POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 20/03/2010 ÀS 11:03 AM
Em 1970, menino, vi a Copa de Pelé numa televisão preto e branco na casa do vizinho João Borges (na época poucas pessoas tinham aparelho de tevê). Chuviscos, a bola e os jogadores se confundiam. Mas as imagens da televisão, mais do que o jogo em si, mesmerizavam adultos e crianças. Todos pareciam ter os olhos vidrados, contemplando a tevê como se fosse um quadro de Van Gogh. Resultado: por conta de Pelé, de suas diabruras, tornei-me torcedor do Santos. A Copa de 70 vai completar 40 anos, mas não há a respeito da grande seleção de Gérson, Jairzinho (imagine: na época, eu avaliava que era melhor do que Pelé), Rivellino, Clodoaldo, Tostão e Pelé um livro equivalente à excelente biografia “Estrela Solitária — Um Brasileiro Chamado Garrincha” (Companhia das Letras, 536 páginas), de Ruy Castro. Há obras episódicas, algumas sobre jogadores, mas não uma obra detalhada. O jornalista Milton Leite, embora não tenha a pretensão de escrever a obra “definitiva” sobre a Copa de 70, produziu um livro que explica razoavelmente bem o sucesso da seleção de João Saldanha e Zagallo. “As Melhores Seleções Brasileiras de Todos os Tempos” (Contexto, 223 páginas) apresenta histórias e análises pertinentes. Uma decisão oportuna foi a inclusão da seleção de 1982, a do técnico Telê Santana, como uma das melhores, embora não tenha ganhado a copa. Com justiça, Leite diz que “a seleção que conquistou em definitivo a Taça Jules Rimet entrou para a história como o melhor time já montado na história dos mundiais”. Não tinha Garrincha e Vavá, mas tinha Pelé, Tostão, Gérson, Jairzinho e Rivellino.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 13/03/2010 ÀS 09:56 PM
Instigado por leitores, mais de 50, li “Honoráveis Bandidos — Um Retrato do Brasil na Era Sarney” (Geração Editorial, 207 páginas), do jornalista Palmério Dória, com apoio de Mylton Severiano.
Pode ser que esteja enganado, mas o sucesso do livro possivelmente se deve mais à graça como o autor trata do assunto, a corrupção em altas escala e esfera, do que às denúncias em si.
No lugar de formação de quadrilha, Dória fala em “formação de família” (citando Ruy Castro). Aran, a pedido de Dória, escreveu um epitáfio para José Sarney: “Aqui jaz o dono do mar, do bar, da venda, da televisão, do jornal, do mausoléu, da rua, da avenida, do Estado...”.
O jornalista diz que, “no centro histórico de São Luís, dois do povo conversam:
— Qual é a pior coisa do Maranhão?
— A família Sarney.
— Qual a melhor coisa do Maranhão?
— Ser da família Sarney”.
leia mais...
POR
ADEMIR LUIZ
EM 13/03/2010 ÀS 09:39 PM
O escritor sul-africano J. M. Coetzee, prêmio Nobel de Literatura de 2003, é um exímio criador de personagens. Em sua rica galeria figuram desde sua recriação de Dostoiévski, em “O Mestre de São Petersburgo”, até David Lurie, o intelectual caído em desgraça de “Desonra”. Talvez a mais célebre dentre todas seja a protagonista do romance “Elizabeth Costello”, de 2003. Mas não foi nessa obra que ocorreu sua estreia. A primeira aparição conhecida de Costello deu-se na novela “A Vida dos Animais”, de 1999.
