Em algum momento de nossa vida, podemos nos sentir perigosamente sós, como se estivéssemos isolados em nossa própria existência, presos em um silêncio ensurdecedor. Clamamos pela empatia de alguém, mas, quanto mais nos afundamos em nossa angústia, mais percebemos o quanto estamos perdidos em nosso próprio desespero, ansiando por um salvador que nunca vem, que não quer nos conhecer e nos despreza. Essa sensação de inadequação diante do mundo indica ao ser humano a necessidade de buscar o entendimento — primeiro de sua própria natureza, seus medos, necessidades e misérias —, para alcançar uma sabedoria instintiva que o possa apoiar na obtenção de autoconhecimento, mesmo após uma peregrinação exaustiva e infrutífera por várias outras áreas de onde apenas brota uma aridez profunda.
Esse alicerce que o ser humano constrói para proteger sua alma da crueldade do mundo é apenas um passo para se tornar quem realmente é. Aceitamos desafios para os quais sabemos ser incapazes, mas abandonar a tarefa, por mais justificável que seja a renúncia, pode ser visto como covardia, o oposto do que a vida representa. Nos momentos em que somos dominados por uma completa afasia, por uma fraqueza esmagadora, somos salvos pela consciência de que nossos propósitos mais importantes, aqueles que, mesmo tentando, jamais conseguiríamos suprimir, persistem — mesmo que adormecidos em algum canto secreto e nebuloso de nossa mente. A poesia se compõe em grande parte dessas idas e vindas, dos avanços e, especialmente, dos retrocessos que se manifestam além do que é permitido revelar na natureza humana. “Ardente Paciência” é um bom exemplo do que a verdadeira poesia pode ser, principalmente quando personificada por um dos gigantes dessa arte, tão oculta quanto nobre. O chileno Rodrigo Sepúlveda cria um trabalho meticuloso, que busca incutir no espectador a sensação de que a poesia faz parte da vida, tanto em seus detalhes quanto em sua totalidade, em suas muitas e insondáveis essências.
Assim como a poesia, o amor é um elemento ao qual raramente prestamos atenção, mas ele está lá, permeando a vida de todos, tão fluido que nos alimentamos dele sem perceber. Sepúlveda se apoia no roteiro de Antonio Skármeta — autor de “O Carteiro e o Poeta” (1985), adaptado para o cinema em 1994 por Michael Radford — e Guillermo Calderón, precisamente para reforçar o que Skármeta e Radford já afirmaram: nenhuma forma de arte consegue unir erudição e simplicidade tão bem quanto a poesia. Em termos de erudição, destaca-se ninguém menos que Pablo Neruda (1904-1973), muito mais que poeta, muito mais que artista. Vivendo em um doce exílio em Isla Negra, Neruda ainda sofria com perseguições políticas devido à sua fé no Partido Comunista do Chile, pelo qual cogitou candidatar-se à Presidência do país, retirando-se em favor de Salvador Allende, que foi deposto em 11 de setembro de 1973. O filme menciona a política apenas de forma tangencial, preferindo, como a produção de 1994, focar-se no relacionamento de Neruda, interpretado por Claudio Arredondo, e Mario, o carteiro, interpretado por Andrew Bargsted.
“Ardente Paciência” não acrescenta muito além do que “O Carteiro e o Poeta” já apresentou, mas, ainda assim, a história mantém sua força. É importante lembrar de Neruda e de que existe poesia, mesmo que escondida, no mundo.
Filme: Ardente Paciência
Direção: Rodrigo Sepúlveda
Ano: 2022
Gênero: Drama
Nota: 8/10