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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 08/02/2010 ÀS 06:29 PM
Na contracapa de “Lula do Brasil — A História Real, do Nordeste ao Planalto” (360 páginas, tradução de Paulo Schmidt e Bernardo Schmidt), o escritor Luiz Fernando Emediato, dono da Geração Editorial, que publicou a obra, escreve: “Os livros de Denise Paraná e o filme de Fábio Barreto contam a história emocionante e épica de Lula. O livro de Richard Bourne faz a mesma coisa — mas também a explica”. Concluída a leitura, constata-se que o livro é uma crônica da vida de Lula, da infância à Presidência da República, mas sem grandes revelações. Pode conter novidades para estrangeiros, mas para o leitor brasileiro minimamente informado é um repeteco do que Denise Paraná publicou na biografia oficial de Lula e do que saiu nos jornais e revistas. Há alguns erros na “pesquisa” de Bourne, que, se não comprometem todo o trabalho, indicam desleixo do professor-doutor da Universidade de Londres e da editora. Há informações interessantes, embora nada novas, como o fato de Lula ter sofrido depressão e ter sugerido que poderia desistir da disputa em 2002. Bourne mostra que Lula já “transferia” voto como metalúrgico. Na década de 1970, Jair Meneghelli não queria disputar a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, mas Lula o impôs. Meneghelli obteve 89% dos votos. Secundando o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Bourne sustenta que Lula é uma estrela internacional, mas admite que teve “dificuldade em convencer editores” a publicar seu livro no exterior. O livro não é inteiramente ruim, mas, apesar de recolher algumas críticas, aproxima-se de uma hagiografia.
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VALDIVINO BRAZ
EM 08/02/2010 ÀS 05:24 PM

Que negócio é esse — vinha-me perguntando — de sempre responsabilizar apenas ao boi pela emissão de gás metano (CH4), via arroto e flatulência — pois é, o peido —, no seu processo de ruminação? Humana curiosidade. De passagem, dando-se asas à imaginação desocupada, e posto que o gás metano é um tremendo explosivo, vislumbre-se uma flatulência global, coletiva e simultânea, e aí no meio alguém que, inadvertidamente, acenda um isqueiro para o seu cigarro. Bummm! Lá se vai a humanidade, com o estrondo de uma explosão nuclear, com o impacto e o gigantesco cogumelo da bomba atômica detonada no deserto de bélicas experiências. A bomba cômica que seria — o grande peido —, não fosse trágica. Eleve-se isso ao quadrado e teremos a bomba cósmica.
Dirão que essa idéia flatulenta aqui soa como coisa de gente desocupada, que não se leva a sério, nem por isso virem dizer que temos titica na cabeça, embora concordes em que a mente desocupada é oficina do diabo, contudo sabendo que muitas mentes “seriamente” ocupadas se ocupam do próprio diabo, pois então se ocupam do mal. Se os homens realmente se levassem a sério, o mundo não seria o que é. Mas imagine-se a cena, só para se ter uma idéia da coisa: a flatulência coletiva, momentaneamente concentrada, um palito de fósforo e a espetacular explosão que se segue — similar ao big-bang de cósmica nebulosa —, e ali o fuliginoso e sulfuroso cogumelo da humana fedentina. Donde se deduz que o homem — esse boneco inflado, cheio de poses —, é mesmo um saco de ossos e tripas. Uma coisa cheia de vento, ou de gases, como queiram.
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MENALTON BRAFF
EM 08/02/2010 ÀS 05:05 PM
Somos um povo sonhador. Estamos sempre sonhando com algum milagre, com algum “meu tio da América”, como no filme de Alain Resnais. E isso vem de muito longe, de muito antes de 1385, quando cada português pensou que merecia pelo menos um marquesado.
