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MARCOS FAYAD
EM 30/08/2010 ÀS 09:11 PM
Li outro dia num site sobre animais uma coisa que me deixou perplexo de susto e descoberta: li que a águia é uma ave capaz de viver 70 anos. São muitos anos para uma ave, nenhuma vive tanto tempo. Mas por volta dos 40 anos a águia tem que tomar uma difícil e fundamental decisão, porque nessa idade suas unhas cresceram tanto e estão tão compridas e flexíveis que ela já não consegue mais caçar suas presas e sabe que vai acabar morrendo de fome antes de chegar aos 70 anos que poderia completar.
E mais: seu bico que já é alongado e pontiagudo cresce tanto que fica curvo e as penas das asas se tornam tão grossas e pesadas que ela já nem consegue mais voar com a leveza de sempre. Então só lhe sobram duas alternativas: uma é deixar-se morrer pouco a pouco, conformada em ir perdendo a majestade sem voar direito e sem poder caçar. A outra é enfrentar um dolorido processo de renovação que as águias conhecem muito bem e que pode durar mais de 5 meses. As águias envelhecidas voam até o paredão de uma montanha bem alta, se recolhem e se ajeitam num ninho de onde elas não precisarão voar. Quando encontram esse lugar elas começam a bater o bico com extrema força sobre as pedras da rocha até conseguirem arrancá-lo dolorosamente. Daí então ficam quietas pra não gastar energia porque vão ficar sem comer um bom tempo esperando um bico novo crescer. Ele cresce, fica novamente forte e com o novo bico elas começam a arrancar suas próprias unhas pra que caiam e cresçam também novas. Da mesma maneira, com o bico novo elas começam a arrancar as velhas e grossas penas que tornaram seu voo pesado, espera que cresçam e aguarda o grande momento em que, finalmente, vão poder se atirar do alto da montanha pro seu voo de renovação. Aí, sim, elas sabem que poderão viver mais 30 anos. Claro que algumas águias preferem morrer que enfrentar esses meses todos de recolhimento, fome e dor.
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MENALTON BRAFF
EM 30/08/2010 ÀS 08:41 PM
Nossos valores, geralmente formados e sedimentados na infância, eram transmitidos pela família, pelas histórias que se ouviam ao redor da mesa depois do jantar. Meu velho, enquanto viveu e eu meninei, gostava de contar-nos histórias, e, entre aquelas de que mais gostava estavam as histórias de Pedro Malasartes, tradição que nos veio da Idade Média europeia. Histórias exemplares, quase sempre, porque se sabe que é mais fácil reter na memória uma narrativa do que um conceito abstrato. Tenho certeza de que todos os discursos a respeito da ambição excessiva que você ouviu e eu também ouvi, já foram esquecidos. Mas uma história, ah, isso até hoje eu ainda posso repetir.
Aborrecido com o que Pedro Malasartes fizera com sua filha, a princesa, o rei condenou-o à morte por afogamento. Preso no interior de uma barrica, lá foi o Pedro, de carroça, na direção do lago real. Nas vizinhanças do lago havia uma taverna, e os dois funcionários encarregados da execução da sentença real resolveram que a hora era boa para uns copos de vinho. Espiando pelas frestas da barrica, Pedro Malasartes tudo viu. Neste momento aproximava-se uma carruagem ricamente ornamentada. Em sua boleia, ao lado do condutor, vinha um jovem que, por suas vestes, era de alta estirpe.
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EBERTH VÊNCIO
EM 25/08/2010 ÀS 09:37 AM
Rir. Rir pra não chorar. Numa era em que a violência, o estresse e a corrida tresloucada contra o tempo transformam a vida urbana num inferno, por que não sucumbir à tentação e escancarar um sorriso?
Sorrir. Dar trégua ao coração e à bile. É possível que o riso seja bem melhor que sessões de psicoterapia. Afinal, conhecer a si mesmo, enxergar os defeitos não têm graça nenhuma. Vou me ater somente ao humorismo televisivo. Quanto ao teatro, num país com dimensões continentais como o Brasil, certamente há bons atores encenando textos de humor refinado, ao ponto de extasiar a plateia provocando cólicas no baço e urgência urinária.
