O arroto e a flatulência no aquecimento global (Final)

Com as denúncias sobre a grande fraude, haverá mesmo, nessa pendenga do aquecimento, algo de podre para além do reino da Dinamarca, só que num sentido oposto ao que se pensa ou antes se pensava? Para o leigo, perdido na Torre de Babel, a coisa vai ficando meio confusa, brumosa, como se fosse uma cortina de fumaça — intencional, alguma “jogada” para confundir a opinião pública? —, e vai daí que ele fica por aqui feito um capiau — sem conotação pejorativa, mas no sentido de gente simples — cujo rio secou; o capiau agora sem a vara de pescar, pois já não há peixe nenhum. Tem água em que não se fisga sequer um girino, embrião de sapo, quanto mais um lambarizinho. Eu mesmo, que lambari logro pescar aqui com estas elucubrações sobre flatulência e aquecimento global? Se muito do que se diz de importante para a humanidade entra por um ouvido e sai pelo outro, fica-se o dito por não-dito; e por onde será, então, que ele se enfia? Deixe-me ver se advinho...
Enquasnto isso, reflita-se sobre as palavras de Adolfo Pérez Esquivel, ativista político e Nobel da Paz argentino, que defende a tipificação dos crimes ambientais como ofensas contra a humanidade, e que estes sejam julgados na Corte de Haia. “Todos os que, de alguma forma, ameaçam a vida dos bilhões de habitantes da terra, precisam ser punidos”, ressalta Esquivel. Tipificação dos crimes? Se, por outro lado, aqui no Brasil, tipificarem a corrupção como crime hediondo, conforme se propõe para este ano, já estará de bom tamanho, penhoradamente agradeceremos, pois certamente teremos um país mais arejado para respirar, menos poluído pelo rombos ou roubos praticados pelos descarados políticos, com alguma ajuda da incompreensível e absurda justiça brasileira.
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Na sangrenta realidade do país, amontoam-se os corpos de menores assassinados, de uma forma ou de outra. São meninos e quase meninos ainda, longe dos lares, da escola e do sadio lazer que lhes é devido. São os meninos do Brasil. E como lhes será o ano de 2010? Será apenas mais um Ano da Copa? Ou mais um ano eleitoral que nada lhes dá? Mais um ano negro, que lhes rouba a infância, e com ela a vida e o futuro?
Foi assim o primeiro dia de 2010, passados os momentos de euforia da contagem regressiva e da virada do ano. Janeiro se inicia. Cadê todo mundo?, podia-se perguntar naquele primeiro dia do ano, como num conto de Reymond Carver, contido no livro “Iniciantes”, que se recomenda e se encontra nas livrarias. Com a virada do ano, veio a virada das águas. Tempo chuvoso, dia sombrio, cidade vazia, silêncio. Salvo umas sobras babacas de foguetes, peidando o dia inteiro e apavorando os pobres cachorros de todo mundo, cujo sistema auditivo não suporta estouros de bomba, cães havendo que até sofrem parada cardíaca e morrem. No mais, naquele dia, nem buzinas, nem risos, nem relinchos, seres humanos havendo que relincham ao invés de rir. Uma gente quadrúpede, se estão me entendendo, oriunda dos estábulos nas trevas da ignorância, bufando e escoiceando com a sua peculiar estupidez. Pois é com algumas pessoas assim, em meio às de melhor qualidade, que vamos atravessar 2010. Se me dizem que ninguém é melhor do que ninguém, ouso exibir meu sorriso de desdém. Por outro lado, sustento que, malgrado as diferenças, todos os homens se igualam no vaso sanitário e no caixão. A convulsão dos elementos. Toda a água do mundo. Um céu cinzento, cambiante a negro. Mortes no Rio. Ilha Grande. Angra dos Reis. Morro da Carioca. Morro abaixo às toneladas. A terra e as pedras da destruição. Com água e tudo. Quebra, fragmentação, soterramento. Casas, vidas e utensílios. Moradores e turistas. Jovens, adultos, idosos, crianças. Todos. Funesto “Réveillon”. Um dia muito triste. Um desses que parece mesmo sem Deus. A ausência Dele. E uma dor que perdura, tão dura de suportar quanto o peso da terra e das rochas morro abaixo. O primeiro dia do novo ano. Parido com muita dor, pela hora da morte, sob o manto negro da noite. Um dia que, aceso pelos fogos, haveria de vir luminoso como o sol que seria de trazer para toda a humanidade. Mas não foi assim que ele veio, como assim não foi que ele chegou.