Meu compadre Adamastor, o gigante mais bem informado a respeito de sonhos, afirmou outro dia ser herança do cristianismo. Desde cedo, dizia ele, estamos ouvindo frases feitas e bonitas, muito feitas e ainda mais bonitas, histórias exemplares, hagiografias, enfim, toda sorte de textos de nossa formação cristã e ocidental, que nos induzem a estar sempre à espera de um milagre. Ah, os milagres! Que mal fizeram a esta humanidade portuguesa e brasileira! Quem espera sempre alcança, a esperança é a última que morre e outras frases reforçando nossa crença de que algo além de nossa força e de nosso esforço vai acontecer dando solução a nossos problemas. Quantas e quantas vezes “quem espera” não alcança nada, pois esperando não sai do lugar! E a esperança pode ser verde, mas murcha e seca e morre, contrariando o ditado popular.
Não duvido de meu compadre, mas me lembro daquele rei D. João I, de Portugal, o Mestre de Avis, que, depois de 1385, levantado o cerco de Lisboa, danou-se a conceder títulos de marquês, conde, visconde a antigos mesteirais (barbeiros, tanoeiros, celeiros e tantos outros eiros). Desde então, nós, mais ou menos portugueses, e plebeus, estamos sempre à espera de algum rei que nos conceda um feudo, com castelo, gado, plantações e servos. Em suma, esperamos um milagre.
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EBERTH VÊNCIO
EM 08/02/2010 ÀS 04:46 PM
Quando o Alcebíades levantou a camisa, mostrando os arranhões na barriga, exibindo-os como se fosse um salvo conduto, um troféu, a cabeça de um alce ou rinoceronte, eu fiquei mais que desentendido.
“— Mas, Alcebíades, rapaz, você é um juiz de Direito da maior envergadura... Como é que pode uma coisa destas?!”, arrisquei.
Pois foi assim mesmo que aconteceu. O Alcebíades, amigo de infância, ou melhor, um colega nos longínquos tempos de escola (“diz-me com quem tu andas e direi quem tu és...”, ameaça o texto bíblico), sempre fora uma pessoa esquentada, um encrenqueiro, um adolescente assíduo nas diretorias das várias escolas particulares pelas quais peregrinou durante a sua carreira estudantil. Apesar da longa jornada, do esforço financeiro dos pais (leia-se “dar tudo que o dinheiro possa comprar”), do empenho de professores, e dos hematomas pelo corpo, ele nunca aprendeu a perder.
“— Não aguentei: catei ela pelos cabelos, abri a porta e a atirei pra fora de casa, no hall do apartamento!”. Fiquei só imaginando a foto do Alcebíades nos jornais, tentando se livrar da acusação de violência doméstica, encarando os rigores da Lei Maria da Penha, concebida para proteger mulheres de valentões como o meu amigo, ou melhor, ex-colega, o hoje juiz Alcebíades, freqüentador assíduo da maçonaria e das colunas sociais.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 05/02/2010 ÀS 09:57 AM
Os estudiosos normalmente usam como classificador do estágio social humano a matéria prima básica da ferramenta de cada período. A saga do homem moderno começa com o desenvolvimento de objetos a partir da pedra. No seu primeiro momento, Lascada; e depois, Polida. É claro que paralelamente ao uso da pedra usava-se a madeira, o osso, a pele, a pluma, a lã, a argila, o fogo. Mas o que conta é o material da ferramenta-base e predominante que era feita de pedra. Na Idade da Pedra Polida, nossos ancestrais implementaram importantes contribuições ao processo civilizatório: a domesticação de animais, a agricultura e os primeiros assentamentos humanos, constituindo-se cidades incipientes. Lembrando que a primeira cidade murada foi Jericó, no vale do Jordão. Mas os muros eram tão fraquinhos que os invasores os derrubaram a toque de trombetas. A roda bem que poderia ter surgido num dos períodos da Pedra, mas não há nenhum achado arqueológico que possa comprová-lo.
