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EDIVAL LOURENÇO
EM 15/03/2010 ÀS 11:37 AM
Sem muita certeza eu arriscaria a afirmar que as maiores necessidades humanas são a manutenção de sua integridade biológica, a geração de descendentes e a redução, se possível a zero, das incertezas. Assim nesta ordem. Aliás, o instinto de manutenção parece ser uma pulsão que permeia a toda a natureza.
Spinoza intuiu que uma pedra quer ser uma pedra, um rio quer ser um rio, uma árvore quer ser uma árvore, um vírus quer ser um vírus, uma barata quer ser uma barata, um canário quer ser um canário, um crocodilo quer ser um crocodilo, um jumento quer ser um jumento, um homo sapiens quer ser hum homo sapiens, embora este último, em sua complexidade neural, às vezes vacile: às vezes quer ser um deus, às vezes quer ser um verme. Mas são apenas exceções que confirmam a regra. Cada ser quer ser a si mesmo e ponto final. Isso a todos compraz.
Por falar em regra e que toda regra tem exceção; e tem mesmo, inclusive esta. E a exceção da exceção da regra é que todo ser vivo morrerá um dia, muito antes do que se possa esperar. É uma regra absoluta. Mas esta gostaríamos de relativizar, de estabelecer exceções. E assim a maioria de nós vive numa perspectiva ilusória e ao mesmo tempo iludida de que vamos viver para sempre. Quando não por nós mesmos, mas pelo menos por meio das gerações, dos genes que vamos como uns danados atirando futuro afora.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 03/03/2010 ÀS 12:07 PM
Certas pessoas que ouço dizem que já não aguentam mais as infinitas correntes de mensagens, da mais fina sabedoria de para-choque de caminhão, que circulam pela internet. No entanto, elas não param de circular, cada vez em torrentes mais acachapantes. São em geral textos adornados por músicas new age ou outro estilo que o autor julga capaz de comover seus destinatários. Tudo muito bem desenhado, animado, colorido, compondo uma obra de mau gosto sem tamanho, mas esteticamente ofuscante para os menos avisados, de tal sorte que não conseguem se desvencilhar dessas armadilhas para alcançarem leituras que realmente importam.
Parece que os autores das benditas mensagens não confiam em si mesmos, como emissores de tais sapiências. São dotados de uma cabotinice às avessas e atribuem suas sabedorias a nomes amplamente consagrados. Os alvos dessas atribuições são em geral escritores do porte de Shakespeare, Jorge Luís Borges, Camões, Vitor Hugo, Carlos Drummond de Andrade e até alguns menos aventados como Luiz Fernando Veríssimo e Mário Quintana. O pior de tudo é que há muita gente boa que nem suspeita dessas bobagens, daí advém o seu sucesso. Vi recentemente até um professor universitário (de presumida distinção) recitar um texto como sendo de Borges. O texto era tão meloso e tão bobinho que eu tenho comigo que Borges não o assinaria nem sob tortura do regime do General Jorge Rafael Videla. Mas é como disse o maior sábio da antiguidade, o rei Salomão, em seu livro Eclesiastes: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer: de modo que nada novo há debaixo do sol”. E parece que, pelo menos sob os aspectos mais conotativos, não há mesmo nada genuinamente novo debaixo do sol. O próprio texto do Eclesiastes, de onde retiramos esta citação, não passa de uma atribuição sete séculos depois de morto, ao mais afamado rei de Israel, aquele que tinha em seu plantel feminino 300 esposas, 700 concubinas, e ainda teve inspiração para escrever Cantares, um dos mais belos poemas de amor, à pastora Sulamita, com quem se encontrava casualmente nos pastoreios, sobre o feno dos prados.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 22/02/2010 ÀS 02:43 PM
Talvez a fé seja um efeito colateral da razão e o delírio um efeito colateral do conhecimento. Quando não sejam efeitos colaterais, pelo menos partes compensatórias. Como alguém que sendo reconhecidamente belo, rico e inteligente, em compensação seja portador de um mau hálito sem remédio.
A consciência foi o modo pelo qual a natureza, por meio do processo evolutivo, encontrou para se ver, para buscar o seu entendimento, para se decifrar a si mesma. O portador desta faculdade, o Homo Sapiens, somos eu, você, o doidinho da carrocinha, o papa, o magnata do petróleo ou da informática, a top model que faz de seu passo de ganso a sua razão de viver, o barnabé que faz escrever num papel chamex grudado na parede advertindo tratar-se de autoridade e que zoar com ele pode dar encrenca. Todos nós que somos parte desta rica e tão ridícula fauna.
