Explodiu o Congresso Nacional e foi ao cinema

Sangue e papel. Era tudo o que me restava. Enquanto aguardava ser atirado numa piscina cheia de ratos, eu escrevia. Ai, que saudades eu sentia de ouvir o Cazuza… Ai que saudade dos lábios tórridos e carnudos da Kátia Flávia… Ano 2017. Eu era um preso claramente influenciado pelo cenário cultural dos anos 1980, mas disso eles não sabiam. Aliás, eles, os guardas, eles não sabiam que eu escrevia em plena clausura. Podia me vangloriar por ludibriá-los. Eu me esgueirava à noite, na escuridão da sela escura, cheio de medo, cometendo pleonasmos, redundâncias e outro erros crassos contra a língua portuguesa, trocando quase tudo, sem ter certeza se escrevia o vocábulo “sela” usando a letra “s” ou a letra “c”. Quando se aplicava um? Quando se aplicava outro? Sempre fui um perfeccionista, um burro perfeccionista, se é que me entendem. Montado na cela da ignorância gramatical, valendo-me tão somente da luz triste que luzia dos meus olhos escavados, eu furava a ponta dos dedos com uma ferpa-mestre, revezando as mãos para aquele sacrifício em prol da nação, um ato de bravura que consistia em deixar o sangue vazar, escorrer, pingar minimamente sobre a brancura límpida de um guardanapo. Foi nele, por exemplo, que concebi esse texto. Minha caneta era um palito de fósforo. O sangue fervia, servia bem como tinta.

Eu não era tão experimentado em haraquiri que, aliás, nem mesmo era uma técnica de estripação norte-coreana, muito menos, no idioma daquela gente. A necessidade faz o sapo pular. Aprendi depressa. Infelizmente, antes de ser detido, eu assistia muito aos programas de TV no Brasil. Eu era manipulado, um cidadão programado pela mídia. Portanto, de tanto acompanhar as transmissões de futebol, por exemplo, aprendi a fazer leitura labial e apliquei esse conhecimento com os carcereiros. Pelo vão da grade, vi quando um deles comentou com o parceiro que eu parecia mais pálido que o habitual durante uma sessão de tortura por afogamento nas águas gélidas trazidas da Montanha Baekdu. Eita, lugar bonito para se morrer afogado. Aqueles sujeitos eram frios que nem geleira e não estavam para brincadeira, a não ser pelo fato que curtiam praticar roleta-russa com os prisioneiros nas horas vagas. No caso, os detentos entravam com as cabeças; eles, com revólveres contendo uma única bala no tambor. Eu não via graça nenhuma naquilo.

Os meses de prisão e de sangria velada produziram em mim anemia, saudades descomunais de casa e raiva de Deus, de quem, aliás, eu sempre duvidara. Suponho que vocês queiram saber como e por que fui preso. Mesmo não sendo um repórter, eu fora enviado pelo meu editor à Coreia do Norte com o propósito de escrever uma reportagem a respeito daquele país, tido e havido por muitos como uma ameaça bélica ao planeta. O ócio, vocês sabem, envenena a mente da gente. Então, durante um passeio numa tarde de folga, depois de encher a cachola com soju, fui capturado por militares à paisana, por causa de uma simples molecagem: coloquei a bandeira do Flamengo nas mãos da estátua de um mártir cujo nome nem fiquei sabendo. Foi assim que dei entrada no presídio de Pyongyang.

Sei que pode parecer ridículo, porém, meses de solidão e tortura operam maluquices na cabeça da gente. Acabei fazendo amizade com um dos torturadores que dava expediente naquela masmorra. Ficamos tão íntimos que Mi-Cha, o guarda, pesava menos as mãos quando me espancava com o porrete de taboca. O sujeito me contou que o carismático líder Kim Jong-un andava animado com a evolução do arsenal bélico da Coréia do Norte. Já tinha torrado uma grana desperdiçando inúmeros mísseis no Mar da China, testando alcance e precisão. Quando questionei se o principal objetivo dos exercícios militares era mesmo alcançar a América e detonar alvos nos Estados Unidos, o guarda anuiu que sim, que seria honorável se aquilo um dia acontecesse.

Mi-Cha estava tão convencido que eu não sairia vivo daquela prisão que compartilhou um suposto segredo de Estado. Corria à boca miúda nos bastidores do poder, que o ditador norte-coreano, antes de bombardear Wall Street and Disneyland, faria um ataque surpresa contra a América Latina, mais especificamente contra o Brasil, paisinho de merda (foi este o termo depreciativo utilizado pelo meu algoz) que ficava mais ou menos à mesma distância dos EUA. A ideia era disparar um Tomahawk contra o Congresso Nacional em Brasília, engendrando uma espécie de assepsia na política nacional. Se fossem bem sucedidos no extermínio instantâneo de senadores, deputados federais e lobistas, aí sim, estariam prontos, aptos e encorajados a atacar a Casa Branca & Cia.

Achei aquela história tão absurda que resolvi escrevê-la. Mi-Cha percebeu o meu desapontamento. Tanto assim que chamou um colega de plantão e ambos me conduziram para mais uma sessão de mergulhos forçados até ficar roxinho. “Ordens superiores”, ele dizia. Enquanto me afogavam, senti uma saudade danada do café com biscoitos e das pessoas lá de casa. Pensei também no estudante americano Otto Warmbier, que fora detido pelas autoridades norte-coreanas numa situação tola, parecida com a minha, e devolvido semimorto para os braços de seus parentes nos Estados Unidos. A alegação oficial da Coréia do Norte foi que o rapaz contraíra botulismo, uma doença grave que afetava o sistema nervoso central, podendo levar ao coma e à morte. Aliás, Otto morreu em solo americano, poucos dias após a sua extradição.

Estava me sentindo sufocado, mais triste que um camelo. Desta feita, tive raiva, não somente de Deus, mas, do guarda Mi-Cha. Cazuza, por que me abandonaste? Kátia Flávia, queria tanto o seu colo! Saquei que estava prestes a desfalecer. Então, despertei no meio da madrugada, deitado na minha cama, no meu quarto, na minha casa, num bairro tranquilo da cidade de Goiânia. Era só a velha asma atacando de novo os meus pulmões e os meus sonhos tolos por um mundo melhor.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 59 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.