Desde seu lançamento em 1978, “Halloween” foi consagrado como um marco do cinema de terror, estabelecendo as bases para o subgênero slasher e imortalizando Michael Myers como um dos vilões mais emblemáticos do horror. Sob a direção visionária de John Carpenter e a produção de Debra Hill, o filme original destacou-se pela sua construção meticulosa de suspense e atmosfera opressiva. Entretanto, a longevidade da franquia se revelou um desafio narrativo, resultando em sequências de qualidade desigual. “Halloween Ends”, ao prometer um encerramento definitivo, se lança em uma abordagem ousada, provocando tanto admiração quanto frustração entre os espectadores.
Diferente das convenções estabelecidas, “Halloween Ends” busca transcender a violência habitual da série para explorar os desdobramentos psicológicos do trauma coletivo. Em vez de focar exclusivamente no confronto entre Laurie Strode e Michael Myers, o filme amplia sua perspectiva, investigando como a comunidade de Haddonfield se tornou refém do medo e da necessidade de encontrar culpados. Essa abordagem, embora teoricamente rica, resulta em uma narrativa fragmentada que oscila entre a inovação e a dispersão temática. O roteiro, ao abraçar múltiplas ideias, por vezes compromete sua coesão, sobrecarregando a trama com elementos que nem sempre se desenvolvem de maneira orgânica.
A ausência proeminente de Michael Myers ao longo do filme é um dos pontos mais polêmicos. Sendo esta a conclusão de uma saga centrada no infame assassino, sua presença reduzida pode ser interpretada como uma decisão contraproducente, diluindo o impacto da narrativa principal. Em contrapartida, Laurie Strode, vivida com intensidade e profundidade por Jamie Lee Curtis, continua sendo o elemento mais consistente da história. Sua evolução, marcada por cicatrizes emocionais e uma busca incessante por redenção, confere às cenas uma carga dramática autêntica. Por outro lado, a personagem Allyson, interpretada por Andi Matichak, não alcança o mesmo grau de impacto, sendo prejudicada por um desenvolvimento superficial que se inclina a clichês juvenis.
A trilha sonora, assinada por John Carpenter, Cody Carpenter e Daniel Davies, é um dos pontos altos da produção. As composições resgatam elementos icônicos da saga enquanto introduzem novos arranjos que ampliam a sensação de angústia e suspense. A cinematografia também merece destaque, utilizando jogos de luz e sombras de forma magistral para reforçar o clima de paranoia e decadência que assombra Haddonfield. Contudo, a brutalidade gráfica de algumas cenas pode soar excessiva, remetendo a um horror que privilegia o choque imediato em detrimento da construção gradual do terror.
Apesar de sua ambição em redefinir os paradigmas da franquia, “Halloween Ends” tropeça na execução de suas ideias. O ato final, embora carregado de tensão, se apresenta apressado e permeado por resoluções que enfraquecem o impacto da conclusão. A tentativa de oferecer um subtexto social pode ser interpretada de maneiras ambíguas, levantando questionamentos sobre sua real intenção dentro do contexto narrativo.
No balanço geral, “Halloween Ends” é uma experiência divisiva: por um lado, sua ousadia em fugir do convencional merece reconhecimento; por outro, suas falhas estruturais comprometem a satisfação plena dos fãs que ansiavam por um desfecho catártico. Seu legado, portanto, será medido não apenas pelo impacto imediato, mas pela forma como será lembrado dentro do vasto universo do terror cinematográfico.
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