Os outros seres vivos se dão por contentes em simplesmente viver. Nós, além de viver, queremos transcender. E, nessa ânsia pelo transcendente, temos, ao longo de nossa saga, edificado monumentos substanciais ao delírio. Em nome da transcendência foi que os faraós egípcios escravizaram seu povo e povos vizinhos, gerações após gerações, para erguerem suas tumbas piramidais. Cada qual mais ampla e fenomenal. Antes das pirâmides e depois delas, a História tem sido tracionada muito mais pelos delírios humanos do que mesmo pela nossa propalada razão. Temos a superstição de que somos predestinados a conquistar a Terra, comer a fruta e chupar a caroço, aprontar um regaço e fazer um oco, e ainda saltar fora como a borboleta cintilante com seus vidrilhos e lantejoulas, deixando para trás a pupa gosmenta e repugnante.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 05/02/2010 ÀS 09:57 AM
Os estudiosos normalmente usam como classificador do estágio social humano a matéria prima básica da ferramenta de cada período. A saga do homem moderno começa com o desenvolvimento de objetos a partir da pedra. No seu primeiro momento, Lascada; e depois, Polida. É claro que paralelamente ao uso da pedra usava-se a madeira, o osso, a pele, a pluma, a lã, a argila, o fogo. Mas o que conta é o material da ferramenta-base e predominante que era feita de pedra. Na Idade da Pedra Polida, nossos ancestrais implementaram importantes contribuições ao processo civilizatório: a domesticação de animais, a agricultura e os primeiros assentamentos humanos, constituindo-se cidades incipientes. Lembrando que a primeira cidade murada foi Jericó, no vale do Jordão. Mas os muros eram tão fraquinhos que os invasores os derrubaram a toque de trombetas. A roda bem que poderia ter surgido num dos períodos da Pedra, mas não há nenhum achado arqueológico que possa comprová-lo.
Seguiu-se a Idade do Cobre, mineral supostamente descoberto pelos oleiros sumérios — povos que habitavam uma região onde hoje fica o Iraque. A mais antiga ferramenta desse material descoberta pelos arqueólogos foi um martelo. Mas, rapidamente, (cerca de 3500 anos depois) foi adicionado, por acaso, o estanho ao cobre e deu origem à Idade do Bronze. Essa liga melhorou consideravelmente as ferramentas de então, por ser mais maleável do que o cobre enquanto aquecida e ter uma dureza maior quando em temperatura ambiente. Armaduras, espadas, escudos, aldravas e grilhões são descobertas desse período. Veio depois a idade do ferro, com grande impulso à agricultura, à caça, à pesca e à arte da guerra. O Império Romano dominou plenamente o ferro e tratou a ferro e fogo as regiões conquistadas. Os Templos de Davi e Salomão foram erigidos na Idade do Ferro, mas usaram basicamente pedra, madeira e cobre trabalhados pelos artesões de Tiro, — um império antigo situado onde hoje fica o Líbano.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 01/02/2010 ÀS 11:12 AM
Twitter e Soneto apresentam algumas coincidências que vão muito além da aparência inicial: ambos são substantivos paroxítonos que definem um modo formal de exposição do discurso e são dotados de três sílabas gramaticais ou duas sílabas métricas.
Soneto é uma composição poética megavelha, vetusta mesmo. Segundo os “paleontólogos literários”, essa forma poética teve início na idade média, ali pelo final do século 12, início do 13. A autoria do primeiro soneto é controvertida e se divide entre três poetas sicilianos. O termo Soneto vem do provençal (o idioma dos trovadores medievais) sonet, que quer dizer som, melodia, canção. Em pouco tempo virou coqueluche e se tornou a forma preferida dos poetas. Encantou Dante, Petrarca, Camões e Shakespeare. O nosso sonetista mais notável foi certamente Olavo Bilac, aquele do “Ora, direis, ouvir estrelas, certo perdeste o censo e eu vos direi no entanto”... Drummond escreveu sonetos, Bandeira Escreveu Sonetos, Gullar escreveu pelo menos um, que eu sei. O Twitter, como o Soneto, vem de uma referência ao som. Derivou da palavra homófona Tweeter (que se escreve diferente mas tem o mesmo som), que quer dizer caixa minúscula de sons agudos, de alta frequência (acima de 5000 Hz). Portanto, Twitter é, como o soneto, uma forma de comunicação, só que ultramoderna. Trata-se de uma rede de comunicação em que os assuntos da hora são tricotados entre os usuários em tempo real. Mas sua semelhança convicta com o Soneto, além das que já mencionamos, está no seu aspecto formal. O soneto, de ordinário, comporta no máximo 140 sílabas poéticas. Igualmente, o Twitter comporta no máximo 140 caracteres. É muita coincidência, não?