Seguiu-se a Idade do Cobre, mineral supostamente descoberto pelos oleiros sumérios — povos que habitavam uma região onde hoje fica o Iraque. A mais antiga ferramenta desse material descoberta pelos arqueólogos foi um martelo. Mas, rapidamente, (cerca de 3500 anos depois) foi adicionado, por acaso, o estanho ao cobre e deu origem à Idade do Bronze. Essa liga melhorou consideravelmente as ferramentas de então, por ser mais maleável do que o cobre enquanto aquecida e ter uma dureza maior quando em temperatura ambiente. Armaduras, espadas, escudos, aldravas e grilhões são descobertas desse período. Veio depois a idade do ferro, com grande impulso à agricultura, à caça, à pesca e à arte da guerra. O Império Romano dominou plenamente o ferro e tratou a ferro e fogo as regiões conquistadas. Os Templos de Davi e Salomão foram erigidos na Idade do Ferro, mas usaram basicamente pedra, madeira e cobre trabalhados pelos artesões de Tiro, — um império antigo situado onde hoje fica o Líbano.
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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 04/02/2010 ÀS 04:45 PM
O romance “O Mestre e Margarida” (Alfaguara, 456 páginas), do escritor, dramaturgo e libretista ucraniano Mikhail Bulgákov, ganha sua primeira tradução patropi direta do russo — um trabalho de mestre de Zoia Prestes. A versão anterior (Nova Fronteira/Abril Cultural), a partir do inglês, é de Mário Salviano Silva. Neste texto, falo mais da tragédia do autor, narrada no excelente “O Diabo Solto em Moscou — A Vida do Senhor Bulgákov” (Edusp, 582 páginas), de Homero Freitas de Andrade. Há também traduções de contos e novelas a partir do original russo.
Bulgákov, que cedo trocou a medicina pela literatura e pelo teatro, morreu em 1940, com quase 49 anos, de complicações renais. Muito possivelmente, seu quadro agravou-se devido às pressões do regime stalinista, que o proibira de publicar livros e trabalhar com o teatro. “A partir de 1926, não conseguiu publicar nenhuma das suas obras de ficção, nem mesmo as que mais prezava”, conta Boris Schnaiderman. Sua obra só foi publicada integralmente depois da glasnost de Mikhail Gorbachev. Porque Bulgákov não aceitou o cabresto do stalinismo. Curiosamente, sua prosa era lida e apreciada por Stálin. Uma vez, em desespero, escreveu uma longa carta para o ditador pedindo emprego, pois os teatros e as editoras o censuravam e o vetavam. Stálin ligou para Bulgákov e disse: “Nós recebemos sua carta. Li com os camaradas. O sr. vai obter uma resposta favorável... Será que realmente devemos deixá-lo partir para o estrangeiro? Nós o aborrecemos tanto assim?”. Desconcertado, o escritor respondeu: “Pensei muito nos últimos tempos se um escritor russo poderia viver fora de sua terra. E me parece que não”. Conseguiu emprego num teatro, mas ficou sob vigilância expressa.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 04/02/2010 ÀS 03:05 PM
(O diálogo abaixo é obra de ficção e qualquer semelhança com pessoas ou situações será mera provocação)
Num domingo ensolarado, dois amigos vão ao estádio. Ênio, sabendo que Flávio deixara de torcer pelo Flamengo desde que esse time garfara a Copa do Brasil de 1990 do Goiás de forma indescritivelmente descarada, convence finalmente o amigo ranzinza e teimoso a assistir a uma partida de futebol. Ênio tinha uma teoria. Para ele, Flávio mentia pra si próprio. Ênio apostava que, novamente diante de seu time de coração, e no meio da torcida, Flávio se trairia.
— Eu não acredito que você deixou de torcer pelo Flamengo.
— E pelo Goiás também.
— Também?! Mas sua birra com o Mengo não é justamente porque ele garfou a Copa do Brasil do Goiás?
— Isso em 90. Em 97 o Goiás entregou o jogo pro Corinthians, que estava prestes a cair pra segundona, em pleno Serra Dourada. Foi quando meus olhos se abriram de uma vez por todas, e inclui “campeonato de futebol honesto” na mesma categoria de “Coelho da Páscoa” e “Papai Noel”.
