A comédia mais esperada de 2024 acaba de estrear na Netflix, dirigida por Jerry Seinfeld, com Melissa McCarthy e Hugh Grant Divulgação / Netflix

A comédia mais esperada de 2024 acaba de estrear na Netflix, dirigida por Jerry Seinfeld, com Melissa McCarthy e Hugh Grant

Para além dos ovos com bacon, uma das instituições mais sólidas dos Estados Unidos foi dilatando seus horizontes e incluindo mais e mais cidadãos esfaimados numa guerra de teor separatista e intolerante, e não é a lactose. É assim, desse jeito tresloucado, farsesco e orgulhosamente kitsch que Jerry Seinfeld desnuda a liturgia de um dos hábitos mais sagrados para americanos de todas as idades, classes sociais, peles, sangues, culturas.

“A Batalha do Biscoito Pop-Tart”, saga deliciosa em que, como no bufê de desjejum de um grande hotel, misturam-se croissants parisienses com queijo mineiro, Seinfeld fala de preconceito racial, os bastidores nem sempre éticos das megaempresas, a transformação do modelo tradicional de família e, claro, de como a indústria cultural precisou adequar-se a tantas metamorfoses.

O texto do diretor e dos corroteiristas Spike Feresten e Andy Robin não tem nenhum pejo de tocar em chagas profundas que atormentam a Terra da Fartura desde sempre, valendo-se para tal de uma disputa fictícia (mas não muito) entre a Kellogg’s e a Post pela hegemonia do paladar do consumidor, o que resulta na revolucionária criação, em 1964, do Pop-Tarts, um biscoito pré-cozido recheado com frutas e produzido pela marca do tigre Tony, que já mantinha-se na liderança inabalável graças ao cereal de flocos de milho açucarados, cuja história é, essa, sim, fascinante.

Evidentemente, há antídotos para veneno tão arrasador, mas, como tudo na vida, há que se pagar um preço que muita gente considera absurdo. Dentre os poucos consensos em perspectivas de gente com ideologias as mais variadas, o mais espaçoso é o que crava a sensação de que o mundo caminha mesmo rumo para o inferno da miséria intelectual, nutrida por ódio gratuito e desprezo por coisas miúdas como empatia, que concorre para os desacertos que atravessam os anos sem que ninguém saiba muito bem por que está matando ou morrendo.

Um garoto meio descorçoado num balcão renova suas últimas esperanças ao ler a mensagem na caixa que armazena 10% de toda a glicose que alguém deve ingerir num dia. Ele crê que a resposta para toda a desilusão do existir brota de um jeito mágico no instante em que se arrebenta o lacre do imenso retângulo de papelão e chega ao saco plástico onde repousam aquelas pepitas de ouro comestíveis, mas o homem que o observa lhe retruca dizendo que aquilo não passa de uma válvula de escape, usada por gente fraca com graves problemas emocionais, que só consegue sufocar suas mágoas com comida.

Nessa pequena sequência está a seiva do que “A Batalha do Biscoito Pop-Tart”, na Netflix, quer debater, malgrado o longa tenha pretensões mais amplas. George, o pequeno filósofo vivido por Isaac Bae, e Seinfeld na pele de Bob Cabana, o executivo da Kellogg’s, cínico e feroz em assuntos de dinheiro, prestam-se a mestres de cerimônia numa animação feita só com atores de carne e osso, tamanho o colorido do espetáculo.

A sequência em que Cabana e Donna Stankowski, a assistente interpretada por Melissa McCarthy, “quebram o átomo do café da manhã”, emulando Einstein, vale a hora e meia de um besteirol tão criativo quanto vesano, que sabe muito bem por onde seguir e quando parar.


Filme: A Batalha do Biscoito Pop-Tart
Direção: Jerry Seinfeld
Ano: 2024
Gênero: Comédia
Nota: 8/10

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.