O mistério inspirado em Agatha Christie que já arrebatou mais de 140 milhões de espectadores na Netflix John Wilson / Netflix

O mistério inspirado em Agatha Christie que já arrebatou mais de 140 milhões de espectadores na Netflix

A condição paradoxal da solidão, desde o início até o fim da vida — um dos poucos aspectos incontestáveis da existência que permeia toda a humanidade — reside no fato de que frequentemente nos deparamos com indivíduos que parecem pouco interessados em compartilhar suas experiências ou emoções que justifiquem sua presença no mundo. Além disso, escondemos cuidadosamente partes de nós mesmos, buscando protegê-las da curiosidade alheia, na esperança de evitar surpresas desagradáveis. No entanto, apesar do impulso ancestral de fugir e se isolar, muitos de nós persistem em conformar-se com as expectativas sociais, adotando comportamentos predefinidos que nos distraem de nossas próprias solidões, traumas e peculiaridades que tornam nossa vida um pouco mais suportável.

No entanto, nem tudo é desolação. Existe sempre a esperança de encontrar alguém cuja vida ressoe de alguma forma com a nossa, sem segundas intenções ocultas. Com o passar do tempo e o amadurecimento, percebemos que os vínculos formados na infância têm maior probabilidade de perdurar ao longo dos anos, apesar das vicissitudes da vida que tendem a rompê-los à medida que crescemos. Isso apenas reforça a ideia da poderosa influência da amizade, capaz de mudar histórias e até mesmo o mundo, se permitida. A fusão dessa magia com as vontades humanas, mesmo que pareçam destinadas a coexistir separadamente, cria algo novo e indescritível, o segredo dos afetos duradouros.

Em “Glass Onion: Um Mistério Knives Out”, o segundo filme de uma trama enigmática com muitas nuances, Rian Johnson continua a explorar o suspense de forma meticulosa, ampliando o drama dos personagens, todos ricos entediados envolvidos em jogos perigosos para escapar de sua própria insignificância. Inspirado na música dos Beatles, o roteiro de Johnson revela as complexidades das relações humanas, capazes de filtrar a luz que nelas incide, transformando-a em uma energia muitas vezes sombria. O diretor homenageia Agatha Christie de maneira original, mantendo um equilíbrio entre o suspense e os momentos cômicos, temperando a narrativa de forma envolvente.

Assim como no filme anterior, Johnson desafia as convenções do gênero, alterando o enredo de forma imprevisível, mantendo o público intrigado até o desfecho. Desta vez, o detetive Benoït Blanc, interpretado de forma brilhante por Daniel Craig, mergulha nas excentricidades de uma nova gama de personagens, cada um com suas próprias peculiaridades. A crítica social sutil de Johnson continua presente, destacando as extravagâncias de personagens como Birdie Jay, interpretada por Kate Hudson, e a representação dual de Janelle Monáe.

Se há algum ponto negativo em “Glass Onion: Um Mistério Knives Out”, que está na Netflix, é a sua longa duração, que pode levar o espectador a especular demais sobre o desfecho. No entanto, isso não diminui o potencial para uma terceira aventura do detetive Benoït Blanc, que certamente resolveria qualquer mistério pendente.


Filme: Glass Onion: Um Mistério Knives Out
Direção: Rian Johnson
Ano: 2022
Gêneros: Thriller/Crime/Comédia
Nota: 9/10