Na verdade, “A Vida dos Animais” não é exatamente uma novela. Ou por outra, não é apenas uma novela. Trata-se da publicação conjunta de duas palestras e de quatro ensaios sobre estas palestras. Explico: quando Coetzee foi convidado a ministrar duas conferências no tradicional encontro acadêmico de Tanner Lectures, promovido pela universidade norte-americana de Princeton, optou por desenvolver uma narrativa ao invés de discorrer sobre algum problema filosófico, político ou ético, como é o mais comum nesses ciclos de debate. Inegavelmente, pouco ortodoxo. Mas o que de fato quebrou o protocolo acadêmico do encontro foi o tema escolhido pelo orador: os direitos dos animais. A surpresa motivou quatro intelectuais a produzirem comentários sobre suas reflexões acerca da saudável “descompostura” de Coetzee. Os pontos de vista são os mais diversos. Escreveram uma bióloga, uma crítica literária, uma historiadora da religião e um estudioso da zooética. A soma desses seis textos, mais a competente introdução escrita por Amy Gutman, forma o conjunto do livro. Ou seja: uma novela que já vem com parte de sua fortuna crítica acoplada. Não sei se é pós-moderno, pois nem sei se isto que chamam de pós-modernidade realmente existe, mas, sem dúvida, é original.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 07/03/2010 ÀS 06:58 PM
Fico tentado a fornecer um guia de leitura do livro “Elza Soares — Cantando Para Não Enlouquecer” (Planeta, 383 páginas), do escritor José Louzeiro. No guia, privilegiaria os capítulos que discutem diretamente a artista e menos sua vida. Mas, se fizesse isto, contribuiria para privar o leitor de entender, de modo mais amplo, como uma favelada, sem nenhuma estrutura, se tornou uma cantora magnífica — espécie de Billie Holiday, pelo menos em sofrimento, dos trópicos.
Aos 12 anos, Elza Soares foi obrigada a se casar com Lourdes (Alaúrdes) Antônio Soares, de 22 anos. O pai, Avelino Gomes, acreditava que havia sido estuprada. Homem simplório e violento, Alaúrdes passou a estuprá-la, sim, mas depois do casamento.
Aos 13 anos, Elza Soares foi mãe. Com Alaúrdes teve cinco filhos, João Carlos, Dilma, Gilson, Gerson e Edmundo. Este morreu de fome. Gerson foi entregue para um casal adotar. No lugar de cuidar da casa, a criança preferia soltar pipa, carregando o bebê numa cesta de vime. Como não queria continuar apenas como “parideira”, arranjou emprego numa fábrica de sabão. Uma vez, como não aceitava seu progresso material e cultural, Alaúrdes atirou na mulher.
leia mais...
POR
ALEX SENS FUZIY
EM 05/03/2010 ÀS 06:12 PM
“Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer.” É assim, com ar deprimente, que começa “Os Espiões”, novo romance de Luis Fernando Veríssimo (Alfaguara, 142 páginas). Escrito de forma simples, direta, muitas vezes redundante e com algumas passagens repetitivas, o livro conta a história de um funcionário de uma pequena editora, mal-humorado e de ressaca nas segundas-feiras, com alguma boa-vontade nos dias restantes. Ele recebe exatamente numa terça-feira, em seu resquício de mau humor e dores de cabeça, o primeiro capítulo de um misterioso original com remetente de uma pequena e desconhecida cidade: Frondosa. É Ariadne quem assina o texto ausente de vírgulas, com graves erros gramaticais, texto este que desperta a curiosidade, o fascínio e até uma certa admiração exagerada — antes por parte do editor e depois de seus amigos e conhecidos de bar, porque tudo o que a misteriosa escritora quer com o romance é vingar-se do marido ciumento que, diz ela, matou seu amante.
Tanto o protagonista, o deslumbrado narrador, quanto seus amigos de bar, vão aos poucos sendo envolvidos pela imagem ao mesmo tempo interessante e irritante de Ariadne. Ela não só pretende mandar o livro em partes, esquiva e secretamente, como também suicidar-se quando o livro estiver pronto. Seria dramática e bela, poética até, se não fosse tão forçada e novelesca a personalidade desse quase-fantasma com fome de vingança. Depois de fatos sondados, ligações familiares descobertas através de nomes conhecidos, os personagens não mais têm curiosidade sobre seu objeto de mistério, mas real atração e um tanto de pena dele. Chega a ser quase cafona o modo como todos os amigos se reúnem, deslocando-se, desdobrando-se, alterando o próprio cotidiano, para, heroicamente, salvar Ariadne das mãos do marido que praticamente a deixa trancada dentro de casa.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 25/02/2010 ÀS 04:11 PM
No romance “Grande Sertão: Veredas” (Nova Fronteira, 552 páginas), de João Guimarães Rosa, há pelo menos sete grandes personagens: a Linguagem, o Sertão, Riobaldo Tatarana (o tradutor do Sertão e pactário com o Diabo), Diadorim (o duplo), Joca Ramiro (o homem fantasmal, o mito), Hermógenes (pactário com o Diabo) e Zé Bebelo. Deus e o Demônio são coadjuvantes. Um dos trechos mais admiráveis é o julgamento de Zé Bebelo, então bate-pau do governo, pelos jagunços.