Bem que este 2009 poderia ter sido melhor para o povo brasileiro, mas não foi, infelizmente, e muito por conta do descarado, cínico e vergonhoso processo de corrupção em vigor no País, onde as flagrantes e contundentes imagens não falam por si, não dizem nada e, logo, não valem nada, pois não provam coisa nenhuma. Sábias palavras, se aqui não nos censuram o gostinho da ironia. Convenhamos que é preciso ter “coragem” para, sem nenhum rubor nas faces, afirmar isso aos olhos e ouvidos do mundo, negar o fato concreto que cai como um bloco de cimento em cima do povo, enquanto as manchetes da imprensa local e internacional estampam os fatos incontestáveis, repercutindo a sordidez da política brasileira. É fatal: se alguém é denunciado, logo vem com ameaças: se ele cair, outros cairão com ele. E sempre funciona, pois a sujeira é de longo alcance: a falcatrua então se encaminha para o pazzaiolo, cuide ele do serviço sujo da “limpeza”. A quebra da ética com a coisa pública, com efeito, varou o ano inteiro e chega neste dezembro como um indesejado presente, ou melhor, um abominável pacote de sujeira, lama, descaramento de homens públicos e, o que é pior, quase sempre com a pizza da impunidade e da galhofa, fazendo pouco até da justiça, zombando do cidadão, do eleitor, do contribuinte, do patriota abalado em seu sentimento pátrio. Haja vista o gozo, a cópula de crápulas da cúpula ao cúmulo de se orar agradecendo a Deus pelos frutos do roubo. Vale aqui o velho bordão: que país é esse? E que homens são esses? A que ponto chegou a cretinice neste macunaímico Brasil! O mau-caratismo grassa a granel, enfiando dinheiro sujo na mala, na bolsa, na cueca, nas meias e sabe-se lá onde mais ele se enfia, não raro com as brechas das leis, com o mexer dos pauzinhos, com o safado “jeitinho brasileiro”, até com alguma conivência ou conveniência de setores dos poderes constituídos.
Nos idos de 2003, a indústria automobilística Voltswatt lançou um concurso nacional de contos, com o tema "Meu Caso com a Volts", em busca de histórias incríveis, envolvendo veículos seus. Dizia que há sempre um caso interessante, original e inusitado, tendo como personagem um modelo Voltswatt, e a indústria queria conhecer a história de cada concorrente, a saber como os carros da marca interagiam com a vida da pessoa, no caso a protagonista do fato. E o fato poderia ser dramático, divertido, místico, familiar, sentimental ou profissional. Valia tudo, desde que verídico e narrado com talento literário, no limite entre vinte e quarenta linhas de texto.
Olhos acesos e afoitos e aflitos, como se perdidos na noite, são faróis de veículos diversos, indo — para onde? — e vindo — para quê? Para a demanda que há entre viver e morrer. Vaga-lumes nos calcanhares, os tênis iluminados dos meninos, com o pai e a mãe no bar da esquina. Os casais nas mesas, alguns aos beijos, outros falando mal de seus pais e parentes. As línguas feito víboras, difamando a família, botando o dedo na ferida dos defeitos, expondo em público a roupa suja da privacidade doméstica, depreciando a mobília, “ripando a lenha” nos amigos, porque isso, porque aquilo, de fulano e de fulana. Falando e falando, reclamando do churrasco que não deu certo no sábado, comentando os arranjos de samambaias na sacada do apartamento, lamentando pelo lindo par de sandálias que se deixou de comprar no shopping e se arrependeu. Essa gente corriqueira, com o trivial de sempre. Essas vidinhas previsíveis, com as futilidades da existência.
O morto rico, bem-vestido num caixão dourado; os olhos vítreos, mal-fechados para o mundo. O funeral, o velório, o pranto, tudo televisado, na sala da consternação. Todos ali muito consternados, e tudo documentado, porquanto bem-conceituado o estimado cidadão. A viúva Hipólita, fingida — choraminfungando-se desatenta, senão que se fazendo de esquecida de toda a gente à sua volta —, ajeita a gravata do Abelardo, seu morto marido, pega o estereótipo do bordão social e paga o mico ao que lhe vai dizendo: Sorria, querido; você está sendo filmado, amor da minha vida.
Para Nicolas Behr
Eventos Pastelaria. Saborosos pastéis de vento e sopro, fritos na hora. Entre, prove, confira. Sinta no rosto o bafor ao sabor do nada dentro do pastel empapuçado. Mas então o nada não é o vento que há lá dentro? Opa! Ó paí ó! Não é este o assunto. Afasta de mim o homem do megafone, apregoando pastel de vento. Sai do meio, recheio! 