O filme excêntrico e charmoso, da Netflix, que deixará uma lição para sua vida: nunca é tarde para recomeçar

O filme excêntrico e charmoso, da Netflix, que deixará uma lição para sua vida: nunca é tarde para recomeçar

A vida é uma sucessão de desafios, uma saga rumo ao desconhecido, uma eterna luta contra o relógio, em que ter muitos talentos significa não ter nenhum. Há quem perca um tempo precioso querendo agradar o maior número de pessoas possível, pensando que assim pode, quem sabe, agradar a si mesmo. Essa falha elementar vem sendo cometida reiteradas vezes ao longo da história, sempre por alguma razão psicologicamente complexa.

Como quase todo mundo, Radha Blank passara boa parte da vida seguindo os conselhos bem-intencionados de parentes, amigos, namorados, gente muito interessada no seu bem, até que cansou de tanto altruísmo à sua volta. Como sua personagem em “The Forty-year-old Version”, algo como “a versão dos quarenta”, em tradução literal, Radha aproveita a chegada à meia-idade para se libertar de alguns grilhões a que ela mesma se acorrentou. Rodado em 2020, o filme, confidência autobiográfica de uma mulher à procura do tempo perdido, já não mais em flor, mas com muito pela frente, é notável pela coragem da protagonista em arrostar fantasmas de tantos anos, mas que ainda estavam perigosamente à solta — e iriam permanecer assim, não fosse essa vontade incontornável de tirar os esqueletos do armário de uma vez por todas.

“The Forty-year-old Version” é tão confessional que Radha continua a ser Radha. Na pele de uma dramaturga que foi fracassando ao longo dos anos, mencionada numa lista das trinta pessoas que poderiam chegar lá antes dos trinta anos, ela hoje está a três meses dos quarenta, dando aulas para uma dezena de alunos pobres do ensino médio no Harlem, um subdistrito de Manhattan antes degradado, mas que agora conta com investimentos maciços do mercado imobiliário numa Nova York que descobre a maravilha da gentrificação. Sua carreira está completamente estagnada, ela sofre um bloqueio criativo crônico — na verdade, ela sequer se preocupa em tentar escrever, desde que sobreviva —, mas não chega a ser desgraçadamente infeliz. À exceção de Elaine (Imani Lewis), sua turma lhe quer bem e ela acredita verdadeiramente que pode fazer a diferença na vida daqueles tipos meio marginais, que puderam, como ela algum dia, contar com um porto seguro. É só por isso que continua, incentivando-os a expressar seus sentimentos em peças improvisadas, ainda que quase sempre o enredo resvale para o sexo. Nesses momentos, Radha Blank, a quase unanimidade Profe B, se dá conta de sua miséria.

A ausência de cores predomina na fotografia de Eric Branco, que pontua a narrativa de amarelo, azul, lilás e rosa nos momentos em que Radha se refere ao texto que finalmente começa a desenvolver, cut-ins impressionistas que fazem a trama ainda mais saborosa. A peça, “Harlem Ave.”, se desdobra sobre a revitalização do Harlem, subitamente ocupado por jovens brancos de classe média alta, que por seu turno têm de aprender a conviver com uma realidade que ignoraram por toda a vida, conscientemente ou não. Outra inovação semântica é a inclusão de depoimentos de personagens que encarnam a alma das ruas do Harlem — a septuagenária alegre, o tintureiro asiático, a balconista latina e dois alunos negros de Radha —, dando opiniões reveladoras sobre a mulher de quarenta anos. 

Archie, o sul-coreano gay que agencia a protagonista, se desdobra para que Radha volte ao mainstream com tudo, o que é perfeitamente possível, desde que ela faça algumas concessões. O personagem de Peter Y. Kim, seu melhor amigo desde a escola, tenta convencê-la a se submeter às vontades de Josh Whitman (atenção para o trocadilho), vivido pelo astro da Broadway Reed Birney. Patologicamente vaidoso, afetado, cínico e capaz de farejar sucessos a léguas, Whitman se dispõe a produzir a “Harlem Ave.”, contanto que Radha suavize na abordagem conflituosa da questão racial, dando a uma personagem branca o mesmo destaque do recebido pelo casal de protagonistas negros. A reação de Radha não é muito diplomática, mas desencadeia nela a vontade de, pela primeira vez, se dedicar a uma atividade puramente intuitiva: fazer rap. A descoberta de D, o DJ interpretado por Oswin Benjamin com quem passa a dividir boa parte de sua vida — e de “The Forty-year-old Version” —, faz com que Radha experimente o tal renascimento aos quarenta de que sua vizinha, a senhora de setenta e muitos anos, e meio mundo tanto falam, tendo ainda direito a uma surpresa sobre a qual já não pensava há algum tempo, mas que, essa, sim, lhe lança de volta à adolescência. 

Pleno de um humor sardônico, surpreendentemente revigorante, “The Forty-year-old Version” é de longe o melhor filme para uma faixa etária até há muito pouco desprezada pelo cinema, ou por já não contar com toda a graça de rapazes e moças de (no máximo) 25 anos, mas tampouco poder se afirmar no fim da história. Quarentões e quarentonas, ou quase, temos muito a dizer, por mais que excelentes outras histórias pipoquem por aí. Clichês são sempre hediondos, mas o que reza que a vida (re)começa aos quarenta é acintosamente verdadeiro. Eu que o diga.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.