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EDIVAL LOURENÇO
EM 24/01/2010 ÀS 07:20 PM
De quando em quando, sem prévia agenda, acontece naquela cidade estranha de um país remoto, um evento que causa muita dor, morte e comoção a boa parte de seus habitantes.
Ao nordeste, existe um morro um tanto sinistro, que pode ser avistado de qualquer ponto do município. Em sua metade superior tem uma caverna medonha, com a cloaca voltada para a cidade. E aquela pantagruélica fissura, pelo menos uma vez em cada geração, arrota um fogo pestilento capaz de chamuscar tudo e todos que se acharem pela frente.
Há uma crença firmada que vem dos antigos. Aquela caverna seria a morada de um dragão remanescente de um tempo em que o mundo era habitado por animais fantásticos e homens gigantes. Aquele exemplar feroz teria sido poupado por Deus por ocasião de seu extermínio para cumprir uma tarefa específica: eliminar gente de porção, toda vez que Deus tivesse uma necessidade urgente de ampliar seu rebanho no céu. Em troca, a terra calcinada pelo seu hálito ficaria mais salubre, fértil e produtiva. Morrer queimado pelas chamas do morro passou a ser o sonho de consumo de muita gente, pois se a vida aqui não estava lá essas coisas, a morte pelas chamas era garantia prévia de ser escalado para adentrar os fechos pecuários do Divino Pai Eterno, sem conversão ou muito esforço pessoal.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 16/01/2010 ÀS 11:23 AM
Não seria temerário dizer que toda geração tem uma percepção extremista de si mesma. Nos momentos de euforia pensa que se encontra no ápice do progresso, ou de um processo evolutivo, a ponto de se convencer que as novas gerações não darão conta de manter a peteca no ar. Nos momentos de depressão, pensa que se vive o instante mais turbulento da história, que o operador do apocalipse já se acha no exercício de suas funções e as tribulações divinas já vão é bem adiantadas.
Falo aqui de um sentimento médio, de uma geração média, tomando de empréstimo o conceito de homem médio da filosofia do direito, que é aquela pessoa que não é nem tosca demais, nem refinada demais, para quem o direito é objetivado em forma de leis.
Vale ainda um reparo sobre a noção de progresso, que foi muito mais ressaltada a partir da primeira revolução industrial, no século 18, quando os usos, costumes, conceitos e ferramentas foram sendo atualizados numa velocidade cada vez mais crescente, até chegar nos dias de hoje, quando a noção de progresso já traz embutida a noção de obsolescência. Pois bem, o início da revolução industrial permitiu que o progresso fosse sentido na pele pelo homem médio (recorremos novamente ao conceito jurídico), no seu dia a dia e não apenas pelos relatos orais dos antigos, pelos escritos nos incunábulos, pelos rolos de pergaminhos, pelas cunhas de argila, ou mesmo pelas inscrições rupestres.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 12/01/2010 ÀS 09:08 AM
Há certos elementos na composição da realidade que são capazes de nos intrigar de modo profundo e permanente. E são tão presentes em nossas vidas que sobre eles parece não repousar nenhuma dúvida, até que levantemos alguma questão. O fogo, por exemplo, é um deles.
Quando era criança, a gente morava na zona rural e o fogo era estocado nas achas de lenha, no interior de um fogão de pedra e barro, com chapa de ferro. Havia um cuidado enorme para não deixar o fogo morrer, porque era relativamente trabalhoso reavê-lo.