Porém, o que me parece evidente é que existe uma onda, uma epidemia de “stand up comedy” (tradução plausível: comédia caça-níquel?!) pipocando em território nacional. Apostando no improviso, jovens atores lotam auditórios com platéias também muito jovens, o que não deixa de ser um mérito, desde que o conteúdo tenha suporte. Bem, na pior das hipóteses, ensina-se à juventude o endereço do teatro. Quanto ao humor na internet, assumidamente, sou ignorante. Não acho tempo nem pra manter atualizado o meu correio eletrônico... É surpreendente como milhares de internautas dedicam-se a vasculhar “orkuts e twiters”. Seguir e ser seguido nas trilhas virtuais... Quem sabe, ao abdicar dos livros impressos, do contato com as pessoas e do sexo (uma das mais interessantes diversões que a vida animal pode proporcionar), sobra tempo suficiente para se embrenhar na rede. Já pensaram se toda esta gente comprasse e lesse livros?! Seria a salvação da lavoura para os escritores brasileiros... Utopia. Há que se baratear bastante os preços para permitir o consumo.
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GABRIEL INNOCENTINI
EM 23/08/2010 ÀS 09:42 AM
— Fui para a minha primeira Feira Literária Internacional de Paraty este ano. A Flip chegou à sua oitava edição já meio esvaziada, com poucos nomes que causassem comoção e histeria do público, além de repetir alguns convidados, como Salman Rushdie e Ferreira Gullar. O poeta maranhense parece o tapa-buracos da festa: esta foi sua terceira Flip.
— Fiquei com uma visão esquisita da Flip. É incrível que o Brasil tenha conseguido organizar um evento no qual escritores renomados venham para uma cidadezinha do interior do Rio de Janeiro para ficar quatro dias conversando sobre literatura. Porém, fica a dúvida: qual é o papel do escritor na sociedade do espetáculo?
— Foi Salman Rushdie quem se aproximou desta reflexão, ao afirmar que preferia não explicar seu novo livro, que gostaria que o leitor chegasse de forma pura ao livro, sem saber nada da história nem do autor. Estamos longe de um J. D. Salinger, que raramente se deixou fotografar. Imaginá-lo na Flip é um delírio - até porque ele está morto. Dalton Trevisan, para ficarmos em um exemplo caseiro, dificilmente seria seduzido a participar de um evento como esse.
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MENALTON BRAFF
EM 23/08/2010 ÀS 09:19 AM
Dia desses, um jornal diário publicou uma crônica em que este antigo rabiscador (atualmente um digitador) propunha um dia para se homenagear a sogra. A resposta não me veio de sogra nenhuma, mas de uma intelectual das mais respeitadas da região, cujo nome declino por não estar autorizado a expô-la à sanha popular. Essa intelectual, que é minha amiga, mandou-me um emeil fazendo-me o reparo ao informar que o Dia da Sogra já existe e que é o dia 28 de abril. Agradeço pela informação, prometo marcar o dia em meu calendário e ainda sugiro àqueles que, como eu, adotaram a mãe de seu cônjuge como sua segunda mãe que façam o mesmo. Elas merecem.
Mas não é só isso que quero, minha cara amiga. Na verdade eu estava achando que um dia por ano é como aniversário: tão festejado nos primeiros anos quanto esquecido depois de certa idade. Um dia por ano sempre me pareceu muito pouco para que se dedique à reverência desta figura duplamente materna como de qualquer outra que a mereça. Elas merecem mais, muito mais, e não tenho culpa se você não gosta de sua sobra ou se ela não vai muito com a sua cara.
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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 22/08/2010 ÀS 12:09 PM
Será lançado na Inglaterra, em setembro, o livro “A Primeira Guerra de Hitler”, do historiador Thomas Weber, da Universidade de Aberdeen (Escócia). Weber sustenta que mais de 70% de seu livro é baseado em fontes ainda não utilizadas por outros pesquisadores. Parte de suas revelações foi retirada dos arquivos do 16º Regimento de Reserva da Infantaria Bávara (RIR 16). Os arquivos não haviam sido catalogados nem utilizados pelos especialistas.
