Deus inútil e ciência ineficaz
É no mínimo temerário continuar subjugando a Natureza a nossos desejos e caprichos e acreditar que possamos, ao final de tudo, sair imunes de tal empreendimento. Cedo ou tarde a Natureza vai nos cobrar a fatura. E o preço dessa conta poderá ser muito acima da capacidade de solvência do Homo sapiens. Daí, como soe acontecer com os inadimplentes do tráfico de drogas bem como aos da Natureza, teremos que dar quitação com a própria vida. Não a vida individual, porque esta vem sendo cobrada ordinariamente pelo processo de gestão biológica, mas sim a morte coletiva, geral, irrestrita da espécie como um cataclismo irremediável.
Apesar de que não estaremos aqui para curtir a morbidez desse luto, supor que um dia nenhum descendente nosso habitará este planeta, que suportou por certo tempo o desenrolar de nossa saga maluca, é sem sombra de dúvidas um dos sentimentos mais nostálgicos e desolador que o ser humano possa ter. Mais que desolador, é revoltante mesmo, por saber que estamos na corda bamba da existência, mais por estupidez de hábitos que adotamos do que mesmo por determinismos transcendentais. É que a inteligência, que de forma unânime se constitui no distintivo da condição humana, traz em sua gênese o dom de se iludir, de se equivocar. A humanidade, ao contrário do que muitos acreditam, é semelhante às pessoas: quanto mais velha fica, mais equivocada se torna. O avanço de alguns aspectos tem o vínculo de causa e efeito com o atraso de outros. Exemplo: o desenvolvimento tecnológico de intervenção ao meio ambiente se desenvolve numa velocidade maior do que tem o meio ambiente de se recompor, arrastando a humanidade, mais as espécies adjacentes e aderentes a perigos de extinção cada vez mais aterradores. O progresso humano é como a corrida de um cavalo que, ao impulsionar-se para frente, no galope, acaba por arremeter argila para trás.
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O Homo sapiens sempre se sentiu ameaçado e ao mesmo tempo atraído por profecias escatológicas. Desde as religiões arcaicas até as cientológicas de hoje em dia, todas, invariavelmente, têm um viés apocalíptico segundo o qual a redenção da espécie há de passar por uma mortandade espetacular e coletiva, seguida de uma prestação de contas da vida terrena e um processo de classificação final: os bacanas serão expostos em regozijo nas vitrines celestiais e os malas lançados nos autofornos do inferno, numa tribulação radical e eterna, sob o olhar vermelho e os adornos cornoicos do capeta. A história que nos contam do dilúvio, seja o de Noé, seja o de Gilgamesh, foi apenas um ensaio, um teste da maquinaria sinistra, uma prévia do que poderá ser um apocalipse em condições pra valer.
Por mais industrioso e criativo que seja o Homo sapiens, esse animau çinixtro que se irrompeu agora por último do ramo evolutivo da vida, ele não consegue criar coisa alguma sem que desmanche outra. E o que é mais grave: quase sempre lançando mão de um desperdício extraordinário. Qualquer criação humana implica sempre num desmanche de riquezas naturais. Do tipo assim: para se obter uma posta que seja de picanha é preciso derrubar um sem número de metros cúbicos de árvores, consumir não sei quantos carros-pipas de água potável, assorear quilômetros de rio, espalhar pelo céu toneladas nuvens de gás de efeito estufa e assim por diante.
Quem milita com Literatura neste mundo de coisas utilitárias, às vezes se vê instigado a responder de pronto: Para que serve mesmo a Literatura? A resposta parece óbvia, mas na hora de responder assim de chofre e de forma objetiva, acaba-se caindo em apuros.
Se Deus existe, Ele passou muito tempo na moita até que pudesse ser percebido por alguém. O universo, como existência física, é estimado em 14,5 bilhões de anos pelo calendário terreno, quando surgiu de um ovo pré-universal, numa explosão espetacular, cujos estilhaços formam os monumentais corpos celestes. Em um desses estilhaços, dos bem pequenos, é verdade, o Homo sapiens, a nossa espécie primordial, surgiu há cerca de 145 mil anos, ou seja: a nossa existência no universo ocupa o percentual infinitamente miúdo de 0,001% da existência do mundo.
Depois que paguei a última prestação da geladeira eu pensei: agora vou fazer economia para comprar a TV de plasma, para assistir à Copa do Mundo da África do Sul. Afinal, Copa é Copa, uma emoção que só dá de quatro em quatro anos e pra quem já ta ficando assim mais pra lá do que pra cá como eu, pode até ser a última.
Talvez uma das noções mais nostálgicas, pesarosas e tristes que possamos ter é admitir que um dia o nosso planeta seguirá o curso de seu destino sem a nossa presença, sem a presença do Homo sapiens e seus feitos extraordinários. Sem nossas máquinas, sem nossas catedrais, sem nossos túneis, sem nossos poemas, sem nossas paixões, sem nossas crenças, sem nossa semelhança com Deus, sem nosso orgulho de espécie, sem nossos sonhos, sem nossos descendentes reproduzindo tudo isso em maior ou menor grau, mas com pretensões de originalidade.
O Homo sapiens, este bípede implume, mamífero por condição e pretensioso de nascença, é um animal encantador, que se diferencia de toda bicharada pelo o uso da razão e pelo porte da moralidade. E é ao mesmo tempo um tanto çinixtro, exatamente por ser moral e dotado de raciocínio e se negar a usar essas faculdades praticamente exclusivas para se resguardar como espécie, neste momento da história em que toda a fauna humana passeia perigosamente numa frágil e movediça passarela sobre os horrores de um abismo.
Há pouco tempo narrei em crônica um fato inusitado: Eu estava em minha seção de trabalho e a secretária me avisou que havia alguém que queria falar comigo e não quis adiantar o assunto. A secretária entronizou o moço. À primeira vista, não parecia alguém ligado a livros, como as pessoas que costumam me procurar. Alto e esquelético, pele crespa, cabelos maltratados, com jeito de quem tenha crescido com alto déficit calórico e exercesse alguma atividade ao sol, na poeira. Talvez fosse tratador num confinamento de bois.
Você nem vai notar. Quem está chegando agora não dispõe de elementos comparativos para saber se a casa está desarrumada ou se é assim mesmo a arrumação. Mas eu venho de mais longe e posso lhe afirmar com segurança: o mundo anda muito mudado. É bem verdade, insisto: o mundo está revirado para as pessoas mais velhas, que vêm de um tempo de costumes diferentes, de objetos diferentes, de modos de se realizar diferentes. Muita coisa melhorou. Não nego. Em compensação... Bem... com o tempo, você há de convir, o modelo que está em vigor é perverso com a gente.