O filme que marcou a vida de uma geração está no catálogo da Amazon Prime Video

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A amizade entre mulheres pode encerrar segredos que transcendem os anos e se destacar sobre a maioria dos relacionamentos, muitos baseados em mera atração física, conforto material e o medo insuportável da solidão. É o que se vê em “Tomates Verdes Fritos” (1991), do diretor Jon Avnet. O homem está condenado a ser livre, como pregara o filosofo francês Jean–Paul Sartre (1905-1980). O desejo por liberdade é poderoso e esconde tantos perigos por suscitar no homem a necessidade de ser representado, legitimado, respeitado. A partir do momento em que se percebe verdadeiramente como sujeito de deveres e direitos, o indivíduo reivindica a admissão de sua identidade, de suas pautas, da sua razão de ser no mundo.

Martin Heidegger (1889-1976) talvez tenha sido o pensador que mais se dedicou à questão da unicidade do homem. Em “Ser e Tempo” (1927), uma das obras filosóficas mais relevantes do século 20, o filósofo alemão centra suas atenções sobre a questão de ser o homem uma criatura racional, ainda que envolta no manto de sua própria insensatez, a alma, que queira-se ou não, é submetida a um corpo, que por sua vez, também se vê cercado de irracionalidade, a irracionalidade do mundo. Heidegger objetivava descobrir o que vem a ser uma pessoa, vassalos que somos todos de condições que não primam pela compreensão do argumento de que cada ser humano tem demandas muito próprias, que o direcionam a este ou àquele movimento. Partidos políticos, associações de classe, denominações religiosas partem desse princípio, o de se arvorar em defensoras de um modo de vida que pode ser perfeito para muitos, ainda que, mesmo entre esse subgrupo social, hajam os que se sintam desassistidos. Sobre o tempo, Heidegger vincula o ser humano à época em que vive, absorvendo os costumes e padrões de comportamento em uso, mas dando margem para desvios, sem entrar no mérito sobre se são ou não positivos. O indivíduo, ressalta Heidegger, deve se pautar pela autenticidade, apreensivo com o que ocorre à sua volta, mas atentando para o detalhe ululante da finitude da vida, que nos cobra uma posição sobre determinados assuntos de em quando em quando.

A dona-de-casa Evelyn Couch tenta agradar o marido Ed a qualquer custo, mas é desprezada por ele. Evelyn sabe que tem uma vida conjugal que não faz o menor sentido, sabe que deveria se separar, mas permanece na relação, se ressentindo cada vez mais e sufocando as mágoas com comida. O programa de casal deles é uma visita semanal a uma tia do marido de Evelyn, que como o sobrinho, não a suporta e faz com que aguarde fora do quarto. Numa dessas torturantes esperas, como que por encanto, surge na vida dessa mulher amargurada e sem mais qualquer esperança de ser feliz, a doce figura de Ninny Threadgoode, uma debilitada e gentil octogenária que lhe conta a história de Idgie e Ruth, duas jovens moradoras de uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos. Conforme se aproximam, subentende-se o nascimento de um romance entre Idgie e Ruth, com tudo o que isso poderia implicar no contexto da década de 1930 em que a trama se passa, quadra da história em que o mundo era muito mais preconceituoso. “Tomates Verdes Fritos no Café da Parada do Apito” (1987), livro da escritora americana Fannie Flagg, cujo enredo fora adaptado por Avnet, faz questão de enaltecer o caso de amor entre a rebelde Idgie e a pacífica Ruth, mas receando que o filme fosse injustamente tomando somente sob o prisma do amor lésbico, o diretor simplesmente insinuou o envolvimento carnal das duas e priorizou a amizade, permeando-na de análises acerca da discriminação racial e do machismo, cada um falando a segmentos marginalizados ainda hoje.

Tanto no livro como no filme a necessidade da gentileza em meio à aspereza da vida é tratada com o merecido cuidado, malgrado vá se esclarecendo que a conduta da protagonista se fundamenta muito mais em comodismo que em doçura propriamente. Não bastasse ser espinafrada pelo marido, Evelyn é vítima de perseguições também no convívio social. Ao tentar estacionar o carro, uma motorista mulher — nesses momentos, não há sororidade que se imponha… — se adianta e toma-lhe a vaga. Numa sequência posterior, é insultada por um garoto, que troça de sua compleição. Essa animosidade sem trégua consegue, enfim, arrancar uma reação de Evelyn, que se valendo das histórias que ouve da anciã, se inspira e toma a coragem de revidar. Como complemento estético, em “Tomates Verdes Fritos” o trem é, mais uma vez na trajetória do cinema, incorporado pela narrativa, plena de sugestões a um mundo que não se vergava à premência do tempo, no qual tudo acontecia no seu ritmo próprio, um mundo já morto. Aqui, além da beleza de tempos defuntos, o trem remete à transformação pela qual passam as vidas das personagens, um símbolo de despedidas mais que de encontros, mais de desencontros que de coesão, conforme se denota em filmes como “Os Girassóis da Rússia” (1970), de Vittorio de Sica (1901-1974), “Me Chame Pelo Seu Nome” (2017), dirigido por Luca Guadagnino, e “Um Homem de Sorte” (2018), de Billie August.

Grandes amores muitas vezes começam de amizades sólidas, que extravasam o terreno do sentimento e se espraiam para outros setores da existência, como o sexo, a vontade de se partilhar a vida, quiçá de se chegar ao fim da linha, depois de muitos anos, e ter alguém capaz de entender o parceiro sem que se precise dizer nada. A amizade é o amor feito em camas separadas, ainda que sempre haja a chance de se dividirem os lençóis. Com sua delicadeza, Ninny — a Idgie cuja história de vida e de amor sua improvável amiga conhecera —, faz grandes revelações a Evelyn. Cabe só a ela escolher em que vagão subir.

Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.