Se o pior acontecia, meu pai, com certa parcimônia e tato, num ritual que ele dominava bem, reavia o fogo perdido, atritando uma lasca de ferro numa pedra de fogo (sílex pirômaco), próximo a um pequeno recipiente contendo cinzas de algodão. A fagulha resultante do choque do ferro com a pedra, caindo na cinza, gerava um minúsculo grão de brasa. Esse grão, soprado de jeito, encimado por uma mecha de palhas secas e desfiadas, era capaz de gerar uma débil labareda que meu pai ia adulando em um ninho de gravetos e lenhas mais finas, até recompor um fogo mais bem disposto e encorpado, e reacendia, em nossa cabana de folhas de palmeira, as possibilidades de cozer os alimentos, ou mesmo afugentar do corpo o frio sibilante das manhãs de junho. Quando meu pai viajava e acontecia de o fogo morrer, minha mãe não tinha o domínio da geração do fogo. Aí sobrava pra mim. E como eu também não tinha a técnica, saía com um caldeirãozinho esmaltado de tampa com furo, ia até o vizinho mais próximo, que ficava cerca de 3, 4 quilômetros, para pedir uma isca de fogo, um chamariz de chama, que eu trazia em forma de um chumaço de carvão em brasa, no meio de outros carvões inertes, previamente acondicionados no pequeno caldeirão. Daí pra frente minha mãe sabia recompor o fogo no fogareiro.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 06/01/2010 ÀS 10:24 AM
Já se tornou um lugar-comum, um apotegma do conhecimento, dizer que o homo sapiens se diferencia dos outros animais pela capacidade de raciocínio e pelo poder da comunicação.
Esse entendimento está inserido em nossa cultura desde os primórdios, tanto assim que Moisés, o escritor javista, autor do Gênesis e mais quatro livros (o Perntateuco, ou Torah dos Judeus) afirma que Deus teria determinado ao homem peremptoriamente: “Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo animal que se move sobre a terra”. Não satisfeito, complementa no versículo seguinte : “ ...todo verde é para mantimento”. Moisés só pôde ter sacado essa ideia megalomaníaca e arrogante porque já era naquele tempo uma noção corrente de que sendo o ser humano dotado de inteligência e de capacidade de comunicação ele teria o direito e até o dever e arrasar o planeta para alastrar a sua própria colônia.
Segundo o biólogo neo-evolucionista Richard Dawkins existem três más razões para se crer em alguma coisa, que são elas: tradição, autoridade e revelação. E por incrível que pareça essa noção de que somos superiores está eivada dessas três pragas do conhecimento. Moisés cristalizava em seu texto um entendimento já firmado pela tradição; ele era um patriarca, portanto senhor de direito para proclamar a verdade, e por último, Moisés escrevia, sem questionar, apenas revelando o pensamento de Deus.
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EDIVAL LOURENÇO
EM 28/12/2009 ÀS 03:35 PM
O conhecimento na antiguidade, mesmo que advindo da experiência e da constatação, para adquirir fundamento de validade era preciso ser atribuído a Deus. Só Deus detinha o dom de proclamar o conhecimento e a verdade. Daí que a ciência e a fé caminhavam juntas e habitavam o mesmo compartimento mental e valorativo. Questão de moda. Hoje em dia, se você residisse num país periférico e ainda assim fosse um físico autônomo genial, e nessa condição formulasse uma fantástica “teoria da corda-brana”, que determina a mecânica e o ritmo dos corpos celestes, o máximo que iria lhe acontecer é ser tachado de doidinho pela vizinhança ignara e escarnecedora.
No entanto, anunciando a mesma doideira, mas residindo num país central e trabalhando ligado a uma instituição de excelência tecnológica como MIT (Massachusetts Institute of Technology), por exemplo, você seria, sem desconfiança, guindado à condição de gênio da raça, de sumidade científica. E não demoraria muito para que fosse agraciado com um Nobel, com toda grana e prestígio que isso proporciona. Daí poderia até aceitar convites para júri em concurso de misses, para dar o primeiro lance no leilão dos óculos de Elton John ou para descerrar a placa de inauguração do monumento aos pamonhas do mundo. Os outros cientistas que se descabelassem para demonstrar a validade ou não de sua teoria extravagante. Mas enquanto isso sua teoria maluca seria engolida como drágea de verdade científica. Nos tempos de Moisés e seu Pentateuco, ou Torá para os judeus, o centro de excelência tecnológica era Deus. O sujeito constatava que comer carne de porco, nas condições de higiene precária de então, era uma fonte certa e segura de lombrigas e doenças. O observador escrevia uma recomendação para que seu povo não comesse daquela carne. Estava certíssimo. Mas para receber a chancela de credibilidade devida ele dizia que o aconselhamento fora ditado diretamente por Deus.
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