Weber diz que os historiadores compraram a tese, elaborada pelos nazistas, que reescreveram depoimentos, de que Hitler esteve na “vanguarda” da Primeira Guerra Mundial, como soldado e, depois, cabo. Como “estafeta”, o militar austríaco, a serviço do exército alemão, levava mensagens àqueles que estavam no front. É a tese tradicional. O historiador contesta e afirma que Hitler era mesmo portador de mensagens, mas para militares que atuavam na retaguarda. Segundo reportagem do jornal espanhol “ABC”, “Adolf Hitler não foi um herói na Primeira Guerra Mundial”, com material da agência EFE, o pesquisador encontrou dados que indicam que o “mensageiro estava sempre a mais de cinco quilômetros da linha de frente” da batalha. Em 1918, Hitler ganhou a cruz de ferro, proposta pelo tenente judeu Hugo Gutmann. A reportagem do jornal, mera transcrição de um texto de agência, não cita “Hitler”, do inglês Ian Kershaw, embora a alentada biografia tenha sido publicada na Espanha em dois volumes.
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FLÁVIO PARANHOS
EM 18/08/2010 ÀS 09:40 AM
De uns tempos pra cá inventaram um eufemismo politicamente correto para burrice — analfabetismo funcional. O sujeito sabe ler, mas não sabe interpretar. Considero um insulto aos analfabetos — de fato — inteligentes, além de se perder em contundência, o que é uma pena, esteticamente falando.
Sei que um escritor elegante deve ignorar comentários idiotas ao que escreve de forma magnânima, que não adianta defender-se atacando, e sei que parecerá que é o que farei aqui. Mas não. Quer dizer, sim e não. Sim, quebrarei o protocolo e citarei comentários idiotas a coisas que escrevi aqui e alhures. Não, não pretendo me defender de nada, até porque acho divertido e, mesmo, confesso, eventualmente faço de propósito, já sabendo que a gente burra morderá a isca. O que não me impede de me surpreender com o fato de que sempre há gente burra mordendo minhas iscas.
Disponibilizarei abaixo uma crônica minha publicada no jornal “O Popular” de 09 de agosto de 2010 e minha coluna de Filosofia & Cinema da revista “Filosofia Ciência & Vida” (Editora Escala) de No. 40 (a que está nas bancas é a No. 49, portanto a que cito é de 9 meses atrás. A propósito, Carlos Willian, seu preguiçoso, não vai trocar a imagem da revista no lado direito da Bula, não?!). Estas, juntamente com “Por que Avatar é idiota”, receberam a manifestação “carinhosa” (atenção gente burra, estou sendo irônico, quase sarcástico) de alguns leitores imbecis que levaram ao pé da letra o que está escrito. No caso da crítica a “Avatar” e da coluna, meu crime foi menosprezar as mulheres, incluindo minhas próprias esposa e filhas (!!!!!). Já no caso da crônica, eu “incitei ao assassinato” (tive uma crise de riso com essa) e... o que mais? Deixa ver se lembro... Algo como “o mundo já está violento e sentimos nossa pequenez, etc, etc”. Pequenez de neurônios, só se for.
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EBERTH VÊNCIO
EM 18/08/2010 ÀS 08:52 AM
Sebastiana ralhou com a filha quando ela teimou que não levaria a marmita para o pai na roça, não. A princípio, a menina foi firme. Então apanhou com vara de marmelo (aquela que verga, mas não quebra, que nem gente de fibra), ganhando vergões nas batatas das pernas.
Foi, contrariada, mas foi. Seguiu pela trilha aberta com o pisoteio do vai-e-vem sobre o capinzal, e que levava até o lugar onde o pai capinava. A roça — e disto ela tinha certeza — não passava de um purgatório em plena face da Terra. A missão: acabar com as fomes do pai.