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RENAN ALVES MELO
EM 04/02/2010 ÀS 02:44 PM
Já faz um bom tempo que alimento a vontade desse texto e seu jeito de desabafo. E foram as recentes e severas críticas ao novo musical de Rob Marshall que transformaram a vontade em realização. Sim. Estou carregando suas dores para casa e pretendo respondê-las todas. A verdade é que se instalou no imaginário daqueles que se dizem cinéfilos, como grande injustiça o que fizeram com “Moulin Rouge” no Oscar de 2002, ignorando o filme para os grandes prêmios. De fato, houve injustiça, mas na indicação do filme a tantas categorias. “Moulin Rouge” nunca foi essa “última Coca-Cola do deserto”. Nunca. Um filme longo demais, câmera nervosa demais, misto de tentativa de graça e desgraça que não funciona e não combina com a atuação despreparada de Nicole Kidman. Ou aquele jeito ofegante só irritou a mim?
É quando, no ano seguinte, surge “Chicago”, o melhor musical até 2009. Um filme extremamente peculiar, um musical bem pensado, onde cada cena está lá porque deve estar, e não para adaptar a música de um artista famoso a trama. O que Marshall faz em “Chicago” é primoroso e digno de se angariar como melhor filme do ano sim. Ele nos mostrou uma forma ousada e criativa de fazer um musical, dispensando aqueles momentos constrangedores em que a personagem principal, de repente, canta “Bom dia!”. Edição excelente, fotografia incrível e direção presente. E as atuações? Meu Deus, o que é aquilo que Catherine e Renée fazem? Espetaculares e dignas de reconhecimento. O Musical.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 02/02/2010 ÀS 01:56 PM
Estou internado em minha biblioteca, disposto a terminar coisas que estão pela metade, mas, como não deixei de ler jornais (acabo de sair de um auto-ostracismo, há pouco tempo voltei a assinar jornais), infelizmente tenho conhecimento de notícias escabrosas que me fazem aumentar o crescente desgosto com o ser humano.
Sou um ex-esquerdista. Já acreditei no socialismo. Não mais. E não por causa da queda do muro de Berlim. Meu desgosto é mais recente, vem do primeiro governo Lula. À época, cheguei a pensar em me filiar ao PT, mas fui demovido da idéia por um professor que é uma mãe e que usou a mesma tática que meu pai, quando eu, criança, lhe pedi que me matriculasse num curso de violino: “Espere um pouco, daqui a uns seis meses, se você ainda quiser, eu te matriculo.” Claro, meu pai sabia que minha intenção não duraria nem dois, quanto mais seis. Dito e feito. A história da música perdeu a oportunidade de ter o embaraçoso verbete “pior violinista do mundo”.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 01/02/2010 ÀS 11:12 AM
Twitter e Soneto apresentam algumas coincidências que vão muito além da aparência inicial: ambos são substantivos paroxítonos que definem um modo formal de exposição do discurso e são dotados de três sílabas gramaticais ou duas sílabas métricas.
Soneto é uma composição poética megavelha, vetusta mesmo. Segundo os “paleontólogos literários”, essa forma poética teve início na idade média, ali pelo final do século 12, início do 13. A autoria do primeiro soneto é controvertida e se divide entre três poetas sicilianos. O termo Soneto vem do provençal (o idioma dos trovadores medievais) sonet, que quer dizer som, melodia, canção. Em pouco tempo virou coqueluche e se tornou a forma preferida dos poetas. Encantou Dante, Petrarca, Camões e Shakespeare. O nosso sonetista mais notável foi certamente Olavo Bilac, aquele do “Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o censo e eu vos direi no entanto”... Drummond escreveu sonetos, Bandeira Escreveu Sonetos, Gullar escreveu pelo menos um, que eu sei. O Twitter, como o Soneto, vem de uma referência ao som. Derivou da palavra homófona Tweeter (que se escreve diferente mas tem o mesmo som), que quer dizer caixa minúscula de sons agudos, de alta frequência (acima de 5000 Hz). Portanto, Twitter é, como o soneto, uma forma de comunicação, só que ultramoderna. Trata-se de uma rede de comunicação em que os assuntos da hora são tricotados entre os usuários em tempo real. Mas sua semelhança convicta com o Soneto, além das que já mencionamos, está no seu aspecto formal. O soneto, de ordinário, comporta no máximo 140 sílabas poéticas. Igualmente, o Twitter comporta no máximo 140 caracteres. É muita coincidência, não?
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