O valente e palavroso Zé Bebelo pede para ser julgado e Joca Ramiro, chefão da jagunçama, aceita e convoca os “jurados” Sô Candelário, Hermógenes (pactário com o demo), Ricardão, Titão Passos e João Goanhá. “Reunidos no meio do eirado, numa confa”, o grupo começa o julgamento. “Zé Bebelo não estava aperreado. Tomou corpo, num alteamento — feito quando o perú [Guimarães Rosa prefere com acento] estufa e estoura — e caminhou em direitura.”
“‘Lhe aviso: o senhor [Zé Bebelo] pode ser fuzilado, duma vez. Perdeu a guerra, está prisioneiro nosso...’ — Joca Ramiro fraseou.” Zé Bebelo repostou: “Se era para isso, então, para que tanto requifife?” Sem perder a paciência, Joca Ramiro insistiu: “O senhor veio querendo desnortear, desencaminhar os sertanejos de seu costume velho de lei”. Zé Bebelo manteve a verve: “Velho é, o que já está de si desencaminhado. O velho valeu enquanto foi novo”.
leia mais...
POR
BRUNA GALVÃO
EM 25/02/2010 ÀS 02:56 PM
Há 50 anos morria em um acidente de carro na França o genial ensaísta, escritor e filósofo franco-argelino Albert Camus (1913 — 1960). Com diversas obras consagradas, como “O Estrangeiro”, “O Mito de Sísifo”, “A Peste” e “O Homem Revoltado”, o Nobel em Literatura do ano de 1957 vivenciou experiências extremas em sua vida, como a infância pobre na Argélia, onde nasceu e a melhora de posição social e econômica na França, quando adulto. Miséria, guerras, estudos, viagens, Comunismo... Sem dúvida são muitos os fatores que ajudaram a moldar a personalidade do autor, que veio ao Brasil em 1949 e que em um diário relata suas impressões, suas ansiedades e suas decepções desta viagem. Como todo ser humano, Camus agrada, finge, interpreta, impõe-se, rende-se às pessoas e às situações. Como estrangeiro, comete erros de pronúncia, de grafia, além de incompreensões culturais. Como detentor de uma extrema inteligência e sensibilidade, ele conta, observa, confessa-se e surpreende nessa narrativa tão particular. Seu caderno pessoal foi publicado pela primeira vez em 1978, na França, pela Éditions Gallimard (“Journaux de Voyage”). No Brasil, foi lançado pela Editora Record com o título “Diário de Viagem — A Visita de Camus ao Brasil*”, e a sua terceira edição traz notas de justificativa à grafia errônea de certas palavras e esclarecimentos a alguns comentários. Devido à quantidade insuficiente de anotações para se originar um livro, a publicação também aborda uma estada nos Estados Unidos, além de uma brevíssima permanência no Uruguai, Argentina e Chile. Como os comentários sobre o Brasil ocupam um maior número de páginas, ao mesmo tempo em que o leitor irá se deparar com observações singulares de um estrangeiro em uma terra estranha, também terá a possibilidade de se encontrar com um Camus “ele-mesmo”, e não somente com o intelectual de conferências, entrevistas e palestras.
leia mais...
POR
ALEX SENS FUZIY
EM 25/02/2010 ÀS 02:20 PM
Ou “Crônica de um Amor Desesperado”. Ou “Estrelas Vazias”. Ou “As Emanações Silenciosas”. Ou “A Vertigem Inominável”. Não importa realmente o título, mas a intensidade que mora em cada um deles, numa lista que antecipa o romance apaixonadamente dramático de Rafael Bán Jacobsen, mais um premiado escritor gaúcho (nascido na safra dos anos 1980) que resvala talento e recentemente ganhou a Bolsa Funarte de Literatura.