A menina já não controlava mais os sentimentos. Não tinha certeza se sentia medo, raiva ou nojo dele. Da mãe omissa nunca mais esperou adjutório. Passou a compreender melhor a irmã mais velha, e dela se amigar. Bem entendia o porquê do seu silêncio, da sua falta de ânimo para as brincadeiras no quintal, da tristeza desmedida. Eram parceiras na infelicidade. Pois foi assim com a primogênita: Raimundo conduziu a menina no meio do capim alto, arranhando, judiando da tez das pernas, até chegarem ao jatobá antigo. Ali, sob a sombra frondosa, no esconderijo da relva, na distância dos olhos e dos ouvidos dos outros seres da família, tramou contra a filha, deflorando-a sem se melindrar com o parentesco e nem com a própria meninice, condição que ainda mantinha o corpo dela franzino, miúdo, frágil, e destituído dos pelos e dos desvelos de uma mulher feita.
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ALEX SENS FUZIY
EM 18/08/2010 ÀS 08:38 AM
Pense num ingrediente simples para uma receita. Apesar de simples, ele transforma moléculas e altera químicas; se usado na dose certa, invalida pequenos erros, enfatizando aroma e sabor ao prato já pronto. O ingrediente é um triângulo amoroso: uma mulher recém-casada, tão inconstante e volátil quanto a vida; um escrivão da igreja, hormonal como um adolescente por baixo da velha casaca negra; e um padre, tão humano quanto os outros, de alma observadora e coração preso. O nome do prato: “Manhã Transfigurada”.
Publicado originalmente em 1982 em formato médio pela L&PM Editores, o quarto romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, “Manhã Transfigurada”, retorna ao catálogo da editora na Coleção L&PM Pocket. Através de 123 páginas, o triângulo se forma rapidamente, sentimentos são colocados à prova e qualquer certeza é trágica devido à improbabilidade de ações e desejos.
Ambientada no Rio Grande do Sul (terra do escritor) do século 18, esta manhã narrada, transformada, desfigurada e emocionalmente caótica, é resultado dos dias de indecisão, angústia e paixão dos três personagens principais, quase únicos, numa cidade chuvosa, pequena, silenciosa até na dor. Camila, o pináculo do triângulo, é presa numa casa pelo poder eclesiástico quando o marido descobre que ela não é virgem. O pedido de anulação do casamento e documentos referentes ao caso são levados à casa de Camila por Bernardo, escrivão da igreja. Jovem, deslumbrado, cansado do próprio ofício e da rigidez que o cerca, ele se entrega à carne exposta que lhe é oferecida e assim começa o primeiro romance. Na outra ponta está o padre Ramiro, homem mais velho, experiente, conhecedor dos pecados e dos próprios limites. Percebendo o romance entre seu escrivão e a mulher malvista, logo surge ciúme e desejo de poder sobre a situação.
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EULER DE FRANÇA BELÉM
EM 16/08/2010 ÀS 08:43 AM
A imprensa brasileira é cínica ou mal informada. Não se cansa de mostrar a “volta” de Fidel “Bela Lugosi” Castro ao cenário político, mas não explica o motivo do ressuscitamento do encanecido ditador.
Marqueteiro, Fidel acredita que, como Rául Castro é insosso, está se contrapondo àquilo que os dissidentes estão revelando à imprensa internacional. Exilados na Espanha, estão falando horrores sobre o regime e as prisões da dinastia Castro. Fidel, que ainda despertava alguma paixão, agora passou a ser apontado como ditadorzinho. Vários países europeus (não são os Estados Unidos) estão cobrando mudanças em Cuba. O dirigente da República Tcheca é preciso ao sustentar que a liberação de presos, gesto humanitário (apenas político, para os comunistas), não significou nenhuma abertura.
Ao reaparecer, Fidel acredita que ocupa, por se avaliar como “gigante”, o espaço das denúncias e esvazia a pressão pela redemocratização de Cuba. Mas não é o Fidel de há 20 anos. Sempre que ressurge, aparentando ter saído do sarcófago, se torna o retrato de Cuba. É a imagem precisa da decadência sem nenhuma elegância de uma ditadura. A intelectual cubana Yoani Sánchez (que não é apenas uma blogueira, como diz Nádia Guerra) publicou um texto adequado, no “Estadão”, sobre a “volta” do dinossauro. O mundo pode ter dado destaque à aparição (palavra apropriada), mas os cubanos não se importaram. Fidel não morde mais. Os dentes caíram. Felizmente.
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