Esquerda esporte clube
(O diálogo abaixo é obra de ficção e qualquer semelhança com pessoas ou situações será mera provocação)
Num domingo ensolarado, dois amigos vão ao estádio. Ênio, sabendo que Flávio deixara de torcer pelo Flamengo desde que esse time garfara a Copa do Brasil de 1990 do Goiás de forma indescritivelmente descarada, convence finalmente o amigo ranzinza e teimoso a assistir a uma partida de futebol. Ênio tinha uma teoria. Para ele, Flávio mentia pra si próprio. Ênio apostava que, novamente diante de seu time de coração, e no meio da torcida, Flávio se trairia.
— Eu não acredito que você deixou de torcer pelo Flamengo.
— E pelo Goiás também.
— Também?! Mas sua birra com o Mengo não é justamente porque ele garfou a Copa do Brasil do Goiás?
— Isso em 90. Em 97 o Goiás entregou o jogo pro Corinthians, que estava prestes a cair pra segundona, em pleno Serra Dourada. Foi quando meus olhos se abriram de uma vez por todas, e inclui “campeonato de futebol honesto” na mesma categoria de “Coelho da Páscoa” e “Papai Noel”.
— Eu não consigo acreditar que o cara que sabia o hino do Mengão de cor deixou de torcer. Não existe isso... ex-torcedor.
— Existe. Eu. E quem mais tiver vergonha na cara.
— Epa! Calma lá!
Corta pro estádio. Gol do Flamengo contra o Vasco. De mão e impedido. Mas o juiz valida o gol.
— O que foi? Não vai comemorar? – decepciona-se Ênio.
— Cê tá brincando?
— Quê?!
— Foi de mão. E tava impedido.
— Mas e daí, o juiz validou, não validou?
— Não importa. Foi de mão e tava impedido. E a não ser que tenham mudado as regras desde a última vez que fui a um estádio, é desonesto, a despeito da decisão de um juiz que sabe lá o que ganha com isso.
Corta pra cinco minutos depois. Gol do Vasco. De mão e impedido.
— Ladrão! Safado! Fedaputa! — Ênio se altera em uníssono com a Organizada, que ainda despeja um rico vocabulário até então desconhecido para Flávio em cima do juiz, assim como copos de cerveja com a conseqüência desta na direção dele (que nunca alcançavam o alvo, só chegando até a Geral, pra divertimento de uns e emputecimento de outros).
— Mas por que você está tão alterado?
— Como assim?! Você não viu?
— O quê?
— Gol de mão. E ainda por cima impedido... Na cara do juiz!
— Vi.
— Então?!? – Ênio se exaspera e ao mesmo tempo se preocupa com a integridade de seu amigo, pois a essa altura a torcida do Flamengo já se dava conta que havia um estranho entre eles.
— Então tá errado. O juiz tá errado. Da mesma forma que quando validou o gol do Flamengo.
— Não é a mesma coisa.
— Por quê?
— Porque o Mengo é o Mengo, ora!
— Sei. E o Vasco é o Vasco. E a regra é a regra.
Nesse momento, três espécimes da torcida organizada que promoviam um campeonato de arroto entre eles interrompem o estéril diálogo:
— Ô cidadão! Tu tá torcendo pro bacalhau aqui no meio da urubuzada, é?!
— Na verdade não. Eu não torço pra time nenhum.
— Cumé que é!? - as palavras são entremeadas por arrotos de forma artisticamente simétrica, o que faz os três gargalharem e se distraírem por alguns segundos.
Ênio pega Flávio pelo braço e o arranca dali. Pelo rádio, a caminho de casa, ainda ouvem o Flamengo fazer mais um gol, que, de acordo com o comentarista, tinha sido fruto de uma banheira escandalosa do Adriano. O juiz validou.
— Nem um pio — ordena Ênio. E Flávio, por ora, obedece.