Assim como Clarice Lispector fez em “A Hora da Estrela”, Jacobsen nos brinda com outras opções de título para seu romance “Uma Leve Simetria” (Não Editora, 224 páginas). Cada uma das doze opções incluindo o título usado, cuja simetria é mais tênue do que parece, carrega todo o fardo invisível, porém palpável (como quando se sabe que o vento existe), de algum sentimento — mas qual? “As Emanações Silenciosas” e “A Vertigem Inominável” são títulos que deslizam perfeitamente sobre Daniel e Pedro, amigos que protagonizam ferozmente este romance que de leve não tem nada. Emoldurada pela cultura judaica, com seus costumes, regras e preceitos, a história fala de um sentimento que só recebe uma provável nominação em suas últimas páginas, o que não torna o livro uma surpresa nos valores tratados. Daniel é quem narra seu mais profundo amor por Pedro, seu amigo de infância, e a despeito de todo o cenário religioso que deixa as cenas descritas mais vivas e belamente enfeitadas, não é ela, a religião, o núcleo da história, mas a causa para ela, esta história, existir da forma como existe: pesada, complicada, aparentemente impossível. E as consequências que dela nascem formam o todo. Quem interessa aqui é a dupla de amigos, o amor que um nutre por outro, primeiro secretamente, para então ser revelado e ansiado pelo leitor.
leia mais...
POR
EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 14/02/2010 ÀS 11:45 AM
As cartas de Mário de Andrade são uma espécie de educação sentimental da elite cultural brasileira. Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Pedro Nava e, entre outros, Fernando Sabino cartearam com Mário e, seguramente, foram beneficiados pela ampla e vigorosa cultura do prosador e poeta paulista.
O livro “Correspondente Contumaz” (Nova Fronteira, 129 páginas), com 12 cartas de Mário Andrade ao médico, escritor e desenhista Pedro Nava, é divertido e inteligente. Mário puxa as orelhas de Nava carinhosamente, enquanto o orienta a respeito de poemas e desenhos.
O autor do romance “Macunaíma” era um descobridor de talentos. Tinha um olhar perspicaz para a qualidade da literatura de autores novos. Em 10 de abril 1927, numa carta para Nava, então com quase 24 anos, Mário comenta, com interesse, dois poemas do amigo mineiro, “A educação sentimental” e “Prelúdio nº 1”. O primeiro “é uma gostosura”; o segundo, “bonitíssimo”.
Depois do elogio, a crítica corrosiva: “Respingos: ‘tinidos de pios e chilros pipocando pingos dos papos estufados’ positivamente não gosto mais dessas brincadeiras sem valor lírico nenhum e cujo valor artístico como onomatopeia é mais do que duvidoso e muito sabido e muito fácil. Positivamente não carece a gente chamar Pedro Nava pra fazer essas coisas. Martins Fontes também faz e franqueza: faz muito milhor [Mário não escreve “melhor”] que você, Guilherme [de Almeida] e Ronald [de Carvalho] misturados”.
leia mais...
POR
DEMÓSTENES TORRES
EM 12/02/2010 ÀS 02:37 PM
O que intelectuais, escritores, professores e jornalistas lerão em 2010
Ainda não fiz a programação total de livros que espero ler em 2010, até porque alguns previstos para consumo no ano passado continuam num canto da esperança de ser apreciados. Há, também, os lançamentos almejados para os próximos meses e os volumes que tento encontrar, mas continuam no original em outros idiomas e apenas “arranho” em Inglês e Espanhol. Na lista a seguir, que me foi pedida no Twitter, estão apenas os que comprei nesse recesso parlamentar, pois seguramente após a volta dos trabalhos no Senado vai ser difícil visitar demoradamente bibliotecas, livrarias e sebos. Outros aguardam há tempos ainda nas sacolas das lojas.
Fiz uns pequenos comentários sobre as obras que já comecei a ler ou nas quais dei uma folheada mais demorada. Até para não cansar o leitor, evitei citar os livros técnicos, principalmente de Direito, Antropologia e Sociologia. Eles, em geral maioria no rol de qualquer planejamento de congressista dedicado às atividades no Legislativo, são necessários para as argumentações em alguns projetos dos quais sou relator, autor ou de cuja apreciação desejo participar como debatedor. Vamos ver se, com alguma disciplina, será possível cumprir em 2010 o calendário de leitura que apresento. O de 2009, como já disse, ficou incompleto. Vou tentar.
leia mais...