O filme mais adorável e encantador da Netflix que você certamente ainda não assistiu Divulgação / Netflix

O filme mais adorável e encantador da Netflix que você certamente ainda não assistiu

Desde o momento em que o ser humano toma consciência de sua existência, ele inicia uma busca incessante por elementos de beleza que possam amenizar as adversidades da vida. Essa procura por beleza é surpreendentemente vasta, ultrapassando o alcance de nossas limitações perceptivas. A vida, com sua magnificência, tem a habilidade de transformar o ordinário em extraordinário — lugares, indivíduos, ideias, sentimentos, aspirações. Aquilo que consideramos inalienavelmente nosso, seja por direito ou conquista, e as várias projeções que fazemos para o futuro, incluindo aquelas que jamais sairão do reino da especulação, tudo isso carrega um peso significativo. Quanto mais nos apegamos a essas expectativas, mesmo as mais tangíveis, mais nos afastamos da essência do existir, que valoriza apenas o concreto. Contudo, sem o prazer de sonhar, perderíamos nossa essência, aquilo que nos distingue no reino animal.

O devaneio não é apenas um luxo, mas uma necessidade para sobreviver às adversidades da vida, evitando o colapso sob a pressão das primeiras dificuldades — e elas são numerosas e inevitáveis. Todos nós temos o direito de construir castelos no ar, cometer deslizes e nos perder em pensamentos profundos que se chocam com a realidade da razão, sustentando o peso de cada decisão tomada. O ser humano encontra na vida um campo fértil para todo tipo de alienação, justificando suas fugas da realidade tanto para suavizar períodos difíceis quanto para buscar novos rumos em busca de uma existência mais equilibrada.

 Nossos sonhos frequentemente dialogam com nossas memórias mais profundas, as quais inevitavelmente nos reconectam com aqueles que caminharam conosco em partes de nossa jornada, até que o destino decide misturar novamente as cartas do jogo. Francis Lawrence continua a destacar-se por acender no seu público o desejo ardente de explorar realidades alternativas. Após explorar o mundo fantástico em “Jogos Vorazes”, ele continua a minerar esse gênero, adotando agora um tom mais suave em “Terra dos Sonhos” (2022), que impacta de maneira semelhante às narrativas de mundos em desintegração, mas busca um refúgio narrativo em territórios menos tumultuados.

O filme “Terra dos Sonhos” ecoa a potência de “Alice no País das Maravilhas” (1865), focando em uma protagonista que é forçada a amadurecer rapidamente, assim como Lewis Carroll explorou com Alice. Nemo, claramente uma referência ao clássico de Júlio Verne e ao peixe animado de Andrew Stanton, vive com seu pai, Peter, interpretado por Kyle Chandler, numa residência que também funciona como um farol. Não demora para que Nemo, como Alice, enfrente adversidades que impulsionam uma narrativa tanto ágil quanto poética, que beneficia imensamente da atuação marcante de Jason Momoa.

Flip, o anti-herói do filme, guia a personagem central, interpretada por Marlow Barkley, até Slumberland, onde ela pode temporariamente escapar das relações tensas com seu tio, o abastado Phillip, interpretado por Chris O’Dowd, e reviver momentos de simplicidade e afeto com seu pai. Lawrence maneja essa premissa de maneira exemplar, capturando com precisão as flutuações emocionais de Nemo, cercada de adultos que muitas vezes parecem pouco confiáveis. Em uma das cenas finais, enriquecida com efeitos visuais, o enigma envolvendo Flip é revelado, dando ao filme um caráter de crônica moderna e relevante sobre as imperfeições das relações humanas, mesmo entre aqueles que realmente se amam, não apenas em sonhos.


Filme: Terra dos Sonhos
Direção: Francis Lawrence
Ano: 2022
Gêneros: Fantasia/Aventura
Nota: 9/10