira foi conduzida. Apesar de sua alma roqueira, a gravadora não queria que ela fosse associada a um só estilo e a “vendeu” como cantora com repertório eclético.
Ironicamente, a grande vencedora, a canção mais citada, é de um artista que começou no rock e, ao sair de sua banda de origem, ampliou seu repertório para outros gêneros musicais: “O tempo não para”, de Cazuza.
Composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil, a canção apareceu no disco de estreia dos Mutantes e no álbum coletivo “Tropicália ou Panis et Circencis”. O rock psicodélico recebe um arranjo magistral de Rogério Duprat. A música critica a alienação da sociedade brasileira durante a ditadura, que se preocupava apenas com “pão e circo”, ignorando as questões políticas e sociais.
A única música instrumental da lista foi composta por Flávio Venturini para o álbum “Criaturas da Noite”. Uma suíte de mais de 12 minutos, repleta de belas melodias e influências do rock progressivo. Apesar de não ter letra, traz vocalizações marcantes e uma construção sofisticada, consolidando-se como uma das peças instrumentais mais icônicas do rock brasileiro.
Com um toque da fase psicodélica dos Beatles, “Flores” contrasta sua batida marcante com uma letra que aborda dor e efemeridade. Seu final remete ao hino “Born to Be Wild”, do Steppenwolf. Charles Gavin, Paulo Miklos, Sérgio Britto e Tony Bellotto assinam a composição, que se tornou um dos maiores sucessos da banda e marcou a fusão do rock nacional com elementos de outros gêneros.
Baseada no “Bhagavad Gita”, livro sagrado do hinduísmo, a canção apresenta um diálogo entre Arjuna e Krishna, refletindo sobre existência e divindade. Apesar de sua temática filosófica, tornou-se um dos maiores sucessos de Raul Seixas, em parceria com Paulo Coelho. Com uma melodia marcante e um refrão poderoso, a faixa se mantém como uma das mais emblemáticas do rock nacional.
O maior sucesso da banda punk Plebe Rude é um chamado à ação contra a desigualdade social e econômica no Brasil. A música questiona até quando a população aceitará passivamente a miséria e a injustiça. Composta por Philippe Seabra, André X e Gutje, a canção continua atual e impactante, reafirmando o punk como um gênero de contestação e resistência no cenário musical.
A letra de Cazuza retrata um jovem em busca de prazer e felicidade, funcionando como uma crônica de sua própria vida. A melodia, fortemente influenciada pelo blues rock dos Rolling Stones, se encaixa perfeitamente na energia da música. Composta por Cazuza e Frejat, tornou-se um dos hinos do Barão Vermelho e segue como um clássico do rock brasileiro até os dias de hoje.
O título vem do livro “Jubiabá”, de Jorge Amado, onde um bar abriga os marginalizados da sociedade. Na canção, porém, o protagonista espera ser resgatado pelo amor. Com melodia melancólica e arranjo sofisticado, a composição de Herbert Vianna tornou-se um dos maiores sucessos dos Paralamas do Sucesso, mostrando a capacidade da banda de mesclar poesia e musicalidade.
A melodia envolvente conduz uma reflexão sobre o tempo e a urgência de viver cada instante. A interpretação de Renato Russo, em perfeita sintonia com a instrumentação, potencializa o impacto da canção. Um dos maiores sucessos da Legião Urbana, “Tempo Perdido” segue atemporal, ressoando com diferentes gerações que se identificam com sua mensagem sobre juventude e efemeridade.
Do álbum “Fruto Proibido”, a balada reflete o desabafo de Rita Lee após ser dispensada dos Mutantes. Além de um lamento pessoal, tornou-se um hino de rebeldia e independência feminina. Com um solo inesquecível de Luís Sérgio Carlini, a música foi um grande sucesso, consolidando Rita como um dos maiores nomes do rock nacional e uma das figuras mais autênticas da MPB.
Lançada ao vivo em 1988, quando Cazuza já enfrentava o HIV, a música dispara críticas à hipocrisia da sociedade brasileira. Apesar do tom ácido, traz um resquício de esperança com “ainda estão rolando os dados”. Composta por Cazuza e Arnaldo Brandão, tornou-se um hino de contestação e reafirmou o artista como um dos maiores letristas da música brasileira.
Do álbum “A Revolta dos Dândis”, a música traz influências existencialistas de Sartre e Camus. Com rimas marcantes e sonoridade viajante, sintetiza a busca por liberdade e a incerteza da jornada. A frase “a dúvida é o preço da pureza” reforça a filosofia da canção, que se tornou uma das mais icônicas dos Engenheiros do Hawaii. Letra e música de Humberto Gessinger.